"Chuva rosa" usada contra fogo nos EUA viraliza, mas não tem regra clara aqui
Em MS o produto chegou a ser anunciado para testes em 2024, só que ainda não há regra estadual específica
Um vídeo que mostra um avião de grande porte lançando uma extensa nuvem de retardante químico sobre uma área residencial atingida por incêndios nos Estados Unidos tem chamado atenção nas redes sociais nos últimos dias. As imagens circulam associadas aos incêndios que atingem a região de Spokane, no estado de Washington, onde aeronaves estão sendo usadas no combate às chamas.
RESUMO
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Vídeo que circula nas redes sociais mostra aviões lançando retardante químico sobre áreas residenciais atingidas por incêndios em Spokane, Washington, nos Estados Unidos. No Brasil, o uso desses produtos ainda carece de regulamentação. Em 2018, o Ibama reconheceu a ausência de normas específicas e recomendou uso restrito. Em 2025, o órgão ainda realizava diagnósticos sobre as substâncias.
O cenário é real. Imagens divulgadas pela Reuters mostram aviões-tanque despejando retardante sobre áreas atingidas pelos incêndios próximos a Spokane. Os focos começaram em 1º de agosto e chegaram a provocar a retirada de cerca de 64 mil moradores. Nesta segunda-feira (10), mais de 900 casas já haviam sido destruídas ou severamente danificadas, segundo a agência.
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A cena chama atenção principalmente pela coloração do material despejado pelas aeronaves. Dependendo do produto, retardantes usados no combate aos incêndios recebem pigmentação avermelhada ou rosada, que permite identificar visualmente onde a substância já foi aplicada.
Nos Estados Unidos, o recurso faz parte do arsenal usado para criar barreiras à propagação das chamas e aumentar a eficiência da água. No Brasil, porém, a discussão sobre como esses produtos podem ser utilizados em incêndios florestais se arrasta há anos e ainda passa por avaliações ambientais.
Um parecer elaborado em 2018 pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) já reconhecia expressamente a inexistência de regulamentação específica para o uso de retardantes em incêndios florestais no País. Sem regras próprias, as informações apresentadas pelas fabricantes eram voluntárias e o órgão afirmava não conseguir exigir todos os estudos físico-químicos e ecotoxicológicos necessários à avaliação dos produtos.
Isso, no entanto, não significava proibição. No mesmo documento, o Ibama concluiu que não havia impedimento legal ao emprego dessas substâncias e recomendou o uso restrito de retardantes à base de nitrogênio, enquanto não fossem regulamentados o registro e a utilização dessa classe de produtos no Brasil.
Em último caso - A orientação vinha acompanhada de uma extensa lista de cuidados. Entre eles, o Ibama recomendava que retardantes fossem empregados apenas como último recurso, quando os meios tradicionais de combate fossem insuficientes, houvesse escassez de água ou o acesso direto ao incêndio fosse difícil.
O parecer ainda orientava priorizar determinados tipos de substâncias, exigir a composição dos produtos e evitar fórmulas com componentes considerados mais preocupantes do ponto de vista ambiental.
Uma das maiores preocupações era a contaminação da água. Segundo a avaliação técnica, os impactos dependem da composição, quantidade e local de aplicação. O documento destaca que determinados componentes podem apresentar toxicidade para organismos aquáticos e recomenda evitar o lançamento diretamente sobre córregos e outros corpos hídricos.
Para aplicações aéreas, como as vistas atualmente nos Estados Unidos, a orientação incluía cuidados com vento, deriva da substância e proximidade de cursos d'água.
O Ibama também recomendava registrar por georreferenciamento todos os locais onde o material fosse utilizado, com data, quantidade e tamanho da área atingida. Nas regiões diretamente expostas, o parecer chegou a recomendar a suspensão do consumo de água, pesca, caça, frutas e vegetais durante 40 dias.

Oito anos depois - A discussão não terminou naquele parecer. Em junho de 2025, sete anos depois da análise inicial, o próprio Ibama incluiu o tema entre as metas de seu planejamento ambiental. A Portaria nº 83, que modificou o PlanaQuali (Plano Bianual de Qualidade Ambiental) para o período de junho de 2024 a maio de 2026, estabeleceu como uma das ações o “diagnóstico das substâncias químicas utilizadas como retardantes de chamas”.
A previsão era elaborar um levantamento de dados e informações sobre substâncias químicas utilizadas como retardantes de fogo.
Esse ato mostra que, mesmo depois dos incêndios de grandes proporções registrados no País e da discussão iniciada anos antes, o governo federal ainda trabalhava na obtenção de informações técnicas necessárias para lidar com esse tipo de produto.
Por aqui - Em Mato Grosso do Sul, a possibilidade de adoção do produto chegou a avançar durante a temporada de incêndios de 2024.
Naquele ano, o Governo do Estado anunciou que começaria testes com retardantes misturados à água lançada por aeronaves utilizadas no combate aos incêndios do Pantanal e do Cerrado. A intenção era avaliar a eficiência e eventuais consequências da substância antes de uma possível aquisição.
À época, o secretário estadual de Meio Ambiente, Jaime Verruck, justificou os testes justamente pela falta de uma norma específica no País. A questão também aparece em legislação técnica estadual mais recente, mas sem representar uma regulamentação ambiental para o emprego da substância em incêndios florestais.
Uma norma publicada pelo CBMMS (Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso do Sul) em março de 2025 trata da padronização de terminologias usadas na segurança contra incêndio. Seu objetivo é estabelecer conceitos utilizados nas normas estaduais aplicáveis a edificações, instalações e áreas de risco.
Ou seja, a presença do termo na regulamentação dos bombeiros não equivale à criação de regras sobre composição, toxicidade, locais de aplicação e lançamento aéreo de retardantes em grandes incêndios ambientais.
Não inofensivo - Também não é correto tratar todos os retardantes como produtos sem risco ambiental.
Na avaliação realizada em 2018, o Ibama analisou algumas formulações específicas que apresentaram baixa toxicidade e baixa persistência nos estudos fornecidos pelas empresas. Isso não permitia, entretanto, generalizar a conclusão para qualquer retardante.
No caso do Hold Fire, por exemplo, o Instituto registrou resultados indicando baixa toxicidade para determinados organismos e biodegradabilidade, mas ressaltou que os relatórios completos dos ensaios não haviam sido apresentados. A própria análise destacava que não existia sistema regulamentado para avaliar esse tipo de produto químico.
O parecer de 2018 também advertia que ainda havia poucas informações sobre alguns retardantes mais recentes e que a ausência de estudos não poderia ser interpretada como ausência de risco ambiental.
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