Nilson desafia indústria e insiste na produção de erva-mate caipira
Lida passada de pai para filho tenta ganhar espaço fora do circuito industrial
Nilson Ramos Schinaider, 38 anos, fala de erva-mate como quem fala de alguém da família. Não é força de expressão. Ele cresceu em Amambai vendo o pai, Nelson Ramos Schinaider, hoje com 59 anos, cuidar do erval “no sufoco”, regando muda por muda para não perder o plantio. “Desde criança eu me criei mexendo com isso aí”, diz. “É um negócio que eu sou apaixonado.”
RESUMO
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Nilson Ramos Schinaider, produtor rural de Aral Moreira (MS), mantém viva a tradição familiar da produção artesanal de erva-mate caipira, desafiando o domínio da indústria. Com um processo que exige paciência e dedicação, sua produção se diferencia pela técnica manual de sapeco no fogo, em contraste com o método industrial a vapor. O desafio vai além da produção. Segundo a Agraer, Mato Grosso do Sul importa 90% da erva-mate consumida no estado, com a produção local suprindo apenas 10% da demanda. Apesar das dificuldades de mercado, Schinaider persiste na atividade iniciada por seu pai em 1994, defendendo a qualidade superior do produto artesanal.
A cena se repete há décadas no mesmo pedaço de terra, hoje registrado em Aral Moreira. O pai começou a plantar por volta de 1994. Durante anos, a família produziu erva-mate para vender a terceiros, abastecendo a indústria sem aparecer no pacote. “A gente sempre teve erval. Sempre. Só que vendia para os outros fabricarem”, resume Nilson.
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Essa mudança veio quando ele decidiu assumir a última etapa do processo. Fabricar a própria erva, do jeito que aprendeu em casa. “Agora eu resolvi fabricar”, diz, com a naturalidade de quem sabe que a escolha não é simples. A erva que ele produz é chamada de caipira, sapecada no fogo, feita de forma manual. “Não é essa erva feita a vapor, industrializada. A nossa é diferente.”
Diferente e, segundo ele, injustamente desacreditada. “O povo tem isso na cabeça, que erva caseira é aquela erva forte demais, que dá fome antes da hora. E não é”, afirma. O argumento mais forte não vem do discurso, mas da experiência. “Eu deixo a erva no comércio e falo: ‘vou estar na cidade até amanhã’. No outro dia o cara liga. Sempre liga.”
O problema, insiste, não está na terra. “Aqui tem muita erva. Aral Moreira, [Coronel] Sapucaia, Amambai, Ponta Porã… tem sim. O povo que não conhece.” Para ele, o maior gargalo é fazer o produto sair do anonimato. “O difícil é o mercado. Produzir, a gente produz.”
Produzir, no entanto, exige paciência quase artesanal. A semente pode levar até quatro meses para nascer. O pé demora de um a dois anos para realmente “pegar”. O primeiro corte, no sistema adotado pela família, só vem depois de três anos. “Por isso quase ninguém quer plantar”, diz. No começo, a planta exige água todos os dias e sombra constante. “Se secar, ela não aguenta.”
Depois de vingada, a lógica muda. “Aí ela aguenta seca, aguenta tudo. Você corta, ela brota de novo. Nós temos erva lá com 25 anos.” Nilson fala com respeito quase religioso. “É uma árvore enjoada. É só você ver.”
O cuidado começa ainda na muda. Ele critica mudas compradas prontas, produzidas em tubetes. “Meu pai não quer nem de graça”, afirma. A família prefere produzir as próprias, usando terra de mata, rica em matéria orgânica. “Aí você vê que a muda vem vistosa. Pega mesmo.”
Enquanto Nilson tenta ganhar espaço no comércio, os números oficiais ajudam a entender por que a erva local ainda é exceção no copo. Segundo a Agraer (Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural), Mato Grosso do Sul importa cerca de 90% da erva-mate consumida no Estado. A produção local atenderia apenas 10% da demanda das indústrias ervateiras regionais, concentrada em pequenas propriedades no sul.
Em 2024, a agência abriu licitação para a compra de 60 mil mudas de erva-mate, com foco em agricultura familiar em dez municípios, entre eles Amambai e Aral Moreira. A proposta era tentar reverter um cenário histórico de queda na produção, depois de um período em que o Estado chegou a liderar o ranking nacional, ainda nos tempos da Companhia Mate Laranjeira.
Para Nilson, os dados não negam a realidade que ele vê todo dia. Apenas mostram o tamanho do desafio. “A erva existe. O que falta é engatar o mercado”, resume. Ele calcula que um hectare bem manejado pode render milhares de quilos por ano, com retorno maior do que culturas tradicionais. “Soja não sobra isso aí por hectare, nunca”, compara.
O Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) de MS também reconhece a dificuldade de transformar tradição em negócio estruturado. Para a analista técnica Daniele Muniz, empreendimentos com identidade regional têm alto potencial porque oferecem algo que não pode ser replicado fora do território. “O consumidor busca autenticidade, história e conexão cultural”, afirma.
Ela avalia que negócios assim dialogam com consumo consciente, sustentabilidade e economia criativa, mas precisam de visibilidade, gestão e canais de venda para crescer. “Muitas vezes o produto é bom, mas falta acesso a mercado.”
É exatamente essa ponte que Nilson tenta atravessar. Entre uma viagem e outra para apresentar a erva, ele segue repetindo o mesmo roteiro. “É boca a boca. Deixar o pacote, deixar o produto falar.” A convicção vem do vínculo com a planta. “Isso aqui é da minha vida. Eu vi meu pai sofrer para molhar erva quando eu era moleque", termina.
Para quem deseja experimentar a erva-mate caipira produzida pela família Schinaider, ela está disponível no Mercado Municipal de Amambaí ou pode fazer encomendas pelo (67) 99256-9068.
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