Projeto inicia nova etapa de 11 meses para validar créditos de biodiversidade
Monitoramento da onça-pintada e coleta de dados vão embasar ação pioneira no Parque Estadual do Rio Negro
Depois de apontar os créditos de biodiversidade como a alternativa com maior potencial para financiar a conservação do PEPRN (Parque Estadual do Pantanal do Rio Negro), o projeto-piloto desenvolvido na unidade de conservação entrou em uma nova etapa. Nos próximos 11 meses, pesquisadores irão monitorar a fauna, coletar dados ecológicos e aprofundar estudos que poderão servir de base para uma futura validação da iniciativa.
RESUMO
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Pesquisadores iniciam nova etapa de projeto-piloto no Parque Estadual do Pantanal do Rio Negro para viabilizar créditos de biodiversidade. Nos próximos 11 meses, equipes realizarão monitoramento de fauna, com foco na onça-pintada, e coleta de dados ecológicos. O estudo preliminar estimou potencial de geração de 41.595 créditos, com referência de US$ 24 por unidade, para financiar ações de conservação da unidade.
Conforme a bióloga e gestora de projetos da Wetlands International Brasil e da Mupan (Mulheres em Ação no Pantanal), Letícia Larcher, o objetivo é transformar o potencial identificado nos estudos de viabilidade realizados entre 2024 e 2025 em uma proposta robusta, baseada em evidências científicas e alinhada às melhores práticas internacionais.
Ela explica que a escolha pelos créditos de biodiversidade ocorreu após uma análise que avaliou diferentes mecanismos de financiamento ambiental para o parque. Segundo as instituições envolvidas, essa foi a alternativa que apresentou melhores perspectivas para as características da unidade de conservação neste momento.
“O parque protege uma área extensa e bem conservada, abriga espécies emblemáticas e possui relevância estratégica para a conservação do Pantanal”, afirma a bióloga.
Segundo ela, os créditos de biodiversidade se mostraram mais alinhados aos objetivos do parque porque buscam reconhecer e valorizar diretamente os resultados da conservação da natureza.
A pesquisadora ressalta que isso não significa que outras alternativas tenham sido descartadas. Mecanismos como o REDD+ (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal), por exemplo, continuam sendo reconhecidos como importantes instrumentos de financiamento ambiental, mas possuem objetivos distintos.
Os créditos de biodiversidade são um mecanismo financeiro criado para remunerar ações de conservação da natureza. Diferentemente dos créditos de carbono, que estão relacionados à redução das emissões de gases de efeito estufa, esses ativos buscam mensurar e valorizar resultados ligados à proteção de espécies, habitats e ecossistemas.
“A conclusão da análise é que, neste momento e para as características específicas do parque, os créditos de biodiversidade apresentaram maior potencial”, explica Letícia.
Segunda etapa - A nova fase está concentrada na implementação da metodologia escolhida e no aprofundamento das informações necessárias para estruturar o projeto.
Durante os próximos 11 meses, equipes técnicas realizarão campanhas de campo no parque, monitoramento da fauna, especialmente da onça-pintada, coleta e análise de dados ecológicos, além de reuniões técnicas e institucionais entre os parceiros envolvidos.
O trabalho servirá para subsidiar a elaboração dos documentos necessários para uma futura validação do projeto. Segundo Letícia, a eventual implementação e a geração de créditos de biodiversidade ainda dependerão dos resultados obtidos nessa etapa, além de fatores relacionados às políticas públicas e à evolução desse mercado.
“Agora começa a fase de implementação da metodologia e de aprofundamento das informações necessárias para estruturar o projeto”, afirma.
Onça-pintada - Um dos principais focos da nova etapa será o monitoramento da onça-pintada. A espécie foi escolhida por desempenhar o papel de espécie-guarda-chuva, conceito utilizado para animais cuja conservação beneficia uma ampla rede de espécies e habitats.
Além de ser o maior predador terrestre das Américas, a onça-pintada é considerada um dos principais símbolos da conservação da biodiversidade no Pantanal, que abriga uma das populações mais importantes da espécie em todo o mundo.
“Acompanhar a situação das populações de onça-pintada é uma forma eficiente de medir a saúde do ecossistema como um todo”, explica Letícia.
O monitoramento ajudará a consolidar indicadores de biodiversidade e a reunir evidências sobre os resultados de conservação alcançados dentro da unidade de conservação.
A análise de viabilidade elaborada para o parque estimou o potencial de geração de 41.595 créditos de biodiversidade no primeiro relatório de monitoramento. Segundo os responsáveis pelo projeto, os recursos eventualmente obtidos com a comercialização desses créditos poderão ser destinados ao financiamento de ações de conservação, monitoramento da fauna e fortalecimento da gestão da unidade.
Na análise preliminar, os pesquisadores trabalharam com uma referência de US$ 24 por crédito de biodiversidade. Os autores do estudo ressaltam, no entanto, que o mercado ainda está em consolidação e que os valores finais dependerão da evolução das metodologias e de eventuais processos de validação e comercialização.
Aprofundamento científico - Além de apoiar a estruturação dos créditos de biodiversidade, a nova fase deverá ampliar o conhecimento científico sobre o Parque Estadual do Pantanal do Rio Negro.
Conforme a Wetlands, embora já existam informações importantes sobre a área protegida, os pesquisadores pretendem aprofundar os levantamentos sobre fauna, habitats e outros indicadores ecológicos. A expectativa é que os dados obtidos também contribuam para fortalecer a gestão da unidade e apoiar futuras decisões relacionadas ao manejo e à conservação do parque.
Mercado em construção - Apesar de os créditos de carbono serem mais conhecidos do público, os créditos de biodiversidade ainda compõem um mercado relativamente recente.
Segundo a diretora executiva da Wetlands International Brasil e diretora técnico-científica da Mupan, Rafaela Nicola, o tema ganhou força internacional principalmente a partir de 2022, com o avanço das discussões globais sobre a perda de biodiversidade e a aprovação do novo Marco Global da Biodiversidade.
Atualmente, governos, organizações ambientais, empresas e instituições financeiras trabalham no desenvolvimento de metodologias e mecanismos capazes de garantir credibilidade, transparência e segurança para esse tipo de iniciativa.
Nesse contexto, o projeto desenvolvido no Parque Estadual do Pantanal do Rio Negro é tratado pelos envolvidos como uma experiência piloto que poderá contribuir para o avanço desse mercado no Brasil. Se os resultados forem positivos, a iniciativa poderá servir de referência para outros projetos semelhantes em Mato Grosso do Sul e em outras regiões do país.
“Mato Grosso do Sul possui outras áreas protegidas com alta relevância para a conservação da biodiversidade e características que podem ser compatíveis com esse tipo de iniciativa”, afirma Rafaela.
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