Estoque menor nos EUA e safra reduzida em MS dão força ao mercado do milho
Relatório aponta queda na produtividade e nos estoques norte-americanos, enquanto Estado deve colher 20% menos

O mercado do milho ganhou um fator adicional de sustentação após o USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) reduzir as projeções de produtividade e de estoques norte-americanos para a safra 2026/27. O relatório também apontou queda no estoque mundial projetado e, para o Brasil, reduziu em 1 milhão de toneladas a estimativa de estoques finais. Em Mato Grosso do Sul, o movimento internacional ocorre ao mesmo tempo em que o Estado enfrenta uma segunda safra de milho menor e ainda em processo de colheita.
RESUMO
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A análise conjunta dos dados do USDA, da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) e da Aprosoja/MS mostra um cenário mais favorável à sustentação das cotações do milho, embora não signifique necessariamente uma alta dos preços. O informativo econômico da Aprosoja destaca que o comportamento do mercado dependerá também da evolução da colheita, da disponibilidade de armazenagem, da demanda das indústrias e das condições logísticas.
O relatório WASDE de agosto foi o primeiro do ciclo a utilizar uma estimativa de produtividade de milho e soja nos Estados Unidos baseada em levantamentos de campo, substituindo a projeção de tendência utilizada no relatório de julho. No caso do milho, a produtividade norte-americana foi revisada de 183 para 180,7 sacas por acre. A redução ocorreu mesmo com uma área plantada maior e contribuiu para apertar o balanço de oferta do país.
Ao mesmo tempo, a previsão de exportações de milho dos Estados Unidos aumentou de 3,2 bilhões para 3,275 bilhões de bushels (unidade de medida de capacidade para produtos secos usada nos Estados Unidos). Com uma produtividade menor e exportações maiores, os estoques finais projetados para o país recuaram de 1,790 bilhão para 1,653 bilhão de bushels. Já o preço médio recebido pelos produtores norte-americanos foi elevado de US$ 4,40 para US$ 4,50 por bushel.
No mercado internacional, o estoque final mundial de milho projetado para a safra 2026/27 caiu de 275,26 milhões para 274,66 milhões de toneladas entre os relatórios de julho e agosto. Embora a redução seja de 600 mil toneladas, ela reforça o cenário de maior aperto no balanço global, especialmente diante da redução registrada nos Estados Unidos. Para o Brasil, o USDA diminuiu de 11,10 milhões para 10,10 milhões de toneladas a projeção de estoques finais para o próximo ciclo.
Outro elemento considerado na análise internacional é a oferta de milho de importantes concorrentes. Segundo o informativo, Ucrânia e União Europeia seguem com oferta restrita, enquanto a Argentina manteve suas projeções. A menor disponibilidade desses fornecedores abre espaço para os grandes exportadores sul-americanos, entre eles o Brasil.
Para o Brasil, o USDA manteve em agosto as projeções para a safra 2026/27, que será plantada a partir de setembro. A estimativa é de 139 milhões de toneladas de milho, com exportações projetadas em 44 milhões de toneladas. Os números não devem ser confundidos com a safra 2025/26, que já está em processo de colheita e é analisada separadamente nos dados nacionais e estaduais.
A dimensão da segunda safra ajuda a explicar a atenção dada pelo mercado ao andamento das lavouras de Mato Grosso do Sul. No 9º Levantamento da Safra de Grãos 2025/26, divulgado pela Conab em junho, a produção brasileira de milho foi estimada em 140,5 milhões de toneladas, sendo 107,9 milhões de toneladas provenientes da segunda safra. O volume representa mais de três quartos da produção nacional de milho projetada pela companhia para o ciclo.
Em Mato Grosso do Sul, a segunda safra de milho 2025/26 apresenta uma combinação de maior área e menor produtividade. Conforme o acompanhamento da Aprosoja/MS e do Projeto SIGA-MS, foram cultivados aproximadamente 2,206 milhões de hectares, aumento de 3% em relação ao ciclo anterior. Apesar da expansão da área, a produtividade média esperada caiu 22,4%, para 84,2 sacas por hectare.
Com isso, a produção estadual está estimada em 11,139 milhões de toneladas, uma redução de 20,1% em relação à safra anterior. O desempenho reflete as condições enfrentadas pelas lavouras durante o desenvolvimento, marcado por estiagem e irregularidade das chuvas.
