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Meio Ambiente

Milhões da soja pressionam Bonito e rios já têm 4 tipos de agrotóxicos

Município também vive expansão imobiliária e corrida por “vaga” às margens do Rio Formoso

Por Aline dos Santos | 09/07/2024 12:40
Área de banhado cercada por monocultura da soja. (Foto: Direto das Ruas)
Área de banhado cercada por monocultura da soja. (Foto: Direto das Ruas)

Na rádio de Bonito, empresa faz propaganda oferecendo serviços de desmatamento e terraplanagem. Na paisagem perto da MS-178, o pasto vira lavoura. No mapa da produção, a área com cultivo de soja aumentou 26%.

A indiscutível conversão do uso do solo no município turístico mais famoso de Mato Grosso do Sul rende milhões, mas a adoção da monocultura (soja e milho) também deixa preocupação pelos impactos com uso de agrotóxico e pelas características diferenciadas da Serra da Bodoquena, que tem o chamado ambiente cárstico: cavernas, dolinas (depressão no solo) e abismos. Desta forma, o solo -e mais frágil do que em outras regiões de MS.

Em junho do ano passado, levantamento da Fundação Neotrópica do Brasil encontrou, pela primeira vez, agrotóxicos nos rios do município. No Formoso, o corpo hídrico de águas verde-azuis, e no Verde, foi detectada a simazina. No Rio do Peixe, o levantamento acusou o tiametoxan. Já no Córrego Bonito, que corre na área urbana e é afluente do Formoso, apareceram fipronil e carbendazim.

Pecuária mantém árvores para fazer sombra e cobertura de vegetação no solo. (Foto: Paulo Francis)
Pecuária mantém árvores para fazer sombra e cobertura de vegetação no solo. (Foto: Paulo Francis)

“A pecuária não desmata tudo, eles deixam árvores para o gado, deixam áreas a mais. A monocultura trabalha palmo a palmo, não deixa nada. A gente trabalha com a ideia de que não sabemos se Bonito resiste a uma mudança de 100% da matriz do agro para a soja. E muitos desses proprietários nem são daqui, não têm relações locais, são empresários de outros cantos do Brasil ou investidores. E o principal problema que a gente já detectou é o uso de agrotóxico. A pecuária não lida com veneno”, afirma superintendente executivo da Fundação Neotrópica do Brasil, Kwok Chiu Cheung.

Área convertida para a lavoura às margens, na MS-178, em Bonito. (Foto: Paulo Francis)
Área convertida para a lavoura às margens, na MS-178, em Bonito. (Foto: Paulo Francis)

O avanço da soja é por conta do valor do grão, que lidera a balança de exportação de Mato Grosso do Sul. Sozinha, ela responde por US$ 2,3 bilhões no período de janeiro a junho. Parte dessa fortuna passa por Bonito.

“O valor da soja hoje para a venda é muito mais alto do que o gado. Compensa muito mais. Também há um problema na sucessão das fazendas. Por exemplo, o filho herda a fazenda, vai estudar na cidade e não quer voltar. Ou aparece a possibilidade de arrendar, a lucratividade é alta, o trabalho é todo por conta do arrendatário. Fui em uma área onde a pessoa herdou 7.500 hectares de terra dos pais, cinco mil estavam arrendado para a soja. Cinco mil hectares, numa colheita de soja, dão R$ 12 milhões só pra ela. São 12 milhões livres, sem tirar uma gota de suor”, diz Cheung.

O modelo de negócio também preocupa, porque o arrendamento acontece enquanto o solo é produtivo. Se exaurido, o investidor procura outros destinos. O desmatamento legalizado e a monocultura também aumentam a receita da administração pública.

Kwok Chiu Cheung é superintendente da Fundação Neotrópica do Brasil. (Foto: Paulo Francis)
Kwok Chiu Cheung é superintendente da Fundação Neotrópica do Brasil. (Foto: Paulo Francis)

Mas a médio e longo prazo vão ficar só os problemas para o município e para a população. Agrotóxico nunca mais sai. A gente não está falando de pessoas que estão lutando pelo dia a dia, como a maioria dos brasileiros. Estamos falando de pessoas que são muito ricas e estão investindo para ganhar muito mais dinheiro a custo do que vai sobrar para o meio ambiente e a qualidade dele para as pessoas comuns. Isso é que deixa a gente mais indignado”, destaca o superintendente da Neotrópica.

A fundação faz levantamento de 1985 a 2022 sobre as mudanças no uso do solo em Bonito, Jardim, Bodoquena e Miranda. O estudo utiliza a base de dados do MapBiomas sobre conversão de área. “Estamos analisando o que teve de diminuição de floresta, aumento da silvicultura [eucalipto], onde tem aumento da agricultura. A partir da média por ano, vamos fazer projeções do nível de alterações para daqui 10 anos”, afirma o gestor ambiental Fernando de Almeida Louveira.

