ACOMPANHE-NOS     Campo Grande News no Facebook Campo Grande News no X Campo Grande News no Instagram Campo Grande News no TikTok Campo Grande News no Youtube
SETEMBRO, DOMINGO  13    CAMPO GRANDE 26º

Meio Ambiente

Água que escorria no corredor vira horta e projeto científico em escolas de MS

Projetos de colégios públicos de Campo Grande e Miranda estão entre os 30 semifinalistas em concurso nacional

Por Inara Silva | 13/09/2026 10:33
Água que escorria no corredor vira horta e projeto científico em escolas de MS
Horta vertical é mantida com o reuso da água de ar condicionado na Escola Clarinda Mendes de Aquino. (Foto: Divulgação)

Uma poça no corredor da escola. A água que pinga do ar-condicionado. Um recurso que diariamente iria embora sem que quase ninguém prestasse atenção. Em duas escolas públicas de Mato Grosso do Sul, situações tão comuns despertaram uma pergunta entre professores e estudantes: por que não aproveitar essa água? A curiosidade virou experimento, envolveu matemática, biologia, química e tecnologia e levou estudantes do Ensino Médio de duas cidades do Estado à semifinal de uma competição nacional.

RESUMO

Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!

Duas escolas públicas de Mato Grosso do Sul chegaram à semifinal do Solve for Tomorrow Brasil com projetos que aproveitam a água condensada de aparelhos de ar-condicionado. A Escola Clarinda Mendes de Aquino, em Campo Grande, criou uma horta inteligente irrigada com essa água, enquanto a Escola Caetano Pinto, em Miranda, desenvolve um sistema de aquaponia integrado ao cultivo de hortaliças. As equipes estão entre os 30 semifinalistas da competição nacional, que envolve escolas públicas de todo o país.

As equipes da Escola Estadual Professora Clarinda Mendes de Aquino, na Capital, e da Escola Estadual Caetano Pinto, em Miranda, no Pantanal, estão entre as 30 semifinalistas da 13ª edição do Solve for Tomorrow Brasil, programa que reúne projetos de escolas públicas de diferentes regiões do País voltados a soluções para problemas das próprias comunidades.

Separados por cerca de 200 quilômetros, os estudantes partiram de uma preocupação semelhante, estudar o desperdício da água condensada pelos aparelhos de ar-condicionado.

A mesma ideia, mas com soluções por caminhos diferentes. Em Campo Grande, a água abastece uma experiência com uma horta inteligente. Em Miranda, na entrada do Pantanal, estudantes investigam se ela pode ser usada em um sistema de aquaponia que associe o cultivo de hortaliças à criação de peixes da região.

Água que escorria no corredor vira horta e projeto científico em escolas de MS
Estudante coleta água do ar condicionado na Escola Estadual Clarinda Mendes de Aquino (Foto: Divulgação)

A poça e a matemática - Na escola da Capital, a história começou em um corredor de acesso aos banheiros. A água condensada dos aparelhos de ar-condicionado não tinha destinação adequada. Escorria, atingia paredes e deixava o piso molhado e escorregadio. Professor de matemática da escola desde 2018, Reginaldo Vantini Júnior levou o problema para a sala de aula.

Os estudantes coletaram a água diretamente do dreno de um aparelho para estimar quanto era produzido em uma hora. Depois ampliaram a escala para saber quanto representaria em um dia e em um ano. Conceitos de volume e área entraram nos cálculos, mas a investigação avançou. Não bastava descobrir quanta água estava sendo perdida. Era preciso encontrar uma utilidade para ela. Foi nesse processo que surgiu a EcoHorta Inteligente: Investigação e Automação no Reúso Hídrico Escolar.

Os estudantes perceberam que apenas captar a água não resolvia o problema, pois parte ainda chegava ao corredor e o grupo queria dar uma destinação efetiva ao recurso. A resposta foi uma horta vertical. Isabela Lopes Rodrigues, de 17 anos, entrou no projeto quando a ideia inicial já existia e conta o seu propósito: “Não só guardar essa água, tirar ela do meio do caminho, mas também reutilizá-la. Dar um outro propósito para ela”, explicou Isabela.

Hoje, a horta experimental tem 40 vasos e permite comparar o desenvolvimento de plantas irrigadas com água condensada e com água potável. Semanalmente, os estudantes fazem análises, enquanto o sistema gera gráficos e estatísticas sobre o crescimento das plantas.

Sensores medem umidade do solo, temperatura, umidade relativa do ar, pressão atmosférica e fluxo de água. Com os equipamentos, a equipe consegue acompanhar em tempo real quanto da água condensada está sendo aproveitada. Os dados depois são analisados pelos próprios alunos e incorporados ao trabalho científico.

O professor explica que a classificação para a semifinal ampliou as ambições. Com a mentoria recebida durante a competição, a equipe começou a pensar em maneiras de levar a experiência para além dos muros da escola.

Segundo Vantini, o grupo desenvolve um aplicativo para mostrar como a água dos aparelhos pode ser reaproveitada também em residências, por exemplo, para irrigar plantas ou em outras atividades que não necessitem de água potável.

Matemática no cotidiano - Para  Rafael Moraes Lemes Pereira, de 17 anos, o projeto trouxe uma percepção que não tinha antes. Ele passou a prestar mais atenção ao que acontece ao redor. “É questão de observar mais as coisas. Analisar. Ter mais esse pensamento científico”, contou. Rafael já gostava de matemática. A diferença é que começou a encontrá-la fora dos exercícios escolares. “Antes eu não pensava muito nisso, mas agora eu conheço melhor. Às vezes eu acabo vendo e pensando sobre isso, como que eu posso usar matemática.”

