Festa só com DJs mulheres mostrou força feminina na cena eletrônica
Mesmo em um domingo e no fim do mês, festa na Esplanada reuniu público fiel do psytrance e lotou a pista
Nem o domingo nem o fim do mês seguraram quem vive a cena underground em Campo Grande. A Plataforma Cultural, na Esplanada Ferroviária, ficou tomada por fãs de psytrance em uma festa com programação 100% feminina, que celebrou os 10 anos de carreira da DJ Keertana e virou um ato coletivo de resistência e fortalecimento das mulheres na música eletrônica.
Além de ser uma opção de diversão na cidade, o evento mostrou que o eletrônico underground segue vivo em Mato Grosso do Sul e movimenta um público fiel, apaixonado e disposto a ocupar pistas mesmo longe do circuito comercial da cidade.
Idealizadora da festa, DJ Keertana transformou a própria comemoração em vitrine para outras mulheres da cena. Natural de Campo Grande e representante feminina da gravadora Resi Records, de Brasília, ela reuniu apenas DJs mulheres no palco justamente para reforçar uma presença que, segundo ela, nem sempre existiu quando começou a tocar.
“Quis trazer só mulheres justamente para mostrar que a gente existe, ocupa esse espaço e faz acontecer. Queria que essa festa fosse mais do que um aniversário. Quis criar um espaço onde as meninas se sentissem representadas, acolhidas e inspiradas a ocupar a cabine também”, resume a DJ.
Com uma década de trajetória no Psytrance, Keertana construiu o nome dentro de vertentes mais rápidas e intensas do gênero, em sets conhecidos pelo clima hipnótico e pela pesquisa musical. Mas, além da técnica, a DJ também carrega a experiência de quem cresceu em uma cena onde os homens quase sempre ocupavam os maiores espaços.
Por isso, o aniversário virou também um ato político e cultural. Além das apresentações, a festa contou com feira underground, alimentação, tatuagem e arrecadação voluntária de alimentos para a Cufa (Central Única das Favelas).
Entre as artistas convidadas estava a DJ Renaissance, nome artístico de Camila Rios, de Campo Grande. Há quase dois anos tocando profissionalmente, ela conta que entrou na música eletrônica primeiro como frequentadora das raves.
Para ela, existe um preconceito equivocado de que a cena eletrônica em Campo Grande é pequena ou fraca. “As pessoas pensam que não existe público, mas existe sim. Quando os produtores apresentam a essência do Psytrance de verdade, as pessoas se conectam. O Psytrance acolhe muita gente diferente e sempre tem uma vertente em que a pessoa se encontra”, explica.
Camila acredita que eventos como o LadiesSoundss ajudam a fortalecer a cena e a dar visibilidade para mulheres DJs da região. “As pessoas ainda estão acostumadas a ver homens comandando a cabine. Então um line-up 100% feminino levanta um holofote para as DJs regionais. Mostra que a gente existe e sabe fazer um set tão bom quanto qualquer homem”, afirma.
De Dourados, Cindy Katheryn, a DJ Ckay, também participou da festa e destacou os desafios de manter a cultura Psytrance viva no interior do Estado. “Em cidades menores a cena ainda é mais reduzida, então os DJs precisam se unir para os rolês acontecerem. A gente precisa criar visibilidade”, comenta.
Segundo ela, eventos gratuitos e culturais cumprem papel importante ao aproximar novos públicos da música eletrônica underground. “Muita gente nunca foi numa rave por causa do valor do ingresso ou até por não conhecer. Então quando tem um evento aberto assim, a pessoa consegue ter a experiência, conhecer o Psytrance e entender a energia”, explica.
Para Cindy, o diferencial das mulheres na cena está justamente na sensibilidade e na forma de construir a experiência musical. “Sempre associaram muito a figura do DJ homem na noite, mas a mulher traz um toque diferente, mais sensível, envolvente. Isso faz diferença dentro da pista”, avalia.
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