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Meio Ambiente

Sem análise completa, plantas dominam Rio Pardo há mais de 1 ano

Fenômeno começou em 2025, autoridades não esclarecem causa e moradores seguem afetados

Por Inara Silva | 04/05/2026 18:30
Sem análise completa, plantas dominam Rio Pardo há mais de 1 ano
Imagens mostram Rio Pardo antes e depois da proliferação das plantas (Foto: Victor Baziliche)

Mais de um ano após a proliferação das plantas aquáticas no Rio Pardo, as autoridades e moradores do município de Ribas do Rio Pardo ainda não sabem qual a origem do fenômeno que encobriu as águas do rio, dificultando a navegação, a pesca e o lazer na região, que fica a 97 km de Campo Grande. A área, conforme os relatos, começou a ser tomada pelas macrófitas em fevereiro de 2025 e deixou o rio com trechos semelhantes a um gramado.

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Mais de um ano após a proliferação de macrófitas no Rio Pardo, em Ribas do Rio Pardo, a 97 km de Campo Grande, moradores e autoridades ainda não identificaram a causa do fenômeno, que prejudica a navegação, a pesca e o lazer. Uma ação popular foi movida contra a Pantanal Energética e o Imasul, apontando omissão ambiental. Especialistas indicam eutrofização causada por excesso de nutrientes como possível origem do problema.

Na época, o proprietário de um imóvel no local, Maikon Roger Vargas de Araújo Calzolaio, entrou com ação popular contra a Pantanal Energética Ltda., responsável pela usina, e contra o Imasul (Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul). Desde então, segundo o advogado Marco Antônio Teixeira, do ponto de vista técnico, não houve atuação efetiva do poder público. Segundo ele, a responsabilidade principal não é da prefeitura, mas sim do órgão ambiental estadual, o Imasul, que deveria ter exigido medidas adequadas.

Conforme Teixeira, o processo ainda está em andamento, e ele aguarda a fase de manifestação após as contestações apresentadas pelos réus. Ele explica que, independentemente de quem causou a contaminação do lago, a empresa responsável pela usina, a Pantanal Energética, assumiu o compromisso de manter o local limpo, o que não teria sido cumprido. “Só depois de grande repercussão na imprensa e do ingresso da ação judicial é que começaram a tomar providências”, diz.

De acordo com o advogado, a abertura das comportas, que poderia ter sido feita meses antes, só ocorreu tardiamente, o que contribuiu para o agravamento do problema. Apesar de alguma melhora, ele afirma que as algas continuam se proliferando, inclusive em diferentes pontos do lago, e que a situação voltou a piorar com a interrupção da liberação de água.

Marco Antônio destaca que o problema tem impactado diretamente a população local, especialmente ribeirinhos e proprietários da região. “O lazer foi afetado. Ninguém consegue mais usar o lago para atividades como barco, lancha ou jet ski”, afirma.

Na ação, de acordo com Teixeira, são apontadas duas principais irregularidades: a falta de limpeza do lago por parte da empresa responsável e a omissão do Imasul no processo de licenciamento ambiental. Segundo ele, o órgão não teria previsto medidas de compensação para a reprodução dos peixes, já que a barragem impede a piracema.

O advogado explica que, embora não seja viável exigir estruturas como escadas para peixes em usinas antigas, existem alternativas, como programas de repovoamento com alevinos ou manejo direto das espécies, práticas que, segundo ele, não vêm sendo adotadas no local.

Ele afirma ainda que há indícios técnicos de poluição por excesso de nutrientes na água, com base em análises realizadas pelo próprio Imasul, que apontaram níveis elevados de fósforo. O órgão, inclusive, aplicou multa a uma empresa da região e empreendimentos rurais, embora eles não tenham sido incluídos na ação judicial.

Sem análise completa, plantas dominam Rio Pardo há mais de 1 ano
Rio Pardo coberto por plantas aquáticas em outubro de 2025. (Foto: Maikon Roger Vargas de Araújo Calzolaio)

Poder público - A Prefeitura de Ribas do Rio Pardo afirma ter adotado medidas imediatas após o surgimento de denúncias e a constatação, em campo, da proliferação excessiva de macrófitas no lago da Usina do Mimoso. De acordo com o diretor do Departamento de Meio Ambiente, Marcelo Ângelo da Maia Cunha, uma reunião foi realizada em 21 de julho de 2025 com o prefeito Roberson Moureira, o secretário de Desenvolvimento Econômico Luiz Eduardo e o diretor-presidente do Imasul, André Borges, para tratar do problema e solicitar apoio técnico do órgão ambiental estadual.

Segundo ele, durante o encontro, o Imasul orientou o município a requisitar as licenças ambientais de grandes empreendimentos instalados ao longo do curso do rio que deságua na barragem, considerados potenciais fontes de impacto. A prefeitura formalizou o pedido e recebeu posteriormente a documentação.

Falta de informação - Em seguida, o município também solicitou acesso às análises de qualidade da água que essas empresas são obrigadas a apresentar como parte do monitoramento ambiental. Conforme o diretor, esses dados ainda não foram encaminhados, e a administração segue cobrando o material para aprofundar a avaliação técnica.

Ainda conforme Cunha, o Imasul realizou uma vistoria técnica no local e, somente após essa inspeção, autorizou a empresa Elera, responsável pela usina, a abrir as comportas para o extravasamento das macrófitas rio abaixo, como medida para reduzir o acúmulo no lago.

O diretor ressaltou que a ação ocorreu com autorização do órgão ambiental competente e que a prefeitura tem atuado de forma articulada, técnica e transparente, com foco na preservação ambiental e na qualidade dos recursos hídricos do município.

Enquanto isso, moradores permanecem sem informação sobre o andamento do caso. O empresário Victor Baziliche afirma que, mesmo após a abertura das comportas da usina, o problema continua afetando diretamente a área. Segundo ele, a água apresenta mau cheiro e as plantas que descem pelo rio se acumulam nas margens. “Nossa área desvalorizou cerca de 80% por conta dessas plantas. Está horrível às margens da água no meu rancho”, relata.

Já o professor Leondeniz Guariero, também proprietário de imóvel no local, avalia que a situação pouco mudou. De acordo com ele, as plantas aquáticas continuam se deslocando conforme as condições do tempo e da vazão do rio. “A situação segue praticamente a mesma. As plantas sobem e descem o rio. Anteontem dava para andar de jet-ski, já ontem, o rio estava muito sujo. Está bem melhor do que antes, o rio está navegável, mas a poluição continua”, afirma. Ele ainda demonstra preocupação com o futuro do curso d’água: “O Rio Pardo jamais será o mesmo”.

Sem análise completa, plantas dominam Rio Pardo há mais de 1 ano
Rio Pardo coberto por plantas aquáticas (Foto: Reprodução de Vídeo)

Possíveis causas - Em entrevista recente ao Campo Grande News, a professora do Instituto de Biociências da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), Edna Scremin-Dias, apontou que o fenômeno indica eutrofização, causada pelo excesso de nutrientes na água, possivelmente oriundos de atividades agropecuárias, esgoto e redução do nível do rio. A presença da barragem também contribui ao alterar o fluxo e favorecer o acúmulo de sedimentos.

Conforme a pesquisadora, é essencial realizar análises químicas para verificar os níveis de nutrientes da água, inclusive daquela que é devolvida ao rio por empreendimentos como a Suzano, empresa de celulose. Somente com a identificação das causas, segundo a especialista, será possível adotar medidas eficazes de mitigação.

O Imasul e a Usina foram procurados pela reportagem e o espaço permanece aberto para manifestação.

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