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Meio Ambiente

Instituto transforma araras urbanas em ferramenta de educação ambiental

Capacitação mostra como aves da Capital podem ajudar alunos a entender e respeitar mais a natureza

Por Kamila Alcântara | 30/05/2026 10:57
Instituto transforma araras urbanas em ferramenta de educação ambiental
Inscritos no curso de educação ambiental do Instituto Arara Azul (Foto: Kamila Alcântara)

As araras que cruzam o céu de Campo Grande deixaram de ser apenas parte da paisagem neste sábado (30). Na sede do Instituto Arara Azul, no Jardim Mansur, elas viraram tema de formação para professores interessados em levar a conservação ambiental para dentro da sala de aula.

RESUMO

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O Instituto Arara Azul realizou, neste sábado (30), em Campo Grande, uma capacitação gratuita para professores da rede pública e privada sobre conservação ambiental, usando as araras como símbolo educativo. O curso, parte do Projeto Aves Urbanas, tem 16 horas de duração, oferece 20 vagas por dia e segue neste domingo (31). A iniciativa visa transformar conhecimento científico em ferramenta pedagógica acessível para toda a comunidade escolar.

Essa capacitação faz parte do Projeto Aves Urbanas, Araras na Cidade, realizado em parceria com a ADM (Archer Daniels Midland Company), e segue neste domingo (31). O curso gratuito é voltado a educadores da rede pública e privada de Campo Grande, tem carga horária de 16 horas e oferece 20 vagas por dia.

Mais do que falar sobre araras, a proposta é transformar conhecimento científico em ferramenta de educação. A ideia é que professores saiam do curso com repertório para trabalhar biodiversidade, fauna urbana, ameaças às aves nas cidades, protocolos de manejo e formas de envolver alunos em ações práticas de conservação.

Para Eliza Mense, da diretoria executiva do Instituto Arara Azul, os professores são estratégicos porque multiplicam o conhecimento. O conteúdo que chega a eles também chega aos estudantes, às famílias e à comunidade.

“Professores são um público extremamente interessante, porque eles são multiplicadores de todo o conhecimento que a gente leva, por causa do público com que eles trabalham. E não é só para trabalhar com os alunos. Esses alunos também são multiplicadores, eles levam para a família, para os amigos”, afirmou.

Segundo Eliza, o instituto busca evitar que o conhecimento produzido por biólogos, pesquisadores, veterinários e outros profissionais fique restrito ao ambiente técnico. A missão, explica, é traduzir esse conteúdo para uma linguagem acessível.

“A importância do nosso trabalho é não deixar todo o conhecimento dos nossos cientistas, dos nossos biólogos, pesquisadores, veterinários, na gaveta. A gente pega todo esse conhecimento que é gerado aqui dentro e decodifica. Fica numa linguagem mais simples e acessível a cada público que a gente trabalha”, disse.

Instituto transforma araras urbanas em ferramenta de educação ambiental
Diretora executiva do Instituto Arara Azul, Eliza Mense (Foto: Divulgação)

A formação não é voltada a uma disciplina específica. A inscrição reúne professores com perfis semelhantes, mas que atuam com turmas e realidades diferentes. O ponto comum é a possibilidade de usar as araras como porta de entrada para temas mais amplos da educação ambiental.

Eliza explica que as aves funcionam como símbolo, justamente por serem carismáticas e muito presentes no cotidiano de Campo Grande. A partir delas, é possível discutir conservação, cuidado com a cidade, relação com a fauna e responsabilidade coletiva.

“Nós trabalhamos as araras como um símbolo para chamar a atenção e trabalhar outras áreas da educação ambiental. Não é só o foco trabalhar com aves urbanas ou com arara-azul ou com araras-canindé. O foco é pegar esses símbolos importantes, que chamam a atenção, são carismáticos, e trabalhar outras questões da educação ambiental, até mesmo no dia a dia”, afirmou.

Os resultados aparecem quando o conteúdo volta para as escolas. Segundo o instituto, professores que já participaram de ações semelhantes desenvolveram feiras, pinturas, concursos e atividades em sala de aula. Para Eliza, esse retorno mostra que a comunidade também se torna parte da conservação.

“Hoje, todo o trabalho que é feito aqui na cidade, com o projeto Aves Urbanas, Araras na Cidade, tem a comunidade engajada. Moradores que têm ninhos próximos de casa participam, ajudam a cuidar daquele bairro, daquele local e da cidade como um todo”, disse.

Esse envolvimento, segundo ela, ajuda até em situações de risco. Moradores avisam quando uma arara cai no início do voo, quando ocorre algum incidente ou quando há suspeita de ameaça às aves. Também colaboram na prevenção ao tráfico de animais.

“Quando eles se orgulham de ter um ninho próximo de casa, um ninho ativo, com reprodução de araras-canindé ou de outra espécie, eles também estão nos ajudando. Isso é muito importante e é um grande resultado que vem da comunidade”, completou.

Entre os participantes estava uma professora de ciências da Reme (Rede Municipal de Ensino), Glace Fernandes, que dá aulas em escolas nos bairros Santa Carmélia e Petrópolis. Bióloga de formação, ela contou que procurou o curso por afinidade com zoologia, meio ambiente e conservação.

Instituto transforma araras urbanas em ferramenta de educação ambiental
Glace Fernandes, professora em duas escolas da Reme (Rede Municipal de Educação) (Foto: Kamila Alcântara)

“Eu fiz biologia, gostava dessa área da zoologia, do meio ambiente. Quando tem oportunidade de fazer trilha, de fazer algum curso, eu gosto de fazer”, contou.

Na sala de aula, porém, ela vê um desafio que considera preocupante. Para a professora, muitos alunos chegam ao ensino fundamental com pouco vínculo com a natureza e pouca familiaridade com temas ambientais.

“Eu acho que eles são muito alienados. Quando a gente trabalha esses assuntos parece que há uma alienação. Parece que eles estão adormecidos em relação ao meio ambiente”, disse.

A avaliação dela é dura, mas aponta para um problema concreto: falta de convivência. Segundo a professora, em algumas escolas onde trabalha não há árvores nem jardim, o que dificulta criar um sentimento de pertencimento.

“Como você vai criar amor por alguma coisa que você não conhece? Acho que falta isso nas escolas, esse espaço verde. É tudo concreto”, afirmou.

A capacitação também chamou a atenção de quem veio de fora. A bióloga Romana Aguiar, de Fortaleza (CE), participou da atividade para conhecer de perto como o Instituto Arara Azul comunica ciência e aproxima a comunidade da conservação.

Ela trabalha com atividades formativas para a educação básica e para visitantes em espaços não formais, como parques, zoológicos e ambientes ao ar livre. Por isso, queria observar como o instituto adapta a linguagem científica para professores e famílias.

“Como eu trabalho com conservação, eu tenho que entender a necessidade dos professores e das famílias para traduzir o conteúdo científico para a linguagem deles”, disse.

Instituto transforma araras urbanas em ferramenta de educação ambiental
Bióloga Romana Aguiar, de Fortaleza (CE), também trabalha com educação ambiental (Foto: Kamila Alcântara)

Romana afirmou que já conhecia o instituto como referência em ciência e conservação, mas se surpreendeu com a forma como a biodiversidade aparece no cotidiano de Campo Grande. Para ela, há um contraste forte com a realidade do Ceará.

“Eu acordei com uma arara gritando na minha janela e a gente não tem isso no Ceará. As nossas espécies são menores, ficam mais escondidas. A gente não tem uma arara passeando pela cidade”, contou.

A bióloga diz que, em Fortaleza, muitas vezes é preciso levar as pessoas a locais específicos, como parques, para treinar o olhar e a escuta da biodiversidade. Em Campo Grande, segundo ela, a natureza está mais visível e integrada à rotina.

“A natureza está muito próxima de vocês. Eu vi uma população que já tem isso como algo corriqueiro, mas também vi todo mundo falando com muito amor e muita paixão”, afirmou.

Romana pretende levar a experiência para o Ceará. Para ela, o exemplo de Campo Grande mostra como espécies-símbolo podem mobilizar a comunidade e dar força a projetos de conservação.

“Essa paixão que o sul-mato-grossense tem pela biodiversidade e os esforços que estão sendo feitos aqui para dar visibilidade a esse trabalho é algo que, com certeza, eu vou levar para o meu estado”, disse.

Instituto transforma araras urbanas em ferramenta de educação ambiental
Neiva Guedes, presidente do Instituto Arara Azul, deu início às atividades do curso (Foto: Kamila Alcântara)

A oficina segue neste domingo (31), com discussões sobre educação ambiental, mobilização comunitária, biologia das araras urbanas, ameaças às aves, segurança em atendimentos e planejamento de ações conjuntas.

Segundo o Instituto, por ano são realizadas cerca de dez oficinas como essa. Os interessados podem ter mais informações pelo telefone (67) 3222-1205.

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