Áudios e mensagens ajudaram a PF a desvendar esquema milionário de tráfico
Dados estavam no celular de um caminhoneiro preso em outubro de 2025; operação foi deflagrada em Dourados

Os quatro homens presos pela Polícia Federal nesta quinta-feira (27), em Dourados e Sidrolândia, são apontados como integrantes de uma organização criminosa especializada no transporte interestadual de grandes carregamentos de maconha. Segundo a investigação que desencadeou a operação “Little Bag”, Maycon Cavalheiro Rodrigues, Ermenson Eder Rech, Evandro Geovani Rech e Murilo dos Santos Novo tinham funções distintas dentro da estrutura, que utilizava caminhões com cargas lícitas para esconder os entorpecentes.
RESUMO
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Quatro homens foram presos pela Polícia Federal em Dourados e Sidrolândia na última quinta-feira (27), suspeitos de integrar organização criminosa especializada no transporte interestadual de maconha. A operação "Little Bag" aponta que o grupo movimentou mais de quatro toneladas da droga em 2025, avaliadas em R$ 8 milhões. Os suspeitos usavam caminhões com cargas lícitas para ocultar os entorpecentes. A Justiça decretou prisão preventiva e bloqueio de bens e valores dos investigados.
A decisão judicial que autorizou as prisões aponta que o grupo teria movimentado mais de quatro toneladas de maconha em flagrantes registrados em 2025. As apreensões ocorreram em maio, agosto, setembro e outubro e, conforme o Ministério Público, representariam cerca de R$ 8 milhões em drogas.
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Os quatro investigados tiveram a prisão preventiva decretada pela Justiça. Também foram determinadas buscas e o sequestro de bens e valores ligados aos suspeitos e à empresa MCR Transportes.
O gerente - Na estrutura descrita pela Polícia Federal, Ermenson Eder Rech, conhecido como “Irmão Kina”, aparece como uma das principais figuras da organização. Segundo a investigação, ele atuava na coordenação da logística dos carregamentos.
Ermenson organizava a retirada da droga, custeava despesas dos caminhões, como combustível, e coordenava a ocultação do entorpecente nos veículos antes das viagens. A droga seria inicialmente armazenada em Dourados e depois escondida em meio a cargas lícitas com destino a outros estados.
Em um dos diálogos analisados, Ermenson conversa com o motorista Higor Thalys Nonato Rodrigues sobre um carregamento que seria realizado após a contratação de um frete de fécula de mandioca. No dia 2 de setembro de 2025, Thalys questionou se os “negócios” já haviam chegado para que pudesse fazer o carregamento. Ermenson respondeu que seriam levados naquele dia ou no seguinte.
Thalys acabou preso em 3 de setembro, na BR-267, em Nova Andradina, transportando 1.773,6 quilos de maconha escondidos em meio à carga de fécula de mandioca. Conforme o inquérito, o caminhão era utilizado com frequência no transporte de drogas.
Ele se refere a Ermenson como “patrão” e demonstra preocupação em conciliar os fretes de diferentes grupos com as ordens dele. Em uma conversa, fala que precisa “desembolar com o patrão” antes de assumir outra carga.
A investigação aponta que o veículo era formalmente vinculado à empresa MCR Transportes, mas teria como proprietário de fato uma pessoa identificada apenas como Alessandro. Higor seria subordinado diretamente a Alessandro, enquanto Ermenson coordenaria a operação.
Ainda segundo a PF, o motorista também fazia fretes para outros grupos criminosos, com conhecimento de Ermenson.
Maycon Cavalheiro Rodrigues, conhecido como “Sacolinha”, é apontado como responsável formal pela MCR Transportes. Segundo a investigação, a empresa era utilizada para obtenção de fretes lícitos que serviriam de cobertura para o transporte dos entorpecentes.
Ele também teria dado suporte às operações coordenadas por Ermenson e aparece relacionado ao caminhão utilizado no transporte da carga apreendida em setembro.
A PF aponta ainda que o histórico profissional de Maycon não seria compatível, na avaliação dos investigadores, com o patrimônio vinculado à empresa. Um dos caminhões relacionados ao grupo é avaliado em aproximadamente R$ 260 mil. A Justiça determinou o sequestro de valores atribuídos a Maycon que chegam a R$ 7,224 milhões.
Batedor - Evandro Geovani Rech, conhecido como “Kina”, é apontado como responsável pelo apoio logístico aos carregamentos, incluindo a função de “batedor”, acompanhando os caminhões que transportavam drogas para monitorar possíveis fiscalizações.
Um dos episódios analisados pela investigação ocorreu em agosto de 2025. Segundo os registros de radares, o Ford Focus utilizado por Evandro acompanhou o caminhão até a divisa de Mato Grosso do Sul com São Paulo. A movimentação foi interpretada pelos investigadores como indício de que ele fazia a escolta da carga ilícita.
O Focus está registrado em nome do pai de Evandro, mas diligências realizadas pelos investigadores apontaram que o veículo era utilizado pelo suspeito. A PF também relaciona Evandro a uma Fiat Strada usada nas atividades do grupo. A Justiça determinou o sequestro de valores atribuídos a ele no montante de R$ 3,679 milhões.
Durante a operação desta quinta-feira, Evandro foi localizado em uma residência na Rua Takeo Takimoto, em Dourados. Segundo o relatório policial, ele estava acompanhado da esposa.
Murilo dos Santos Novo, conhecido como “Murilo Primo”, também é apontado como integrante da estrutura de apoio aos transportes. Segundo a investigação, ele teria participado de uma operação em maio de 2025, quando o motorista Matheus Bruno da Silva do Nascimento foi preso transportando grande quantidade de maconha.
Nas conversas recuperadas pelos investigadores, Murilo aparece dando orientações relacionadas ao deslocamento do caminhão e monitorando a situação na estrada. Mensagens como “pode ir”, “chegando presídio” e “tá onde” foram interpretadas pela PF como indicativos de que ele atuava no apoio ao transporte.
A investigação aponta que Ermenson teria contratado Matheus para transportar o entorpecente, contando com o apoio de Murilo e Maycon.
A casa de Murilo foi alvo de busca e apreensão em Itaporã. Os policiais apreenderam dois celulares que estavam no guarda-roupa do quarto do casal. A Justiça determinou o bloqueio de R$ 3,679 milhões relacionados a Murilo.
A investigação teve como ponto de partida diferentes prisões realizadas em 2025. Em 13 de maio, Matheus Bruno da Silva do Nascimento e Vinicius Gomes de Oliveira Silva foram presos durante uma ocorrência envolvendo transporte de maconha.
Três meses depois, 1,95 tonelada de maconha foi apreendida pelo DOF (Departamento de Operações de Fronteira) em uma Toyota Hilux, em Dourados. O veículo foi abordado durante bloqueio na BR-463, mas o motorista desobedeceu à ordem de parada, abandonou a caminhonete às margens da rodovia e fugiu.
A caminhonete tinha placas falsas e, durante a checagem, os policiais constataram que havia sido furtada em maio daquele ano, em Cuiabá (MT). A droga, avaliada em aproximadamente R$ 5,1 milhões, estava dividida em fardos e tabletes.
No dia seguinte à apreensão, 14 de agosto, Ermenson Eder Rech enviou um áudio ao motorista Higor Thalys relatando problemas relacionados à perda de uma carga. Conforme a análise da Polícia Federal, o conteúdo da conversa estaria relacionado à logística de uma carga de drogas que havia saído da região de fronteira com destino a Dourados.

