ACOMPANHE-NOS    
SETEMBRO, SEXTA  25    CAMPO GRANDE 36º

Meio Ambiente

Enquanto Ibama segura recursos, queimadas expulsam 200 ribeirinhos do Pantanal

Famílias fogem das queimadas que atingem MS; enquanto isso, Ibama segurou recursos contra incêndios e gastou apenas 19% do total

Por Silvia Frias | 14/08/2020 10:34
Trabalho de combate às queimadas na região do Pantanal (Foto/Divulgação/CBMS)
Trabalho de combate às queimadas na região do Pantanal (Foto/Divulgação/CBMS)

Este ano, até dia 30 de julho, o Ibama (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais) gastou apenas 19% da verba anual destinada à contenção e prevenção de incêndios florestais, decisão administrativa que mostra seus efeitos em Mato Grosso do Sul. Mais especificamente, como exemplo, na vida de 200 moradores ribeirinhos de Porto da Manga, localizada à esquerda do Rio Paraguai, em Corumbá, expulsos de suas casas por conta das queimadas no Pantanal.

Ambientalistas alertam que a maioria dos investimentos contra queimadas em florestas deve ser realizado antes da estação seca nos biomas, ou seja, entre abril e junho. Nos meses seguintes, os incêndios proliferam e já não há mais tempo para tomar medidas preventivas.

Agora, a população sente os efeitos das decisões na esfera governamental. Levantamento feito pelo IHP (Instituto Homem Pantaneiro) divulgado hoje pelo jornal O Globo diz que os 200 moradores da região do Porto da Manga deixaram suas casas em busca de abrigo longe da fuligem e da proximidade do fogo. A pesquisa foi feita com 8 comunidades ribeirinhas.

Nelas vivem cerca de 1.110 pessoas, distribuídas em cerca de 240 famílias que recorreram aos parentes que vivem na zona urbana. “Vimos relatos de pessoas que sofriam dor de cabeça e problemas respiratórios agravados pelos incêndios”, conta o presidente do IHP, Ângelo Rabelo.

O pescador Delson Castelo, 57 anos, permanece na área e relatou ver o “dia nascer cinza”. Segundo ele, “o Pantanal está tão seco que lembra o Nordeste”.

Em entrevista ao jornal O Globo, o presidente da Ecoa (Ecologia em Ação), André Siqueira falou sobre a “migração temporal” dos pescadores para atualizar seus cadastros em programas sociais. No entanto, acredita que as diferenças entre os meios urbano e rural desmotivem os ribeirinhos a abandonar seus lares por muito tempo.

Recursos – Em outro levantamento divulgado pelo jornal, enquanto as queimadas consomem milhões de hectares no Pantanal e Amazônia, o Ibama gastou, até dia 30 de julho, 19% de seus recursos previstos.

A lei orçamentária de 2020 destinou R$ 35,5 milhões para que o instituto tomasse iniciativas que poderiam conter o avanço do fogo em ecossistemas, mas somente R$ 6,8 milhões foram investidos nos primeiros sete meses do ano.

Segundo levantamento do jornal O Globo, trata-se de um valor muito inferior ao registrado na série histórica. Durante todo o ano de 2016, o Ibama gastou 90,1% dos R$ 43.890.752 previstos para o combate às queimadas em áreas federais. Em seguida, foram 49,6% dos R$ 42.445.604 fixados pela LOA em 2017; 54,4% de R$ 52.301.296 em 2018; e 85,5% dos R$ 44.547.828 previstos no ano passado.

Entre os programas recomendados para preparar os ecossistemas contra incêndios estão a contratação e o treinamento de brigadistas, a realização de convênios com órgãos ambientais e a instituição de medidas de educação ambiental, especialmente junto a agricultores que vivem nas bordas da floresta.

“É um valor ridículo que mostra a falta de vontade política no combate às queimadas”, disse o ambientalista Fábio Feldmann. “Toda a logística deveria ter sido montada há três ou quatro meses, e envolve uma ampla rede, que vai do sensoriamento remoto de áreas com tendência de queimadas ao uso de helicópteros para apoio de equipes que atuarão no solo”.

Nas últimas 48 horas, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) detectou 193 focos no Pantanal sul-mato-grossense. A queimada já destruiu um milhão e cem mil hectares, causando a destruição da vegetação e a morte de centenas de animais.

Já o Ibama, questionado pelo O Globo, afirma que os recursos para queimadas são executados principalmente a partir de julho, quando elas ocorrem, “e, portanto, através das ações de combate, via brigadistas, aeronaves e viaturas. Todo o orçamento será executado conforme previsto”.