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Meio Ambiente

Com fogo no Pantanal, araras-azuis novamente correm risco de extinção

Seis anos após sair da lista de animais em vias de extermínio, espécie, infelizmente, deve retornar ao rol

Por Lucia Morel | 24/09/2020 16:54
Araras-azuis estão novamente em risco de extinção com queimadas no Pantanal. (Foto: Paulo Francis/Arquivo)
Araras-azuis estão novamente em risco de extinção com queimadas no Pantanal. (Foto: Paulo Francis/Arquivo)

Depois de dois anos seguidos de destruição pelo fogo, o Pantanal vê uma de suas principais espécies de ave prestes a voltar à lista de animal ameaçado de extinção: a arara-azul, que venceu o risco de extermínio em dezembro de 2014.

Para a presidente do Instituto Arara Azul, Neiva Guedes, autoridade na espécie, o retorno dos animais ao grupo dos que estão em vias de serem eliminados, é certa. Em entrevista ao O Globo, ela afirma que “elas devem voltar para a lista dos animais brasileiros ameaçados de extinção.”

Isso decorre, infelizmente, do fogo na planície pantaneira em Mato Grosso do Sul e em Mato Grosso. Em 2019, queimadas atingiram o Refúgio Ecológico Caiman, que é centro de reprodução da espécie, em Miranda. Segundo Neiva, o problema é o pós-fogo.

“Nas queimadas de 2019 perdemos 40% dos casais reprodutores, com um impacto grande no futuro da espécie. O pós-fogo é um período de agonia de duração incerta, muitas vezes, pior que as chamas. Ele traz fome e perda de habitat”, afirmou a especialista.

Citando a região de Miranda, ela sustenta ainda que lá, “as araras-azuis ficaram sem comida e ninhos. Elas são extremamente especialistas, comem apenas os frutos das palmeiras acuri e bocaiúva. Vimos que filhotes sobreviventes das queimadas de 2019 tiveram deficiências devido à falta de comida. As araras tentam comer a bocaiúva queimada, mas não se sabe o quanto esta é nutritiva. E as araras também perdem seus ninhos.”

Exuberância da espécie é nítida; os animais foram tirados da lista dos ameaçados de extinção em dezembro de 2014. (Foto: Instituto Arara Azul)
Exuberância da espécie é nítida; os animais foram tirados da lista dos ameaçados de extinção em dezembro de 2014. (Foto: Instituto Arara Azul)

Já neste ano, em Mato Grosso, o fogo ativo atinge a Fazenda São Francisco de Perigara, em Barão de Melgaço, que teve 92% da área queimada. O local é considerado santuário da espécie e responsável por 15% de toda população do animal da natureza.

“Neste ano nem sabemos ainda, tamanha a destruição. Nunca vimos nada igual ao que presenciamos agora. Como as queimadas de 2020 já destruíram uma área muito maior (cerca de 3 milhões de hectares até setembro) que as do ano passado, tememos ainda mais pelo pós-fogo”, ressalta.

Araras na Fazenda São Francisco do Perigara em agosto (Foto: Acervo pessoal/Ana Maria Barreto)
Araras na Fazenda São Francisco do Perigara em agosto (Foto: Acervo pessoal/Ana Maria Barreto)

Três predações – a tragédia é tamanha, que Guedes afirma que neste ano, pela primeira vez desde o começo do monitoramento da espécie, na década de 90, houve ocorrência de uma arara matar a outra. “Essas araras são muito sociáveis, os bandos vivem em harmonia. Mas seus ninhos foram queimados. E as araras entraram em conflito. Esse tipo de comportamento brutal, movido pelo desespero, nunca tinha sido observado na espécie”, lamenta.



E não fosse isso, há ainda a predação por outros animais, que sem alimento devido as queimadas, encontram nas araras sua refeição. “Documentamos iraras (papa-mel ou jaguapé) e jaguatiricas matando e comendo araras-azuis adultas no ninho.”

Segundo Neiva, as araras-azuis são grandes e podem voar, mas “são vulneráveis. Elas acabam traídas por sua lealdade. Como os casais reprodutores não abandonam seus ovos e filhotes, eles se tornam presas de carnívoros, que aprenderam a escalar árvores muito altas. É desesperador!”

A especialista diz ainda que mais que a própria natureza tentando sobreviver, há, mais uma vez, a mão do homem, que para obter vantagens financeiras, capturam as araras para vendê-las no mercado ilegal.

“Temos recebido mais araras e papagaios apreendidos de traficantes de animais. Mas só tem tráfico porque há quem compre. É uma vergonha que exista gente que se aproveite da situação e compre esses animais para aprisioná-los por prazer e ostentação.”

Sobre as queimadas no Pantanal, Neiva é esperançosa, mas realista. “Tivemos queimadas recordes por dois anos seguidos, em 2019 e 2020. O Pantanal é muito guerreiro, resiliente, temos esperança de que vai se recuperar, não sabemos em quanto tempo. Mas é necessário trabalhar para evitar novos desastres. Bioma algum aguentará sucessivas tragédias.”

A reportagem entrou em contato com a veterinária, mas não houve retorno até a publicação deste material.

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