Em 10 de outubro, Uanderson de Paula Silva, conhecido também como “Montanha”, foi preso na BR-262, em Três Lagoas, transportando 978,7 quilos de maconha escondidos em meio a uma carga de óleo vegetal. A análise dos celulares apreendidos nesses casos permitiu, segundo a PF, identificar conexões entre os envolvidos e reconstruir parte da estrutura criminosa.
Durante a investigação, os policiais identificaram que Uanderson havia conduzido outro caminhão. Com isto, o veículo passou a ser monitorado e em 17 de outubro o veículo se deslocou para Dourados. No dia seguinte retornou, seguindo para o Estado de São Paulo. No dia 19, Ricardo Monteiro Feitosa de Melo, Wallan Izidio dos Santos e Mauro Antonio Chaves dos Santos foram presos no caminhão com 3,5 toneladas de maconha.
Nas mensagens trocadas por “Montanha”, os policiais identificaram que a estrutura não era utilizada exclusivamente para um grupo. Uanderson negociava fretes, procurava cargas lícitas para servirem de cobertura e oferecia Thalys como motorista. Há conversas sobre valores de R$ 65 mil a R$ 180 mil, além de uma negociação de R$ 1 milhão, com previsão de R$ 200 mil de adiantamento e R$ 100 mil de comissão para Uanderson.

O grupo utilizava cargas lícitas como fachada, veículos de apoio, monitoramento por GPS e internet via satélite, além da troca periódica de aparelhos celulares para dificultar a atuação policial.
A decisão judicial afirma que a estrutura apresentava divisão de tarefas, estabilidade e permanência, com atuação voltada ao tráfico interestadual de drogas em larga escala.
Bloqueio - Além das prisões, a Justiça autorizou o sequestro de valores e veículos ligados aos investigados e à MCR Transportes.
Entre os bens estão um caminhão VW/24.280, apontado como utilizado com frequência no transporte de drogas; um Honda HR-V ligado à esposa de Ermenson; uma Fiat Strada relacionada à empresa do investigado; um Ford Focus utilizado por Evandro e outra Fiat Strada.
Durante as buscas na casa de Ermenson, os policiais encontraram seis celulares e R$ 159.750 em dinheiro, além de US$ 100. Também foram localizadas chaves e documentos de um caminhão estacionado em frente ao imóvel. Dentro do veículo havia caixas com fitas adesivas semelhantes às utilizadas para embalar a maconha apreendida em outras etapas da investigação.
Fuga - Murilo foi preso horas depois da deflagração da operação. Ele estava na BR-060, em Sidrolândia, quando foi abordado pela PRF (Polícia Rodoviária Federal). Segundo o registro policial, Murilo dirigia um conjunto de veículos de carga quando foi abordado no km 430 da rodovia.
Durante a fiscalização, ele contou aos policiais que agentes haviam ido até sua casa naquela manhã e apreendido equipamentos eletrônicos, mas afirmou desconhecer o motivo da ação.
Murilo foi encaminhado à Delegacia de Polícia Civil de Sidrolândia. Um celular Realme Note 60 também foi apreendido e entregue para análise da Polícia Judiciária.
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