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Meio Ambiente

Pesquisa torna mais eficiente a conservação genética da onça-pintada

Novo protocolo amplia acesso a biobancos e preserva células com a mesma eficiência do método tradicional

Por Inara Silva | 03/08/2026 07:18


Pesquisa torna mais eficiente a conservação genética da onça-pintada
Pesquisadores coletam material genético de onça-pintada (Foto: André Bittar)

RESUMO

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Pesquisadores da UFMS desenvolveram um método simplificado de congelamento de células da onça-pintada, visando facilitar a conservação genética da espécie. A técnica utiliza nitrogênio líquido e dispensa equipamentos complexos, mantendo a viabilidade do material para futuras pesquisas e reprodução assistida. O avanço permite que mais instituições adotem biobancos, protegendo o patrimônio biológico contra a extinção e servindo de modelo para a preservação de outros animais silvestres.

Guardar o patrimônio genético de uma espécie ameaçada pode ser decisivo para evitar sua extinção. É justamente esse o papel dos biobancos, estruturas que armazenam células e outros materiais biológicos por décadas para uso futuro em pesquisas e no desenvolvimento de biotecnologias voltadas à conservação da espécie, como técnicas de reprodução assistida e, potencialmente, a clonagem. Esse avanço poderá contribuir para a conservação de outras espécies ameaçadas.

Um estudo inédito com participação de pesquisadores da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) tem contribuído para ampliar essa estratégia. Publicada na revista científica Animal Reproduction, a pesquisa demonstrou que é possível conservar células da onça-pintada por um método de congelamento mais simples, que dispensa equipamentos específicos utilizados na técnica convencional, ocupa menos espaço e mantém a mesma qualidade do material armazenado.

Segundo a pesquisadora Thyara de Deco-Souza, uma das autoras do estudo e integrante do Reprocon (Grupo de Pesquisa de Reprodução para a Conservação) da UFMS, o trabalho amplia as possibilidades de conservação genética da espécie. Ela afirma que os fibroblastos armazenados em biobancos representam uma das estratégias de conservação genética de espécies ameaçadas, como a onça-pintada. "Ao disponibilizarmos mais um protocolo viável de criopreservação dessas células, ampliamos a possibilidade de que mais instituições adotem essa estratégia de armazenamento", explica.

Esses fibroblastos funcionam como uma espécie de "reserva genética". Mantidos em nitrogênio líquido, eles têm o metabolismo praticamente interrompido e podem permanecer preservados por décadas. No futuro, poderão servir de base para pesquisas e para o desenvolvimento de diferentes biotecnologias voltadas à conservação da biodiversidade, incluindo técnicas de reprodução assistida e, potencialmente, a clonagem.

A pesquisadora destaca que essas células permanecem armazenadas em nitrogênio líquido, ambiente que praticamente interrompe seu metabolismo. "Em tese, esse material pode permanecer preservado por 50, 60 anos ou até mais, mantendo seu potencial para aplicações futuras, inclusive em pesquisas e técnicas como a clonagem."

Pesquisa torna mais eficiente a conservação genética da onça-pintada
Pesquisador faz armazenamento de material (Foto: André Bittar)

Como a pesquisa foi realizada - O estudo utilizou amostras de tecido da orelha de cinco onças-pintadas mantidas no Instituto Onça-pintada, em Mineiros (GO). A partir dessas amostras, os pesquisadores cultivaram células em laboratório e, na terceira etapa de crescimento, dividiram o material em dois grupos para comparar os métodos de congelamento.

Conforme a publicação, no primeiro grupo, as células foram congeladas lentamente em criotubos, com redução gradual da temperatura até o armazenamento em nitrogênio líquido. No segundo, foram acondicionadas em palhetas de 0,25 mililitro e submetidas ao congelamento rápido em vapor de nitrogênio antes de serem armazenadas no mesmo ambiente criogênico. Após o descongelamento, os cientistas avaliaram a integridade e a sobrevivência das células utilizando três técnicas laboratoriais, entre elas microscopia e citometria de fluxo.

Segundo Thyara, a comparação foi realizada pensando na realidade de diferentes laboratórios que mantêm bancos genéticos. "Nós comparamos duas formas de criopreservação considerando estruturas diferentes de biobancos. Dependendo da realidade de cada laboratório, ele pode optar pelo método que melhor se adapta à sua infraestrutura para manter o material em nitrogênio líquido", afirma.

A pesquisadora explica que a técnica convencional exige um equipamento específico, conhecido como Mr. Frost, além de um ultrafreezer capaz de manter temperatura de -80ºC, estrutura que nem todas as instituições possuem. Já o protocolo desenvolvido pelos pesquisadores utiliza apenas o nitrogênio líquido durante o processo de criopreservação.

"O nitrogênio líquido é indispensável para qualquer biobanco, porque é nele que as amostras ficam armazenadas a longo prazo. Com isso, eliminamos a necessidade de equipamentos adicionais para realizar o congelamento, o que pode facilitar a implantação dessa técnica em mais instituições", afirma.

Além de apresentarem viabilidade semelhante, as células congeladas pelos dois métodos recuperaram sua morfologia típica após novo cultivo em laboratório, indicando que permaneceram aptas à multiplicação.

Pesquisa torna mais eficiente a conservação genética da onça-pintada
Pesquisadores retirando material genético da onça vítima de atropelamento (Foto: Divulgação/Reprocon)

Conservação da espécie - A pesquisa ganha importância porque a onça-pintada enfrenta redução populacional provocada pela caça, pela fragmentação do habitat e pelos atropelamentos, fatores que reduzem a diversidade genética da espécie. Nesse cenário, os bancos genéticos tornam-se ferramentas estratégicas para preservar esse patrimônio biológico e ampliar as possibilidades de conservação.

Na conclusão do artigo, os pesquisadores afirmam que o congelamento rápido em palhetas representa uma alternativa eficiente ao método convencional e amplia significativamente a capacidade de armazenamento dos bancos genéticos. Segundo o artigo, essa estratégia poderá servir de base para futuras biotecnologias reprodutivas e também ser adaptada para a conservação de outros felinos e espécies silvestres ameaçadas.

Para Thyara, a publicação também amplia a circulação internacional do conhecimento produzido pela equipe. "Sempre que publicamos em revistas científicas internacionais, aumentamos consideravelmente a visibilidade do trabalho. O inglês é considerado a linguagem universal da ciência e publicar nesses periódicos aumenta a possibilidade de que outros pesquisadores encontrem e utilizem essas técnicas", afirma.

O estudo foi liderado por Sofia Regina Polizelle e reúne 12 pesquisadores. Desses, 11 são vinculados à UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), a maior parte integrante do Reprocon (Grupo de Pesquisa de Reprodução para a Conservação). Também participaram pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo ) e da Ufersa (Universidade Federal Rural do Semiárido). O artigo completo pode ser conferido no site da revista.

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