Ataques de onças a cães e gatos ganham protocolo de resposta em MS
Diretrizes orientam proteção dos animais e reação após casos de predação
Ataques de onças-pintadas a cães e gatos passaram a ter um protocolo específico em um conjunto de diretrizes elaborado por pesquisadores e instituições que atuam em Mato Grosso do Sul. O documento recomenda desde o recolhimento dos animais durante a noite até vistoria técnica para confirmar se a predação foi realmente causada pelo felino.
RESUMO
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Pesquisadores e instituições de Mato Grosso do Sul elaboraram diretrizes para reduzir conflitos entre humanos e onças-pintadas, incluindo protocolo específico para ataques a cães e gatos. O documento recomenda recolher animais à noite, realizar vistorias técnicas para confirmar predação e classifica ocorrências em quatro níveis de risco. Também aborda atropelamentos na BR-262, onde 21 onças morreram entre 2016 e 2025, e propõe passagens de fauna e redução de velocidade nos trechos críticos.
Medidas integram a publicação “Diretrizes e fundamentos para mitigação de conflitos entre humanos e onças-pintadas”, produzida por 15 autores ligados a universidades, organizações ambientais e órgãos públicos. O IOP (Instituto Onça-Pintada) está entre as instituições participantes.
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É preciso fazer uma distinção: o protocolo ainda não é uma norma oficial adotada pelo Governo de Mato Grosso do Sul. Trata-se de uma proposta técnica destinada a orientar gestores públicos, órgãos ambientais, pesquisadores, produtores e comunidades. Os autores defendem que o Estado transforme as recomendações em uma política integrada de atendimento.
Segundo o documento, ataques a animais de companhia têm ganhado relevância principalmente em áreas rurais, residenciais e periurbanas próximas a ambientes naturais. Embora a perda financeira geralmente seja menor do que nos ataques ao gado, o impacto emocional sobre os tutores pode aumentar o medo e provocar a perseguição ou morte ilegal de onças.
Cães e gatos soltos, especialmente durante a noite, são apontados como presas de acesso mais fácil. O risco também aumenta quando há descarte de lixo orgânico, restos de comida e carcaças perto das residências, porque esses materiais podem atrair animais silvestres e, consequentemente, os grandes felinos.
Outro fator citado é o comportamento dos próprios cães. Animais que circulam sem supervisão ou perseguem a fauna podem entrar em confronto com onças.
Para reduzir os riscos, as diretrizes recomendam que cães e gatos permaneçam em canis, gatis ou outros abrigos resistentes e fechados durante a noite, período de maior atividade das onças. Também são propostas campanhas de castração, vacinação e controle de animais errantes.
Alimentos destinados a animais domésticos ou silvestres não devem ser deixados perto de casas. Carcaças e lixo orgânico também precisam ser retirados de áreas próximas às residências e à vegetação.
Além da possibilidade de ataques, os autores alertam que o contato entre animais domésticos e onças pode facilitar a transmissão de doenças infecciosas e parasitárias nos dois sentidos.
Após um ataque - Quando houver suspeita de que uma onça atacou um cão ou gato, a primeira providência prevista é registrar formalmente a ocorrência. O documento recomenda anotar data, horário e localização, além de fotografar o animal atingido e os vestígios encontrados no local.
Uma vistoria presencial feita por profissional capacitado é considerada necessária para confirmar a autoria. Pegadas, marcas de mordida e a forma de consumo da carcaça devem ser analisadas antes de atribuir o ataque a uma onça.
Essa confirmação é importante porque decisões precipitadas podem levar à perseguição de um animal que não provocou o ataque. O documento também recomenda identificar possíveis atrativos na propriedade, como lixo, restos de animais, cães soltos ou abrigos inadequados.
Depois da ocorrência, os demais animais devem ser recolhidos, e a área pode ser monitorada por um período inicial de 30 dias. O prazo poderá ser prorrogado uma vez por mais 30 dias, desde que haja justificativa técnica.
A resposta somente deve avançar para medidas mais complexas, como afugentamento ou captura, quando o monitoramento indicar risco elevado. A presença isolada de uma onça, por si só, não seria motivo suficiente para retirar o animal.
Quatro níveis de risco - As diretrizes também criam uma escala para classificar ocorrências envolvendo pessoas, residências e animais domésticos.