De acordo com o Siga-MS (Sistema de Informação Geográfica do Agronegócio de Mato Grosso do Sul), a safra de soja 2022/2023 ocupou 70.430 hectares em Bonito. Na safra 2019/2020, o total foi de 55.516 hectares.

Um rio Formoso, mas disputado

"Aqui tem o ‘douradão’, tem muito peixe. A gente preserva, cuida", diz Junior, vizinho do Formoso. (Foto: Paulo Francis)
"Aqui tem o ‘douradão’, tem muito peixe. A gente preserva, cuida", diz Junior, vizinho do Formoso. (Foto: Paulo Francis)

Com muitos peixes (a pesca é proibida) e correndo ruidoso entre a vegetação, o Rio Formoso é uma grata surpresa depois de a reportagem passar por corpos hídricos de leito seco. Mas a beleza, além do fato de ser um dos passeios menos caro para quem busca fazer bate e volta a Bonito, tem atraído mais vizinhos, deques e estradas do que as margens podem comportar.

Porém, na lista dos impactos ao meio ambiente de Bonito, os donos de chácaras, que se intitulam "chacreiros”, se sentem injustiçados. Em fevereiro, a operação Carga Máxima distribuiu R$ 1 milhão em multas por irregularidades ambientais às margens do Formoso. Sobrou multa para balneário superlotado a vizinho que captava água do rio para consumo.

O comparativo é que no caso dos pequenos negócios as multas ainda estão em debate na esfera administrativa. Enquanto que o episódio mais alarmante ao meio ambiente de Bonito, a lama que invadiu o Rio da Prata em 2018, teve as multas esvaziadas pelo Poder Judiciário.

A Justiça arquivou 12 ações, que juntas somavam R$ 16,8 milhões contra fazendas denunciadas por dano ambiental em Bonito, e liderou acordo de R$ 3,2 milhões entre poder público e fazendeiros. No fim das contas, o valor foi reduzido a um quinto do original. Do montante, 56% serão bancados por governo estadual e prefeituras. Ou seja, do bolso do contribuinte.

Rio Formoso corre por 120 km dentro do município de Bonito até desaguar no Rio Miranda. (Foto: Paulo Francis)
Rio Formoso corre por 120 km dentro do município de Bonito até desaguar no Rio Miranda. (Foto: Paulo Francis)

No “quintal de casa”, onde corre o Formoso, o artista plástico Altivo Barbosa de Souza Junior, 54 anos, recebeu três multas que somaram R$ 15 mil: construção de três deques, presença de turistas e captação de água. Já para a sua maior tristeza, as duas cachoeiras que desapareceram desde a cheia de 2018, nunca teve atenção dos “olhos” públicos.

“A enchente de 2018 fez um grande problema no Formoso. Arrastou tudo e fiquei com duas cachoeiras ‘quebradas’. A água tampava as pedras. Perdemos um metro e meio de água. Tentei ajuda, mas só falaram que é a natureza. Ninguém recuperou. E a cachoeira é um filtro do rio. Aqui tem o ‘douradão’, tem muito peixe. A gente preserva, cuida. Em vez de irem atrás dos lavoureiros”, reclama Junior.

Ser vizinho da natureza, também exige aprendizados. Como a conscientização de que não se pode alimentar os peixes nem macacos. Ou que não se pode tocar nas sucuris, que circulam majestosas pelo curso de água.

O módulo mínimo de uma área rural em Mato Grosso do Sul é de quatro hectares. Contudo, nas áreas às margens dos "rios cristalinos" da região da Serra da Bodoquena, esse módulo é dividido por muitas pessoas. O Rio Formoso corre por 120 km dentro do município de Bonito até desaguar no Rio Miranda.

Comandante da PMA em Bonito, capitão Kelvin Valente. (Foto: Paulo Francis)
Comandante da PMA em Bonito, capitão Kelvin Valente. (Foto: Paulo Francis)

De acordo com o comandante da PMA (Polícia Militar Ambiental) em Bonito, capitão Kelvin Augusto Rodrigues Valente, a pesca no Formoso é perto de zero. “É uma dinâmica diferente de Corumbá, por exemplo, onde a pesca predatória é muito forte. Aqui é bem pouco. O que mais tem é poluição, o descarte irregular de resíduos”, diz.

A PMA também deu apoio à operação Carga Máxima, realizada no feriado do Carnaval. “Na alta temporada, a gente fica muito atento à capacidade de carga. A licença ambiental do balneário informa sobre a quantidade de pessoas por dia. Porque analisa todo o contexto do local. Até quantas pessoas podem passar por dia sem causar dano ambiental. E cada balneário tem a sua capacidade de carga”.

