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Política

A noite em que Che Guevara teria batido à porta de um salão em Campo Grande

Em livro de memórias, guerrilheiro paraguaio sentenciado no Brasil diz que trocou dólares para o argentino

Por Vasconcelo Quadros, de Brasília | 06/09/2026 10:50
A noite em que Che Guevara teria batido à porta de um salão em Campo Grande
Ernesto “Che” Guevara, médico e revolucionário argentino que se tornou uma das principais figuras da Revolução Cubana e um dos personagens mais emblemáticos dos movimentos revolucionários latino-americanos do século XX. (Foto: Divulgação)

A história de que Ernesto Che Guevara passou por Campo Grande circula há anos. O episódio mais conhecido associa o revolucionário argentino ao antigo Hotel Gaspar, mas acabou sendo visto mais próximo da lenda do que de um registro comprovado. Até onde avançou a pesquisa, não apareceu um documento oficial ou testemunho detalhado capaz de confirmar a passagem. Há, porém, outra história, menos conhecida.

RESUMO

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Luis Mariano Samudio Gonzales, exilado político paraguaio de 90 anos residente em Campo Grande, afirma ter encontrado Ernesto Che Guevara no Salão Joia, na Rua 14 de Julho, durante a rota clandestina do revolucionário para a Bolívia em 1966. O relato, registrado pela neta Laura Chudecki no livro Memória de uma vida, ganha credibilidade pelo contexto histórico documentado, incluindo um processo no Superior Tribunal Militar sobre guerrilheiros paraguaios em Bonito ligados a Cuba.

Está no livro de memórias de Luis Mariano Samudio Gonzales, exilado político paraguaio que, aos 90 anos completados no último 19 de agosto, vive em Campo Grande. Samudio participou de uma organização clandestina de resistência à ditadura de Alfredo Stroessner no Paraguai e foi preso e condenado pela Justiça Militar brasileira. O relato foi registrado pela neta, a jornalista Laura Samudio Chudecki, no livro Mandu’a Peteî Tekove Rehegua — “Memória de uma vida”.

“Final de expediente, já com as portas fechadas, Luis Samudio ouve alguém bater à porta do Salão Joia. Eram dois homens, um deles tinha um semblante familiar. Os estrangeiros precisavam fazer o câmbio de alguns dólares. Eram Ernesto Che Guevara, o Che e um jornalista argentino. Fiz o câmbio do dinheiro. Tinham notas de todos os lugares do mundo’.”

É uma história extraordinária, mas exige cautela. Laura acrescenta, porém, elementos sobre a origem e a elaboração dessa memória. Ela conta que o avô, que alternou militância na esquerda armada com a profissão de barbeiro, de funcionário a dono do Salão Joia, na Galeria São José, Rua 14 de Julho, Centro de Campo Grande, estava lúcido quando, decidido a resgatar seu passado guerrilheiro, registrou as lembranças em 2017, aos 81 anos. Nem a família conhecia direito sua trajetória.

Ela disse ao Campo Grande News que procurou preservar fielmente o que ele dizia. Antes de publicar, conferiu datas e períodos históricos para verificar se a narrativa se sustentava. Também o questionou diretamente sobre o encontro com Che. A resposta, segundo ela, depois de manifestar um certo desconforto com as dúvidas, foi categórica: “Tenho certeza”.

Laura descreve o avô como um homem de caráter firme, autêntico e politizado, que à época lia muito, acompanhava as notícias e não costumava falar nada sem conhecimento. Diz que as histórias contadas por ele eram consistentes e que, por isso, acredita que o relato corresponde ao que ele viveu.

Isso não transforma uma memória em prova independente. Mas qualifica sua origem: trata-se de uma lembrança atribuída diretamente a quem afirma ter participado do episódio, registrada pela neta, que diz ter acompanhado, questionado e preservado a narrativa.

Fugindo de Stroessner

Luis Samudio nasceu em Caraguatay, no Centro-Oeste do Paraguai, em 1936. Segundo suas memórias, ainda criança, com dez anos, foi preso durante a guerra civil de 1947 como isca para pressionar o pai, Emilio Samudio, opositor de Higinio Morínigo. Mais tarde, serviu ao Exército paraguaio, deixou a força, entrou na Juventude Liberal clandestina e foi preso em 1956.

Em janeiro de 1960, diante de nova ordem de prisão, fugiu para o Brasil. De Pedro Juan Caballero seguiu para Campo Grande, onde pretendia apenas fazer escala antes de continuar até a Bolívia. Ficou trabalhando como cabeleireiro e músico.

Em 1962, segundo o livro, participou de uma reunião clandestina com cerca de dez opositores paraguaios, onde seria criada em Campo Grande, com atuação no que era o Sul do Mato Grosso uno, a FULNA (Frente Unida de Libertação Nacional), movimento guerrilheiro vinculado ao Partido Comunista Paraguaio que lutou, a partir do exílio, contra a ditadura de Alfredo Stroessner. Luis Samudio foi escolhido presidente provisório e depois permanente da FULNA.

