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Longe dos netos, maior que o coronavírus é a saudade dos avós

Se já é difícil manter as crianças em casa, imagina conseguir deixar os avós, que estão dentro do grupo de risco, longe dos netos?

Por Paula Maciulevicius Brasil | 18/03/2020 09:23
Vó Herany e neto Antônio estão isolados juntos como manda a recomendação. (Foto? Paula Cayres)
Vó Herany e neto Antônio estão isolados juntos como manda a recomendação. (Foto? Paula Cayres)

Quando soube que seria avó, 4 anos atrás, dona Herany até se aposentou para dedicar tempo e energia na criação do menino. Antônio nasceu com lábio leporino, e dispensava maior atenção. Se bem que no coração de avó, neto tem todo o espaço do mundo não importa qual for a condição.

"Eu já tinha tempo, então pedi para me aposentar em vez de continuar", lembra Herany Lobo Dias de Lima, de 61 anos.  Até o ano passado, avó e neto passavam as tardes juntos, enquanto ele ainda não ia para a escola. Quando a rotina mudou, as manhãs que foram reservadas para isso.

Dentro do grupo de risco, nem tanto pela idade, mas por ter tido câncer recentemente, dona Herany deve evitar aglomerações enquanto estamos no momento crítico da transmissão do coronavírus. No entanto, a decisão da família foi, em vez de isolar a avó, deixar Antônio longe da rua. "Como ele não está indo à escola, fica comigo. Se tivesse indo, tinha que ficar longe de mim, porque apesar da saudade, é melhor prevenir", reconhece Herany.

A filha dela, Juliana Lobo, e mãe de Antônio já previa o sofrimento que causaria aos dois com a recomendação de isolamento. "Aqui eu optei por tirar o Antônio de tudo para proteger ela, porque ela ficaria doente sem vê-lo. Os dois são unha e carne, não tem um dia que ele não venha vê-la", descreve a mãe.

Adoecer é modo de falar, mas que ficar longe do neto ia deixar a avó triste, isso sim. "E tristeza baixa a imunidade, por isso optei por parar as atividades dele, se continuássemos, teria que isolar ele dela, então estamos os três de quarentena", fala Juliana.

A relação de uma avó e neto é tão profunda que só sente quem já tem o privilégio de viver essa experiência. E, diante deste sentimento, se torna difícil ressignificar a vida sem a presença deles. "Ser avó é uma fase diferente, porque a gente já passou da etapa atribulada de criar filhos, trabalhar 8h por dia, levar no colégio, no inglês. Agora a gente já está mais calma pela idade, tenho mais paciência, você curte mais. Por isso que falam que avó estraga, não é isso, é que o que antes te incomodava, não incomoda mais", relata dona Herany.

Cuidados 

Médica infectologista, Carolina Neder, explica que o primordial agora é evitar que todo mundo fique doente ao mesmo tempo. "Isolamento, cancelamento de aulas, lugar aglomerados, tudo isso tem o objetivo de fazer com que a gente não tenha muitos doentes todos juntos, se não o sistema de saúde não aguenta".

Por terem imunidade mais baixa, e geralmente fazer uso de remédios contínuos ou ter doenças, os idosos entram na faixa de risco. "Estamos sofrendo pela distância? Sim, mas é que a gente não sabe o risco que podemos trazer aos idosos. Então tem que prevenir este contato com as crianças", reforça Carolina.

Na teoria, ainda se há poucos artigos científicos, mas o que se tem visto até agora é que crianças podem passar vírus respiratórios. "Não é que todo mundo vai ficar sem ver os avós, mas é bom evitar", recomenda a médica.

Meme reproduz muito bem a dificuldade deixar avós em casa.
Meme reproduz muito bem a dificuldade deixar avós em casa.

O meme acima tem corrido solto às redes sociais, e não é para menos. Quem tem avós ou pais que já fazem parte do grupo de risco que sabem como será fazê-los entender que é preciso tomar cuidado. Conscientes, tem famílias que já fizeram até "despedida" entre eles e as crianças, e os que já estão recorrendo às chamadas de vídeo para matar as saudades.

Por experiência própria, não está sendo fácil fazer com que a minha mãe não venha até a minha casa ou até mesmo evite sair. A última vez que ela viu as crianças foi no sábado, e ontem ela já chorava de saudades.

Conversamos por chamada de vídeo no WhatsApp e ela viu um pouquinho do rostinho e da carinha de arteiro do neto. Ela perguntou se o meu pequeno sentia saudades, depois ela mesmo disse "ele nem sabe o que isso significa ainda". E minha família, óbvio, não é a única.

"Minha avó mora com a minha mãe e é diabética, meu sogro e sogra também estão no grupo de risco. Decidimos evitar o contato físico agora para proteção de todos", fala a servidora pública Ariela Castelani, de 36 anos. Mãe de duas crianças, um de 6 e o outro de 1 ano e 4 meses, apesar de tudo ter acontecido de forma muito dinâmica, a família tem tentado seguir as orientações dos órgãos de saúde.

Pedro e Cecília com a avó Rosemary em chamada de vídeo. 
Pedro e Cecília com a avó Rosemary em chamada de vídeo.

"Conforme fomos vendo as notícias e que os idosos faziam parte do grupo de risco e que poderia acontecer das crianças passaram para eles, a gente resolveu dar uma segurada", explica. Em relação aos avós, Ariela vem falando, com jeitinho, que é mais seguro cada um ficar no seu cantinho. "Na hora minha mãe achou que era brincadeira, mas entendeu. Ela sabe que é importante. Nós já temos o hábito de nos falarmos todos os dias, então continuamos por telefone", resume.

Do outro lado, a avó, Rosemary Joaquim, de 57 anos, foi bem sucinta. "Quase tive um treco, meu Deus, ficar sem ver meus netos, mas eu sei que é pelo bem de todos". Isso porque ela tinha visto os netinhos dois dias antes. "Mas já sinto falta do cheirinho deles e da bagunça".

Os sogros da médica veterinária Daniela Salomão Mascarenhas, de 29 anos, foram além das recomendações. Avós de seis netos, eles resolveram fazer uma despedida no último fim de semana, uma "pizzada" antes de ficarem resguardados. "Despedida entre aspas, porque vamos começar a ter cuidados de levar as crianças lá, porque a gente acaba expondo eles. Eles pediram para a gente ficar um pouquinho afastados deles".

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