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Campo Grande, Quinta-feira, 12 de Dezembro de 2019

30/10/2019 08:51

Em meio ao desastre do Rio Taquari, ‘nasce’ o Payaguás do Xarayés

Tratado como região do Pantanal que se transformou em ‘novo bioma’, lugar é alvo de apelos para exploração econômica

Humberto Marques
Payaguás do Xarayés surgiu a partir do espraiamento do Rio Taquari em área da planície pantaneira. (Foto: Instituto Agwa/Reprodução)"Payaguás do Xarayés" surgiu a partir do espraiamento do Rio Taquari em área da planície pantaneira. (Foto: Instituto Agwa/Reprodução)

Falar no desastre do Rio Taquari é tocar um assunto que muitos dizem conhecer. Afinal, já são quase 40 anos de notícias sobre como o assoreamento fez trechos do curso d’água, um dos mais piscosos de Mato Grosso do Sul, simplesmente desaparecer. O fenômeno, porém, é mais dinâmico e bem menos simplista, e conta com aspectos nem sempre devidamente abordados: entre eles, o fato de ocorrer ali um processo geológico que pode, sim, ter sido acelerado pelo homem; e a luta da natureza para “dar seu jeito”, sobreviver e se readaptar, alterando 1,3 milhão de hectares do ecossistema e quase criando um “novo bioma” (termo visto com cautela por especialistas).

Estudiosos sobre o Pantanal veem os fenômenos surgirem no Taquari à medida que avançam rumo ao oeste, em direção ao Rio Paraguai. Areia arrastada do outro extremo, o planalto, em um raio de centenas de quilômetros que abraça municípios como Alcinópolis, Camapuã, Chapadão do Sul e Alto Taquari (MT), entre muitos outros, deu novos contornos ao rio, fez a calha sumir junto com a água, que se não em filetes, foi empoçada, se espalhou ou, como em 20 de setembro deste ano, simplesmente desapareceu.

As imagens, repassadas ao Campo Grande News pelo Instituto Agwa, impressionam. Locais onde antes havia portos fluviais há décadas e que, poucos meses atrás, era possível atravessar com a água no joelho, neste ano viraram estradas de terras ou quintais onde famílias secavam a roupa nas cercas. Apenas a vegetação sobrevivente no entorno e algumas construções dão a entender que, ali, passou um rio.

Só que o choque vem com outra constatação: o Taquari não “morreu”. Na verdade, quem usar este termo para definir o que ocorreu com o rio, terá de dizer também que ele “ressuscitou”. E mais de uma vez. Estudos conduzidos por pesquisadores da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) e Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) apontam que, em milhões de anos, o rio mudou seu curso várias vezes –braços, córregos e outros leitos secos ali existentes “foram o Taquari” no passado.

Banco de areia no Taquari, resultado do depósito de sedimentos. (Foto: Instituo Agwa/Reprodução)Banco de areia no Taquari, resultado do depósito de sedimentos. (Foto: Instituo Agwa/Reprodução)
Porto Santo Antônio, em 20 de outubro, com rio totalmente seco. (Foto: Instituto Agwa/Reprodução)Porto Santo Antônio, em 20 de outubro, com rio totalmente seco. (Foto: Instituto Agwa/Reprodução)

Alagado – Se o rio secou de um lado, do outro fez surgir o que passou a ser chamado de “Payaguás do Xarayés”: um delta alagado de 1,3 milhão de hectares transparentes, com vegetação e fauna que se modificaram –com a substituição de espécies dominantes por outras mais adaptadas à nova condição do solo– e criaram paisagens que se assemelham a atrativos como Bonito. E que agora uma corrente de produtores, ambientalistas e pesquisadores defende analisar sob a ótica do aproveitamento econômico. Sai a pecuária, sinônimo de riqueza e das grandes fazendas no passado, para que atividades como o turismo sustentável ocupe o espaço.

“Temos de iniciar o desenvolvimento econômico da região, até para ajudar na preservação. Da forma como está, apenas com as pessoas sem oportunidades, vai continuar a exploração sem limites da pesca e outras atividades”, afirma o advogado Nelson Araújo Filho, um dos entusiastas da necessidade de se dar foco às mudanças no meio ambiente naquela região a fim de combater o “desastre” que, mais do que ambiental, teve um impacto econômico radical.

