Levantamento aponta pressão sobre fauna e padrão de empobrecimento das espécies
Apreensões em rodovias revelam dimensão oculta da caça de animais silvestres

Do Cerrado ao Pantanal, a caça ilegal segue impactando a fauna e deixando sinais nas rodovias federais. Mesmo proibida no Brasil desde 1967, a prática continua disseminada e, por ocorrer de forma clandestina, ainda é pouco mensurada em dados oficiais.
RESUMO
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Pesquisa publicada pelo The Conversation Brasil analisou sete anos de registros da Polícia Rodoviária Federal e identificou 314 apreensões de animais silvestres abatidos, totalizando 9.479 animais e 9,3 toneladas de biomassa. O estudo apontou 47 espécies capturadas, sendo sete ameaçadas de extinção, como anta e tatu-canastra. No Cerrado e Pantanal, répteis como o tracajá se destacam nas apreensões. Os autores alertam que os dados representam apenas parte do cenário real.
As informações fazem parte de um levantamento publicado pelo The Conversation Brasil, que reúne conteúdos produzidos por acadêmicos e jornalistas com base em pesquisas científicas. O estudo foi assinado por pesquisadores de diferentes instituições, incluindo duas profissionais de Mato Grosso do Sul: Neiva Guedes, do Instituto Arara Azul, e Carla L. G. Rivero-Wendt, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Biologia Animal da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul).
O trabalho analisou sete anos de registros da Polícia Rodoviária Federal, entre 2017 e 2024, considerando apenas apreensões de animais abatidos para consumo ou transporte de carne silvestre. Foram identificados 314 eventos independentes, com pelo menos 9.479 animais apreendidos, somando cerca de 9,3 toneladas de biomassa.
Os números indicam que a caça ilegal não é pontual. Ela ocorre de forma contínua e estruturada, com impacto sobre diferentes biomas. Embora Amazônia e Caatinga concentrem maior volume de registros, o recorte que inclui Cerrado e Pantanal revela padrões próprios.
Nessas regiões, os dados mostram que répteis têm participação relevante nas apreensões, com destaque para o tracajá, espécie que aparece com 210 indivíduos abatidos nos registros analisados. Esse dado sugere pressão sobre grupos que, em outros biomas, não aparecem com tanta intensidade.
Ao todo, foram identificadas 47 espécies diferentes entre os animais apreendidos. Entre elas, sete estão oficialmente classificadas como ameaçadas de extinção, como anta, queixada, tatu-canastra e mutum-de-penacho.
O estudo também identificou um padrão associado à chamada defaunação, que é a perda gradual de animais em um ecossistema. Segundo a análise, à medida que a fauna diminui, aumenta o número de indivíduos capturados por ocorrência, mas esses animais tendem a ser menores e com menor biomassa.
Isso indica uma mudança no perfil da caça: espécies de maior porte vão sendo reduzidas ao longo do tempo, enquanto aves e animais menores passam a ser mais explorados. Esse padrão já havia sido observado em estudos locais e agora aparece de forma consistente também nos registros de apreensão.
Outro ponto relevante é a desigualdade na distribuição dos dados. O Pantanal, por exemplo, aparece com o menor número de apreensões registradas no levantamento. Os autores destacam que esse dado não deve ser interpretado como ausência de caça, mas como possível reflexo de lacunas na fiscalização e no monitoramento.
A pesquisa aponta ainda que os dados da PRF funcionam como um “termômetro” da caça ilegal, mas representam apenas uma fração do cenário real. A natureza clandestina da atividade, somada à dimensão territorial do país, dificulta a obtenção de números completos.
Apesar das limitações, o levantamento permite identificar áreas com maior pressão, espécies mais vulneráveis e falhas na cobertura de fiscalização. Para os autores, esse tipo de informação pode contribuir para políticas públicas mais direcionadas.
O estudo também chama atenção para a complexidade do problema. A caça ilegal não ocorre por um único motivo. Ela envolve desde práticas de subsistência até comércio ilegal e consumo urbano, o que exige respostas que vão além da repressão.
Entre as medidas apontadas estão o reforço da fiscalização em rodovias, ampliação do monitoramento em rotas fluviais e a necessidade de estratégias integradas que considerem as características de cada região, incluindo biomas como Cerrado e Pantanal.