A colheita também avança abaixo do ritmo registrado no ano passado. No acompanhamento divulgado em 11 de agosto, o SIGA-MS apontava que metade da área monitorada já havia sido colhida, percentual 6,4 pontos abaixo do observado no mesmo período da safra 2024/25. O avanço ocorre de maneira desigual entre as regiões do Estado, enquanto chuvas irregulares, ventos fortes e ocorrências pontuais de granizo permanecem como fatores de atenção para o encerramento dos trabalhos.
Para o analista de Economia da Aprosoja/MS, Raphael Gimenes, a combinação entre a redução dos estoques internacionais e a menor produção estadual cria um ambiente de maior sustentação para o milho disponível no mercado, mas não permite afirmar que haverá necessariamente uma alta das cotações.
“O que temos neste momento é uma combinação de fatores que tende a dar sustentação ao mercado do milho. De um lado, o USDA reduziu os estoques projetados nos Estados Unidos e no mercado mundial. Do outro, Mato Grosso do Sul deve colher uma safra menor, enquanto a colheita ainda está em andamento. Isso não significa que os preços necessariamente vão subir, mas cria um ambiente mais favorável para a sustentação das cotações e reforça a importância de o produtor acompanhar o mercado antes de definir suas estratégias de venda”, avalia Gimenes.
A demanda interna é outro componente importante para o mercado sul-mato-grossense. O avanço da indústria de etanol de milho amplia a disputa pela matéria-prima com o mercado exportador. Ao mesmo tempo, Mato Grosso do Sul enfrenta um déficit estrutural de armazenagem, fator que interfere nas decisões de comercialização e na logística da produção.
A análise da Aprosoja/MS aponta que a combinação entre a oferta estadual mais apertada, a demanda interna crescente e o cenário internacional mais favorável tende a reforçar o viés de sustentação dos preços para o produtor que ainda possui milho a comercializar. A presença crescente das indústrias de etanol de milho também amplia a relevância dos compradores regionais, enquanto a limitação de armazenagem pode influenciar quando e para quem o produtor decide vender.
Nesse cenário, a decisão de comercialização passa por um conjunto de fatores. Além da cotação internacional, o produtor precisa considerar o ritmo de colheita, a disponibilidade regional de armazenagem, a demanda das indústrias e as condições logísticas. A leitura dos dados de diferentes escalas, internacional, nacional e estadual, permite dimensionar melhor o cenário para a comercialização da produção.
Soja tem cenário mais equilibrado - Enquanto o milho apresenta um quadro de maior sustentação, a soja segue com perspectivas mais estáveis. O USDA manteve em agosto a projeção de 186 milhões de toneladas para a produção brasileira de soja na safra 2026/27 e de 118 milhões de toneladas para as exportações.
Nos Estados Unidos, a estimativa de produção de soja subiu de 4,475 bilhões para 4,519 bilhões de bushels entre julho e agosto. Parte dessa oferta adicional, no entanto, é absorvida pela previsão de aumento do esmagamento, que passou de 2,750 bilhões para 2,780 bilhões de bushels. O preço médio recebido pelo produtor permaneceu em US$ 11,40 por bushel.
O estoque mundial de soja também apresentou pouca alteração, passando de 124,17 milhões para 124,21 milhões de toneladas. Para o Brasil, o USDA manteve em 36,89 milhões de toneladas a projeção de estoques finais da safra 2026/27. O quadro indica uma oferta global confortável, sem sinal de escassez.
Em Mato Grosso do Sul, a safra de soja 2025/26 terminou com produção de 16,744 milhões de toneladas, crescimento de 19,1% em relação às 14,060 milhões de toneladas do ciclo anterior. A produtividade média estadual chegou a 60,40 sacas por hectare, alta de 16,6%, enquanto a área plantada cresceu 2,1%, para 4,620 milhões de hectares.
Com uma oferta maior e sem um choque de produção no mercado internacional, brasileiro ou estadual, a tendência é de que o comportamento dos preços da soja no curto prazo seja mais influenciado por fatores como câmbio, frete e ritmo das compras externas, principalmente da China.
A diferença entre os dois mercados coloca o milho em uma posição de maior atenção neste momento. De um lado, os estoques projetados pelo USDA diminuíram nos Estados Unidos e no mundo. De outro, Mato Grosso do Sul deve encerrar uma segunda safra com produção 20,1% menor, enquanto a colheita ainda não foi concluída e permanece exposta a condições climáticas.
O próximo relatório WASDE do USDA está previsto para 11 de setembro. Em Mato Grosso do Sul, novas atualizações do Projeto SIGA-MS devem acompanhar o avanço da colheita da segunda safra nas próximas semanas, fornecendo novos dados sobre produtividade, produção e ritmo de encerramento dos trabalhos.