“O ‘desastre’ vem por conta de que quem cunhou esse termo foram os prejudicados. Para a pessoa que teve sua fazenda inundada e perdeu sua produção, e para algumas regiões na qual a mata de árvores grandes secou completamente, o que houve foi um desastre”, afirmou o pesquisador Carlos Padovani, da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) Pantanal, mestre em Biologia e doutor em Ecologia aplicada e um dos principais estudiosos sobre as mudanças sofridas pela região do Rio Taquari.

“É preciso ter um pouco de empatia para perceber as consequências na vida das pessoas. Foi drástico: envolveu pecuaristas, ribeirinhos, moradores da região, que tem assentamentos antigos”, prosseguiu o estudioso, ao lembrar que, hoje, muitas dessas comunidades dependem de auxílio do poder público para viverem –fora os que foram obrigados a abandonar a região e se mudar para a periferia de Corumbá.

Área escura no mapa mostra delta onde água do Taquari se espalhou. (Imagem: Instituto Agwa/Reprodução)Área escura no mapa mostra delta onde água do Taquari se espalhou. (Imagem: Instituto Agwa/Reprodução)
Arrombado Caronal no encontro com o Taquari; área onde rio muda de direção. (Foto: Instituto Agwa/Reprodução)Arrombado Caronal no encontro com o Taquari; área onde rio muda de direção. (Foto: Instituto Agwa/Reprodução)

Interpretações – A área do Payaguás do Xarayés é tomada por braços de pequenos rios que desembocam em um gigantesco lago, deixando a vegetação submersa. “Ali, uma nova vida está nascendo, um novo e desconhecido bioma que precisa ser estudado para se saber se aquela tragédia que expulsou famílias, inundou fazendas e causou a morte de um rio importante de Mato Grosso do Sul acabou dando lugar a um inédito, maravilhoso e inexplorado ambiente”, destacou o Instituto Agwa, em nota.

A interpretação sobre o novo “bioma” não é consenso entre especialistas. Padovani, por exemplo, considera que o Payaguás do Xarayés possa ser visto “talvez como uma nova região do Pantanal, que já foi descrita por mim e outros colegas, como parte do espalhamento do Taquari”, contestando o conceito. Já o professor doutor Fábio Veríssimo Gonçalves, vice-coordenador da Pós-graduação em Tecnologias Ambientais e que leciona no curso de Engenharia Ambiental da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), enxerga transformações “na quais tem vida pulsando ali, com peixes e vegetação que se adequaram a essa nova inundação”.

A exploração econômica, segundo o Agwa, esbarra em proibições judiciais por provocação do Ministério Público, contrário ao desenvolvimento de ações na região, seja turística ou de estudos e pesquisas. “Enquanto isso não se flexibiliza, o Rio Taquari morre ainda mais e a ‘novidade’ que surgiu dessa tragédia se esconde”, sustenta a instituição.

Proprietário de terras na “entrada” do Caronal, o produtor rural Orlei Saravi Trindade lembra que, a princípio, toda a região foi contra o fechamento dos arrombados. “Todo mundo fala do desastre do rio, mas ele também destruiu o Pantanal do Paiaguás, criou um delta com milhares de hectares que ficaram embaixo d’água. O que morreu de animais e o Estado deixou de produzir, ninguém ficou sabendo”, lamentou, ao comparar a situação com a tragédia de Brumadinho (MG), “mas como aqui é pouco povoado, ninguém divulgou”.

Trindade afirma que, economicamente, a região parou. Um exemplo é a pesca, que se tornou impraticável na região de águas rasas. Ele reforça que ações como as anunciadas nos últimos anos, que previam a destinação de milhões de reais para revitalizar o rio, ficaram nas promessas. “Há 40 anos se discute a mesma coisa e há 40 anos não se faz nada. De um lado virou um deserto, um Saara onde os animais estão morrendo de sede e as pessoas furam cacimbas para tomar água enferrujada, podre. E de outro é um Pantanal que não serve de nada”, reclamou o produtor, que arremata. “Não existe conservacionismo sem economia, porque as pessoas acabam com tudo. Precisa levar algum sustento para lá”.

Entidade e produtores defendem exploração comercial da região. (Foto: Instituto Agwa/Reprodução)Entidade e produtores defendem exploração comercial da região. (Foto: Instituto Agwa/Reprodução)
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