Um avistamento isolado, sem danos ou aproximação persistente, fica no nível 1, chamado de observação. A recomendação é registrar o caso, verificar as informações e orientar a comunidade em até 24 horas.
A presença recorrente, a aproximação de áreas habitadas ou um ataque pontual a animal de estimação entram no nível 2, de atenção. Nesses casos, a vistoria técnica deve ocorrer em até 12 horas.
A presença da onça em área urbana ou residencial, ferimentos em pessoas e sinais de que o animal está machucado ou doente são classificados no nível 3, de alto risco. Ataques graves, morte de pessoas ou risco para várias vítimas ficam no nível 4, considerado crítico. Nos dois últimos casos, a resposta recomendada é imediata.
Para ser considerada recorrente, a presença deve ter três registros confirmados em até 30 dias ou pelo menos dois em uma semana, dentro da mesma área. A aproximação é classificada como persistente quando há dois ou mais registros, em até sete dias, a menos de 100 metros de casas, escolas, postos de saúde, currais, canis ou gatis.
Cuidados perto das casas - Nas propriedades localizadas em áreas de ocorrência de onças, o documento sugere limpeza da vegetação densa em um raio de 30 metros ao redor das casas, iluminação externa e cercas reforçadas.
Canis, gatis, currais noturnos e outras estruturas destinadas aos animais deveriam ficar, preferencialmente, a mais de 300 metros de matas densas, capões ou matas ciliares. Quando necessário, as diretrizes recomendam cercamento com pelo menos 2,20 metros de altura, base reforçada e arame eletrificado ou farpado na parte superior.
Também não se deve alimentar onças ou outros animais silvestres. Além de ilegal, a prática pode habituar o felino à presença humana e aumentar o risco de aproximações.
Encontros com pessoas - Caso uma pessoa encontre uma onça, a orientação é não correr nem virar as costas. A pessoa deve permanecer em pé, erguer os braços para parecer maior, falar de maneira firme e recuar lentamente, mantendo o animal no campo de visão.
A menos de 50 metros, especialmente quando a onça estiver com filhotes, protegendo uma carcaça ou apresentando postura defensiva, a ocorrência é considerada de alto risco.
Já um avistamento a mais de 100 metros, quando o animal apenas caminha e se afasta naturalmente, é tratado como situação de menor risco. Ainda assim, a presença deve ser comunicada e registrada.
BR-262 preocupa - Outro capítulo trata dos atropelamentos na BR-262, principalmente entre Miranda e Corumbá. Conforme a publicação, 21 onças-pintadas morreram nesse segmento entre 2016 e julho de 2025, média de 2,3 por ano. O trecho é chamado no próprio documento de “rodovia da morte”.
Os autores recomendam passagens de fauna, cercas direcionadoras, rampas de escape, radares e redução da velocidade nos pontos críticos. Também defendem que essas estruturas sejam exigidas nos licenciamentos e nas obras de manutenção da rodovia.
Ao encontrar uma onça atropelada, o motorista não deve se aproximar nem tentar retirar o animal da pista. A recomendação é estacionar em local seguro, sinalizar a área e acionar a Polícia Rodoviária pelo telefone 191 ou a Polícia Militar Ambiental pelo 190.
Mesmo aparentemente morta, a onça pode reagir ou transmitir doenças. Se estiver viva, a contenção deve ser feita exclusivamente por profissionais habilitados.
As diretrizes também tratam a captura e a retirada da onça como medidas que precisam de justificativa técnica. Antes da decisão, a equipe deve avaliar o comportamento e a saúde do animal, a proximidade de casas ou escolas, o histórico de ataques e a existência de uma área segura para eventual soltura.
A recomendação é que decisões de remoção ou transferência sejam coletivas, documentadas e respaldadas por laudo. A publicação também propõe a criação de um banco único de ocorrências, com informações sobre ataques, tempo de resposta, reincidências e resultados das ações.
O pagamento a produtores que conservam o habitat aparece entre as propostas, ao lado de seguros contra perdas de animais, turismo de observação, certificação de produtos e créditos de biodiversidade. Nesse novo documento, porém, a compensação financeira é apenas uma parte de um plano mais amplo para evitar que cada encontro entre pessoas e onças termine em improviso.
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