Arroba bate recorde e chega a R$ 373 com pressão global
Aumento reflete oferta curta, exportações fortes e alta de custos
O preço da arroba do boi gordo bateu recorde nesta semana no país. Atingiu, na quarta-feira, dia 15, os R$ 373,30, equivalente a US$ 73,58, segundo o indicador do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada). A marca histórica decorre de um conjunto de fatores, como ciclo pecuário, alta demanda internacional e guerra no Oriente Médio, e já reflete na ponta da cadeia local, no consumidor.
RESUMO
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O preço da arroba do boi gordo bateu recorde e chegou a R$ 373,30, impulsionado por retenção de matrizes, menor oferta de animais para abate, forte demanda externa, sobretudo de Estados Unidos e China, e alta dos custos com diesel após a guerra no Oriente Médio. O aumento pressiona a carne ao consumidor e afeta negócios e o consumo. Em Mato Grosso do Sul, as exportações cresceram 44,1% em receita no primeiro trimestre de 2026.
O presidente do Sincadems (Sindicato das Indústrias de Frios, Carnes e Derivados de Mato Grosso do Sul), Regis Luis Comarella, detalha os fatores que impulsionaram a alta. O primeiro aspecto, segundo ele, é o próprio ciclo pecuário.
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“Estamos na fase de retenção das matrizes (fêmeas), em que os produtores seguram esses animais para produzir mais bezerros, impulsionados pela valorização da cria. Isso gera escassez de animais para o abate, elevando o preço do boi gordo e do bezerro”.
Outro ponto, conforme ele, é a grande demanda internacional, impulsionada pelos Estados Unidos e pela China. “No caso dos Estados Unidos, eles enfrentam sua pior crise na pecuária em 75 anos, com uma redução muito grande do seu rebanho. Isso ocorre por várias circunstâncias, como seca, altos custos de produção e ciclo pecuário”.
Comarella explica que, em 2026, a China estabeleceu cotas anuais de importação de carne bovina, visando proteger os produtores locais. Para os Estados Unidos, 164 mil toneladas, das quais o país conseguiu cumprir somente até o momento 0,33%, e para o Brasil, 1,1 milhão de toneladas, que devem ser preenchidas até o fim de maio.
Outro fator da equação, conforme o presidente do Sincadems, foi a guerra no Oriente Médio, entre os Estados Unidos, Israel e o Irã, o que pressionou os preços do petróleo no mercado internacional, refletindo na alta do preço do diesel no país e ampliando os custos de produção.
O conjunto de oferta reduzida, demanda aquecida e aumento dos custos de produção acabou provocando a disparada nos preços da arroba no país, segundo ele. Essa situação, entretanto, não deve se prolongar, conforme o dirigente.
“Logo após a alta já houve uma redução de R$ 5 no preço da arroba, e esta semana deve cair ainda mais R$ 5. Isso ocorre porque a cota da China está para ser preenchida e eles não estão comprando mais nada, pois depois haverá uma sobretaxa de 55%. A carne produzida após o preenchimento da cota terá que ganhar um destino, seja um novo mercado, como o próprio americano, mas ninguém remunera tão bem quanto os chineses, ou o mercado interno, e isso vai pressionar os preços para baixo”, aponta.
O presidente do Sincadems comentou que esse pico de preços não chegou a ser repassado aos consumidores, que já sentiam, no entanto, um aumento em razão da valorização que vinha ocorrendo anteriormente no produto. “A maior parte do aumento vinha sendo segurada pelo varejo, que havia apertado suas margens. O repasse de aumentos como esse não é imediato”, explicou.
O momento de mercado, que indica tendência de baixa para os próximos meses, pode, conforme ele, mudar rapidamente nos próximos 15 a 20 dias, novamente influenciado pelo panorama externo.
“A China confirmou casos de febre aftosa no seu rebanho. Não sabemos ainda como isso pode afetar sua produção e sua demanda. Pode ser que, para atender seu mercado, exista uma revisão da cota ou mesmo que eles passem para o Brasil a cota que era dos Estados Unidos. Isso provocaria aquecimento novamente dos preços, mas temos que aguardar”, aponta.

Consumidor - A complicada equação afeta diretamente a população, desde quem consome apenas o produto até quem trabalha diretamente com a carne bovina, como o assador profissional Leandro Santos Alemão, o “Chama o Lê”. “Cada vez mais sobe. Nós, que vivemos de churrasco, enfrentamos dificuldades. O preço da carne subiu muito. A carne hoje é ouro”.
Ele diz que o aumento do preço da carne vem impactando no seu negócio, apesar de ter se especializado em entregar, nos eventos que realiza, um produto com mais qualidade, que seja um diferencial. “A margem de lucro acaba diminuindo um pouco e você precisa ter jogo de cintura. Sem isso, infelizmente, não se consegue viver do mercado do churrasco como nós”.
Além do seu negócio, o empresário percebe a mudança também no cotidiano. “Hoje está complicado o consumo de carne na nossa mesa. Percebemos isso, às vezes até com clientes. Infelizmente, até os cortes mais básicos estão muito caros”.
Exportações - A exportação de carne bovina in natura em Mato Grosso do Sul cresceu 44,1% em receita no primeiro trimestre de 2026, na comparação com o mesmo período de 2025, passando de US$ 338,8 milhões para US$ 488,2 milhões.
Dados do MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio), compilados pela Famasul no Boletim Casa Rural Pecuária, mostram que o volume embarcado também avançou 24,5%, de 67,1 mil para 83,5 mil toneladas.
A China manteve-se como principal destino, com 26,841 mil toneladas adquiridas, preço médio de US$ 5,68 por quilo e faturamento de US$ 152,465 milhões, o equivalente a 31,23% da receita total.
Na sequência aparecem Estados Unidos (24,01%), Chile (11,41%), Uruguai (4,79%) e Israel (3,12%).
No acumulado de janeiro a março, Mato Grosso do Sul foi o quarto maior exportador brasileiro de carne bovina in natura, com 12,3% da receita nacional, que somou US$ 3,9 bilhões e 701,5 mil toneladas embarcadas.