Expansão imobiliária irregular 

Portal do Loteamento Solar dos Lagos, em Bonito. (Foto: Paulo Francis)
Portal do Loteamento Solar dos Lagos, em Bonito. (Foto: Paulo Francis)

O MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) conseguiu barrar o avanço dos loteamentos Solar dos Lagos I e II, em Bonito, até regularização ambiental. O empreendimento é divulgado como lugar dos sonhos – cercado por “lagos cristalinos e cachoeiras deslumbrante”, já fez fama por ser o endereço de uma sucuri de seis metros, mas, conforme a promotoria, descumpre a exigência de ter rede de esgoto.

A prefeitura acatou a recomendação e se absteve de autorizar a supressão de árvores, guia para recolhimento de ITBI (Imposto sobre a Transmissão de Bens Imóveis) e, ainda, alvarás para a construção nos empreendimentos até que a empresa faça a regularização.

Em nota, a empresa Terras Empreendimentos Imobiliários Spe 04 Ltda, responsável pelo Solar dos Lagos 2, respondeu que "desconhece a existência de referida ação do Ministério Público, esclarece que o loteamento Solar dos Lagos II é absolutamente regular”.

Escultura de peixes na Praça de Bonito, principal cidade turística de MS. (Foto: Paulo Francis)
Escultura de peixes na Praça de Bonito, principal cidade turística de MS. (Foto: Paulo Francis)

Para monitorar o crescimento da cidade, a Prefeitura de Bonito, em parceria com o governo do Estado, contratou a Universidade Federal do Rio de Janeiro para estudos na área urbana e rural, incluindo a revisão do Plano Diretor.

“Então acreditamos que a partir dos estudos, interpretação e avaliação destes pesquisadores, aliado a manifestação da comunidade, por meio de audiências públicas sobre o tema, que ainda serão realizadas, ficará estabelecido para onde a cidade vai crescer. Acreditamos que nos próximos 18 meses teremos isso bem determinado e estabelecido por lei”, informa a administração municipal.  Localizado a 257 km de Campo Grande, Bonito tem 23.659 habitantes.

O coletivo pela Serra da Bodoquena

Plantação de milho às margns da MS-178. em Bonito. (Foto: Paulo Francis)
Plantação de milho às margns da MS-178. em Bonito. (Foto: Paulo Francis)

O coletivo “Unidos Serra da Bodoquena” aponta que os problemas na região são cumulativos, mas podem ser resumidos na intensificação das atividades antrópicas (humanas).

“O aumento do desmatamento é o fator que oferece o maior risco sobre a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos. Nos últimos anos, Bonito tem registrado cerca de 1.500 hectares de desmatamento por ano, que equivalem a cerca de 1500 campos de futebol de áreas de Mata Atlântica e Cerrado perdidos todos os anos. Essa taxa é muito preocupante, uma vez que mais de 60% da área do município já passou por desmatamento. E os remanescentes são fundamentais para a conservação de muitas espécies ameaçadas e para a manutenção de serviços ecossistêmicos essenciais, como a regulação do regime de chuvas e manutenção da integridade do solo”, informa o grupo por meio de nota.

Para o grupo, a questão dos ranchos de lazer às margens dos rios cênicos, como o Formoso, também precisa ser ordenada, principalmente em relação à abertura de acessos para as margens dos rios e ao sistema de tratamento sanitário.

“Apesar de implicar em um impacto de desmatamento menor do que as outras atividades, é preciso assegurar que estes ranchos não fragmentem as APPs [Área de Preservação Permanente] e que não despejem dejetos nos cursos d'água e nas águas subterrâneas”.

Turismo emprega, agro arrecada

Praça na área central com letreiro alusivo a Bonito. (Foto: Paulo Francis)
Praça na área central com letreiro alusivo a Bonito. (Foto: Paulo Francis)

Conforme a Prefeitura de Bonito, o agronegócio é o setor com maior arrecadação no município, enquanto o turismo é o maior empregador.

Sobre a conversão de pasto para lavoura, o Poder Executivo detalha que o município tem uma Câmara Técnica de Solo, que avalia todos os projetos que são realizados dentro de Bonito. “Ou seja, qualquer movimentação de terra, passa pela câmara técnica, desde a conversão de uma área ou a implantação de uma nova, mas quem licencia, avalia e monitora isso é o governo do Estado”, informa.

A reportagem questionou a prefeitura sobre o levantamento que apontou presença de agrotóxico, mas não há esse tipo de monitoramento pelo poder público.

Bonito ainda não possui uma metodologia ou uma rotina de monitoramento de agrotóxicos nos recursos hídricos do município como um todo. Como Bonito ainda não municipalizou o licenciamento, tudo que compreende a área rural é competência do Imasul, que tem o monitoramento nos atrativos e em alguns cursos d’água”.

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