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Meio Ambiente

Após morrer na rodovia, onça tem material genético coletado para uso futuro

Tecidos serão depositados num biobanco da UFMS que já contém mais de 70 amostras de felinos

Por Cassia Modena | 19/04/2026 14:32


RESUMO

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Pesquisadores da UFMS coletaram tecidos de uma onça-pintada atropelada na BR-262, em Mato Grosso do Sul, para estudos de clonagem e conservação da espécie. O grupo Reprocon já possui mais de 70 amostras de felinos, sendo oito de onças-pintadas, armazenadas em nitrogênio líquido a -196ºC. O material pode futuramente garantir a variabilidade genética da espécie, classificada como vulnerável.

Parte da orelha e os testículos da onça-pintada que morreu após ser atropelada neste sábado (19), na BR-262, foram coletados para servir a pesquisas na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul). Os materiais poderão ser perpetuados num clone e contribuir futuramente para a conservação da espécie, atualmente classificada como vulnerável.

A coleta foi feita pelo Reprocon (Reproduction for Conservation), nome de um grupo de pesquisadores ligados à universidade que se dedicam a estudos inovadores focados em animais.

O macho vítima do atropelamento protagonizou uma cena dramática, filmada pelo motorista de um ônibus, ao se arrastar pelo asfalto após o impacto com um veículo na estrada que corta o bioma pantaneiro de Mato Grosso do Sul. Tentava salvar a própria vida, mas não resistiu.

Após morrer na rodovia, onça tem material genético coletado para uso futuro
Pesquisadores retirando material genético da onça vítima de atropelamento (Foto: Divulgação/Reprocon)

Segundo a professora doutora em reprodução animal e coordenadora do Reprocon, Thyara de Deco Souza e Araujo, era um animal jovem de aproximadamente três anos, fase em que as onças-pintadas já deixaram a mãe e migram para demarcar territórios para a procriação. O responsável pela coleta dos materiais em campo, chamados de tecidos vivos, foi o médico-veterinário pós-doutor em Reprodução Animal, Gediendson Ribeiro de Araujo.

Já são mais de 70 amostras de felinos armazenadas no biobanco do laboratório onde o grupo realiza os estudos na universidade. Desses, oito são de onças-pintadas atropeladas em rodovias.

O grupo também recolhe células não vivas de outros animais (penas e sangue, por exemplo) e retira gametas, espermatozoides, óvulos e até embriões para uso em técnicas de reprodução assistida, análise epidemiológica ou estudos sobre as espécies em si.

Como funciona -  Levará um tempo até que os tecidos vivos da onça fiquem prontos para serem armazenados. As amostras não podem simplesmente ser depositadas, é preciso uma preparação.

Após morrer na rodovia, onça tem material genético coletado para uso futuro
Pedaço de tecido coletado de onça-pintada morta (Foto: Divulgação/Reprocon)

“Retiramos pedacinhos bem pequenininhos, colocamos para cultivar numa incubadora e lá as células se multiplicam. São elas que vamos armazenar em nitrogênio líquido a uma temperatura de -196ºC”, explica Thyara.

Os materiais podem ficar armazenados por décadas. Enquanto isso, os pesquisadores desenvolvem técnicas de clonagem. A de onças ainda não é realidade no Brasil, mas existe em potencial, garante a pesquisadora.

Ela cita como exemplo de clonagem voltada à conservação a do furão-da-pata-preta, nos Estados Unidos, que teve materiais armazenados na década de 1980. A espécie já era dada como extinta da natureza. “Clonaram, os indivíduos se reproduziram e seus filhotes foram soltos. Isso foi feito com tecnologias muito específicas e ocorreu décadas depois”, afirma.

Após morrer na rodovia, onça tem material genético coletado para uso futuro
Pesquisador manuseia amostras em laboratório (Foto: Divulgação/Reprocon)

A coordenadora do Reprocon acrescenta que a UFMS tem equipamentos e tecnologias disponíveis para esse objetivo. Eles poderão ser usados não só caso a onça-pintada venha a desaparecer, mas também para assegurar a variabilidade dos genes da espécie, evitando problemas comuns no cruzamento de animais com algum grau de parentesco.

“Estamos estocando material que pode ser recuperado no futuro, para ter população grande o suficiente para ter variabilidade genética e migrar”, completa.

Thyara finaliza simplificando a importância dos estudos do grupo. “É igual a um banco de dinheiro. A gente guarda enquanto tem, para usar quando precisar. Por essa razão, temos que armazenar o material genético desses animais enquanto ainda existem indivíduos”, compara.

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