Sara dos Santos Louveira, de 16 anos, descobriu o caminho da pesquisa. Ela conta que a participação no projeto aguçou sua curiosidade e fez com que se aprofundasse em assuntos que antes conhecia pouco. A colega Isabela afirma que percebe também um efeito coletivo. Para ela, projetos como a EcoHorta ajudam a mudar a maneira como a própria escola é vista. A estudante gosta de poder dizer, quando perguntam onde estuda, que está em uma escola onde há projetos e oportunidades para os alunos.

Conforme Vantini, a escola Clarinda possui atualmente 13 projetos aprovados pela Fundect (Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia do Estado de Mato Grosso do Sul), cada um com quatro bolsistas, reunindo mais de 50 estudantes. O professor conta que a movimentação desperta a curiosidade de outros alunos, que começam a procurar oportunidades para também participar de pesquisas.

Água que escorria no corredor vira horta e projeto científico em escolas de MS
Estudante do Ensino Médio manuseia em laboratório água coletada no ar condicionado (Foto: Divulgação)

Água encontra o Pantanal - A cerca de 200 quilômetros da Capital, a mesma inquietação ganhou características do território. Na Escola Estadual Caetano Pinto, em Miranda, nasceu o AquaPantanal: Água que ensina, alimenta e preserva. O próprio nome revela a intenção de aproximar a experiência científica do lugar onde os estudantes vivem.

“A gente dá um destaque ao nosso Pantanal”, explicou a professora de Ciências Biológicas Elissandra Barreto. Segundo ela, a proposta incorpora questões que levam os estudantes a olhar também para a preservação do bioma.

A equipe desenvolve um sistema de aquaponia, técnica que integra a criação de peixes ao cultivo de plantas. No caso do AquaPantanal, a pergunta que move o experimento é se a água condensada pelos aparelhos de ar-condicionado pode ser incorporada ao sistema de forma segura. A resposta ainda está sendo investigada.

O projeto está na fase de protótipo e a equipe realiza testes e análises antes da introdução dos peixes. A intenção inicial é trabalhar com lambari e, se os parâmetros avaliados forem adequados, estudar posteriormente a inclusão de outras espécies da região, entre elas o pacu.

O professor Flavio Rossi Galhardo de Figueiredo explica que a proposta é aproveitar um recurso normalmente descartado e integrá-lo à criação dos peixes e ao cultivo das hortaliças. No sistema idealizado pela equipe, a água da criação forneceria nutrientes às plantas.

Água que escorria no corredor vira horta e projeto científico em escolas de MS
Estudante coleta água de ar condicionado na Escola Estadual Caetano Pinto (Foto: Divulgação)

Peixe, ciência e curiosidade - Para Matheus Pereira Claro, aluno do 2º ano do Ensino Médio, o AquaPantanal mostrou que tentar responder a uma pergunta pode abrir caminho para muitas outras. Para compreender a aquaponia, ele precisou buscar conhecimentos sobre processos químicos relacionados aos peixes e à água, entender o papel de microrganismos no sistema e recorrer à matemática para trabalhar com volumes e proporções.

No caminho, percebeu que ciência também exige saber explicar o que se descobriu. “Você aprende, você melhora a sua comunicação”, resumiu Matheus, depois de detalhar o funcionamento que a equipe pretende testar.

Para a colega Valentina Benevides Bento, a experiência trouxe o contato com algo que sequer imaginava ser possível. Antes de entrar no projeto, ela não havia pensado que a água produzida pelos aparelhos de ar-condicionado pudesse ganhar esse tipo de utilização. Foi também sua primeira experiência em um projeto científico. Desde então, passou a participar da construção do protótipo e a aprender sobre assuntos que antes desconhecia.

Enzo Pereira Claro resume a experiência pela aproximação entre teoria e vida cotidiana: para ele, o interessante é poder colocar em prática aquilo que os estudantes encontram no dia a dia.

O território também entra nessa aprendizagem. A Caetano Pinto é uma escola centenária e recebe estudantes das zonas urbana e rural. Segundo Elissandra, as experiências trazidas por esses jovens ajudam nas discussões e na relação do projeto com a realidade de Miranda e do Pantanal.

Flávio espera que o AquaPantanal não termine com a atual equipe. A maioria dos participantes é do 2º ano justamente para que possa permanecer no projeto no ano seguinte e transmitir o que aprendeu aos novos integrantes. A intenção é criar um ciclo dentro da escola e, caso a experiência funcione, fazer com que possa servir de referência para outras unidades.

Água que escorria no corredor vira horta e projeto científico em escolas de MS
Equipe de pesquisa da Escola Estadual Caetano Pinto, em Miranda. (Foto: Divulgação)

Disputa nacional - EcoHorta e AquaPantanal agora dividem espaço com iniciativas desenvolvidas por estudantes de diferentes partes do Brasil. A 13ª edição do Solve for Tomorrow selecionou 30 projetos semifinalistas de escolas públicas.

Agora, as equipes participam de mentorias para aprimorar tecnicamente os projetos. Dez avançarão à final e serão anunciadas em 16 de outubro. A votação pelo júri popular começa em 23 de novembro e os vencedores serão conhecidos em 8 de dezembro.

Para Júlio Henrique Souza de Oliveira, de 16 anos, integrante da equipe de Campo Grande, chegar até aqui trouxe mais do que entusiasmo. Trouxe responsabilidade. O estudante vê a classificação como uma oportunidade de representar Mato Grosso do Sul em uma disputa nacional.

Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais.