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Áudios e mensagens ajudaram a PF a desvendar esquema milionário de tráfico

Dados estavam no celular de um caminhoneiro preso em outubro de 2025; operação foi deflagrada em Dourados

Por Clara Farias | 29/08/2026 10:45
Áudios e mensagens ajudaram a PF a desvendar esquema milionário de tráfico
Da esquerda para direita: Maycon Cavalheiro Rodrigues. Emerson Eder Rech, Evandro Geovani Rech e Murilo dos Santos Novo (Foto: Reprodução/Autos do Processo)

Os quatro homens presos pela Polícia Federal nesta quinta-feira (27), em Dourados e Sidrolândia, são apontados como integrantes de uma organização criminosa especializada no transporte interestadual de grandes carregamentos de maconha. Segundo a investigação que desencadeou a operação “Little Bag”, Maycon Cavalheiro Rodrigues, Ermenson Eder Rech, Evandro Geovani Rech e Murilo dos Santos Novo tinham funções distintas dentro da estrutura, que utilizava caminhões com cargas lícitas para esconder os entorpecentes.

RESUMO

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Quatro homens foram presos pela Polícia Federal em Dourados e Sidrolândia na última quinta-feira (27), suspeitos de integrar organização criminosa especializada no transporte interestadual de maconha. A operação "Little Bag" aponta que o grupo movimentou mais de quatro toneladas da droga em 2025, avaliadas em R$ 8 milhões. Os suspeitos usavam caminhões com cargas lícitas para ocultar os entorpecentes. A Justiça decretou prisão preventiva e bloqueio de bens e valores dos investigados.

A decisão judicial que autorizou as prisões aponta que o grupo teria movimentado mais de quatro toneladas de maconha em flagrantes registrados em 2025. As apreensões ocorreram em maio, agosto, setembro e outubro e, conforme o Ministério Público, representariam cerca de R$ 8 milhões em drogas.

Os quatro investigados tiveram a prisão preventiva decretada pela Justiça. Também foram determinadas buscas e o sequestro de bens e valores ligados aos suspeitos e à empresa MCR Transportes.

O gerente - Na estrutura descrita pela Polícia Federal, Ermenson Eder Rech, conhecido como “Irmão Kina”, aparece como uma das principais figuras da organização. Segundo a investigação, ele atuava na coordenação da logística dos carregamentos.

Ermenson organizava a retirada da droga, custeava despesas dos caminhões, como combustível, e coordenava a ocultação do entorpecente nos veículos antes das viagens. A droga seria inicialmente armazenada em Dourados e depois escondida em meio a cargas lícitas com destino a outros estados.

Em um dos diálogos analisados, Ermenson conversa com o motorista Higor Thalys Nonato Rodrigues sobre um carregamento que seria realizado após a contratação de um frete de fécula de mandioca. No dia 2 de setembro de 2025, Thalys questionou se os “negócios” já haviam chegado para que pudesse fazer o carregamento. Ermenson respondeu que seriam levados naquele dia ou no seguinte.

Thalys acabou preso em 3 de setembro, na BR-267, em Nova Andradina, transportando 1.773,6 quilos de maconha escondidos em meio à carga de fécula de mandioca. Conforme o inquérito, o caminhão era utilizado com frequência no transporte de drogas.

Ele se refere a Ermenson como “patrão” e demonstra preocupação em conciliar os fretes de diferentes grupos com as ordens dele. Em uma conversa, fala que precisa “desembolar com o patrão” antes de assumir outra carga.

A investigação aponta que o veículo era formalmente vinculado à empresa MCR Transportes, mas teria como proprietário de fato uma pessoa identificada apenas como Alessandro. Higor seria subordinado diretamente a Alessandro, enquanto Ermenson coordenaria a operação.

Ainda segundo a PF, o motorista também fazia fretes para outros grupos criminosos, com conhecimento de Ermenson.

Maycon Cavalheiro Rodrigues, conhecido como “Sacolinha”, é apontado como responsável formal pela MCR Transportes. Segundo a investigação, a empresa era utilizada para obtenção de fretes lícitos que serviriam de cobertura para o transporte dos entorpecentes.

Ele também teria dado suporte às operações coordenadas por Ermenson e aparece relacionado ao caminhão utilizado no transporte da carga apreendida em setembro.

A PF aponta ainda que o histórico profissional de Maycon não seria compatível, na avaliação dos investigadores, com o patrimônio vinculado à empresa. Um dos caminhões relacionados ao grupo é avaliado em aproximadamente R$ 260 mil. A Justiça determinou o sequestro de valores atribuídos a Maycon que chegam a R$ 7,224 milhões.

Áudios e mensagens ajudaram a PF a desvendar esquema milionário de tráfico
Drogas apreendidas pela Polícia Federal estava em carga de fécula de mandioca (Foto: Reprodução)

Batedor - Evandro Geovani Rech, conhecido como “Kina”, é apontado como responsável pelo apoio logístico aos carregamentos, incluindo a função de “batedor”, acompanhando os caminhões que transportavam drogas para monitorar possíveis fiscalizações.

Um dos episódios analisados pela investigação ocorreu em agosto de 2025. Segundo os registros de radares, o Ford Focus utilizado por Evandro acompanhou o caminhão até a divisa de Mato Grosso do Sul com São Paulo. A movimentação foi interpretada pelos investigadores como indício de que ele fazia a escolta da carga ilícita.

O Focus está registrado em nome do pai de Evandro, mas diligências realizadas pelos investigadores apontaram que o veículo era utilizado pelo suspeito. A PF também relaciona Evandro a uma Fiat Strada usada nas atividades do grupo. A Justiça determinou o sequestro de valores atribuídos a ele no montante de R$ 3,679 milhões.

Durante a operação desta quinta-feira, Evandro foi localizado em uma residência na Rua Takeo Takimoto, em Dourados. Segundo o relatório policial, ele estava acompanhado da esposa.

Murilo dos Santos Novo, conhecido como “Murilo Primo”, também é apontado como integrante da estrutura de apoio aos transportes. Segundo a investigação, ele teria participado de uma operação em maio de 2025, quando o motorista Matheus Bruno da Silva do Nascimento foi preso transportando grande quantidade de maconha.

Nas conversas recuperadas pelos investigadores, Murilo aparece dando orientações relacionadas ao deslocamento do caminhão e monitorando a situação na estrada. Mensagens como “pode ir”, “chegando presídio” e “tá onde” foram interpretadas pela PF como indicativos de que ele atuava no apoio ao transporte.

A investigação aponta que Ermenson teria contratado Matheus para transportar o entorpecente, contando com o apoio de Murilo e Maycon.

A casa de Murilo foi alvo de busca e apreensão em Itaporã. Os policiais apreenderam dois celulares que estavam no guarda-roupa do quarto do casal. A Justiça determinou o bloqueio de R$ 3,679 milhões relacionados a Murilo.

A investigação teve como ponto de partida diferentes prisões realizadas em 2025. Em 13 de maio, Matheus Bruno da Silva do Nascimento e Vinicius Gomes de Oliveira Silva foram presos durante uma ocorrência envolvendo transporte de maconha.

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Policial do DOF com carga de maconha apreendida com Toyota Hilux (Foto: Divulgação)

Três meses depois, 1,95 tonelada de maconha foi apreendida pelo DOF (Departamento de Operações de Fronteira) em uma Toyota Hilux, em Dourados. O veículo foi abordado durante bloqueio na BR-463, mas o motorista desobedeceu à ordem de parada, abandonou a caminhonete às margens da rodovia e fugiu.

A caminhonete tinha placas falsas e, durante a checagem, os policiais constataram que havia sido furtada em maio daquele ano, em Cuiabá (MT). A droga, avaliada em aproximadamente R$ 5,1 milhões, estava dividida em fardos e tabletes.

No dia seguinte à apreensão, 14 de agosto, Ermenson Eder Rech enviou um áudio ao motorista Higor Thalys relatando problemas relacionados à perda de uma carga. Conforme a análise da Polícia Federal, o conteúdo da conversa estaria relacionado à logística de uma carga de drogas que havia saído da região de fronteira com destino a Dourados.

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Apreensão de 1,8 tonelada de maconha em 13 de maio de 2025, em Dourados (Foto: Reprodução/Autos do Processo)

Em 10 de outubro, Uanderson de Paula Silva, conhecido também como “Montanha”, foi preso na BR-262, em Três Lagoas, transportando 978,7 quilos de maconha escondidos em meio a uma carga de óleo vegetal. A análise dos celulares apreendidos nesses casos permitiu, segundo a PF, identificar conexões entre os envolvidos e reconstruir parte da estrutura criminosa.

Durante a investigação, os policiais identificaram que Uanderson havia conduzido outro caminhão. Com isto, o veículo passou a ser monitorado e em 17 de outubro o veículo se deslocou para Dourados. No dia seguinte retornou, seguindo para o Estado de São Paulo. No dia 19, Ricardo Monteiro Feitosa de Melo, Wallan Izidio dos Santos e Mauro Antonio Chaves dos Santos foram presos no caminhão com 3,5 toneladas de maconha.

Nas mensagens trocadas por “Montanha”, os policiais identificaram que a estrutura não era utilizada exclusivamente para um grupo. Uanderson negociava fretes, procurava cargas lícitas para servirem de cobertura e oferecia Thalys como motorista. Há conversas sobre valores de R$ 65 mil a R$ 180 mil, além de uma negociação de R$ 1 milhão, com previsão de R$ 200 mil de adiantamento e R$ 100 mil de comissão para Uanderson.

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Apreensão de 3,5 toneladas de maconha no estado de São Paulo em veículo ligado ao grupo (Foto: Reprodução/Autos do Processo)
Áudios e mensagens ajudaram a PF a desvendar esquema milionário de tráfico

O grupo utilizava cargas lícitas como fachada, veículos de apoio, monitoramento por GPS e internet via satélite, além da troca periódica de aparelhos celulares para dificultar a atuação policial.

A decisão judicial afirma que a estrutura apresentava divisão de tarefas, estabilidade e permanência, com atuação voltada ao tráfico interestadual de drogas em larga escala.

Bloqueio - Além das prisões, a Justiça autorizou o sequestro de valores e veículos ligados aos investigados e à MCR Transportes.

Entre os bens estão um caminhão VW/24.280, apontado como utilizado com frequência no transporte de drogas; um Honda HR-V ligado à esposa de Ermenson; uma Fiat Strada relacionada à empresa do investigado; um Ford Focus utilizado por Evandro e outra Fiat Strada.

Durante as buscas na casa de Ermenson, os policiais encontraram seis celulares e R$ 159.750 em dinheiro, além de US$ 100. Também foram localizadas chaves e documentos de um caminhão estacionado em frente ao imóvel. Dentro do veículo havia caixas com fitas adesivas semelhantes às utilizadas para embalar a maconha apreendida em outras etapas da investigação.

Fuga - Murilo foi preso horas depois da deflagração da operação. Ele estava na BR-060, em Sidrolândia, quando foi abordado pela PRF (Polícia Rodoviária Federal). Segundo o registro policial, Murilo dirigia um conjunto de veículos de carga quando foi abordado no km 430 da rodovia.

Durante a fiscalização, ele contou aos policiais que agentes haviam ido até sua casa naquela manhã e apreendido equipamentos eletrônicos, mas afirmou desconhecer o motivo da ação.

Murilo foi encaminhado à Delegacia de Polícia Civil de Sidrolândia. Um celular Realme Note 60 também foi apreendido e entregue para análise da Polícia Judiciária.

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