Segundo as memórias de Luis Samudio, Olegário Lopez, ex-piloto da Força Aérea Paraguaia conhecido como Lorenzo, foi a pessoa que teria passado a Che Guevara o endereço de Samudio em Campo Grande. Lorenzo, que, segundo o relato, ajudou a organizar e treinar os guerrilheiros paraguaios no que é hoje Mato Grosso do Sul, seguiu para Cuba e foi substituído pelo coronel Lourenço Abel Arrua, que comandava o acampamento de Ponte do Grego e acabou preso pelo Exército brasileiro. Condenado pela Justiça Militar a 7 anos de prisão, Arrua teve a pena posteriormente reduzida pelo STM (Superior Tribunal Militar) para 2 anos.

“Foi Lorenzo quem passou minha localização para Che Guevara. Em Campo Grande, ficaram hospedados no Hotel Gaspar”, escreve Laura na tradução do relato do avô.

A memória de Samudio se conecta, nesse ponto, ao itinerário atribuído a Che Guevara em sua viagem clandestina para a Bolívia. Os biógrafos do revolucionário argentino registram seu deslocamento de Cuba em novembro de 1966, já com passaporte falso, o rosto mudado por uma operação plástica, uma careca reluzente no topo da cabeça e com a identidade fictícia de Adolfo Mena Gonzáles, um “economista uruguaio” em viagens de negócios.

No relato de Samudio, a viagem teria começado no Uruguai, passado por Porto Alegre (RS), São Paulo (SP), Campo Grande e Corumbá. O livro, porém, não fornece data específica para o encontro. O episódio aparece imediatamente antes do relato sobre 1967, quando Laura registra a participação de Lorenzo na conferência OLAS (Organização Latino-Americana de Solidariedade), em Havana, e o itinerário de Che rumo à Bolívia.

Narrativa coerente

A conexão com a rota não elimina a dúvida sobre a passagem por Campo Grande. O advogado Lairson Palermo, coordenador do Comitê Memória, Verdade e Justiça de Mato Grosso do Sul, diz não ter recebido, pelo comitê, informação independente que confirme a hospedagem de Che no Hotel Gaspar. “Se chegasse, nós estaríamos afirmando”, disse.

Para Palermo, o relato da presença de Che em Campo Grande tem conexão com muitas histórias que já ouviu e com o contexto político da época. Ele credibilidade à narrativa e diz que sua convicção não se baseia apenas na palavra do exilado, mas nas evidências acumuladas em torno do contexto histórico. “Eu não sou assim: ‘Ah, não, ele está falando uma verdade’. Não é porque ele está falando, são os fatos que vêm até nós”, afirma.

Na avaliação de Palermo, os documentos mostram que existia um grupo guerrilheiro paraguaio ligado a Cuba no que era à época o Sul do Mato Grosso uno. É a partir desse contexto que ele vê a memória de Samudio como uma hipótese que merece ser confrontada com documentos e testemunhos.

A conexão com Cuba

Segundo as memórias de Samudio, Olegário Lopez, o Lorenzo da FULNA, entrou em conflito com a direção do PCP (Partido Comunista Paraguaio) ao defender uma “terceira via” socialista. O livro identifica Oscar Crier como primeiro secretário do PCP e o coronel Abel Arrua como segundo secretário. O relato dá conta de que a direção teria enviado Lorenzo a Cuba para treinamento de guerrilha, enquanto Arrua assumiria o treinamento no Brasil.

A memória de Samudio se conecta à vasta documentação independente. O STM (Superior Tribunal Militar) conserva a Apelação nº 35.552/1967, em dois volumes e 844 folhas, originada na Auditoria da 9ª Região Militar, em Campo Grande. O catálogo registra Samudio e o coronel do Exército paraguaio Abel Arruas entre os réus e descreve a localização, em 1965, de uma estrutura de guerrilha na região da Ponte do Grego, em Bonito, cuja base era uma chácara de outro paraguaio preso e também processado no STM, o comerciante Ricardo Apolinário Granda, dono do antigo restaurante Gato que Ri, em Campo Grande, e líder do movimento guerrilheiro. O processo registra ainda acusações de contatos por rádio com estações de Cuba e Moscou.

Palermo acrescenta uma dimensão nova à história em entrevista ao Campo Grande News. Coordenador do Comitê Memória, Verdade e Justiça de Mato Grosso do Sul, Palermo colaborou com o MPF (Ministério Público Federal) na identificação das vítimas e na reconstrução das violações da ditadura no Estado. O próprio inquérito registra sua participação nesse trabalho.

A partir daí, Palermo amplia a hipótese. Considera que aquele grupo pode ter integrado um processo revolucionário mais amplo, relacionado ao projeto de Che de levar a revolução ao Cone Sul. Para ele, o episódio tinha como finalidade enfrentar Stroessner, mas também fazia parte de uma articulação internacional. “Eles tinham plano para a América do Sul”, afirma, referindo-se à criação da OLAS para unificar e coordenar os movimentos guerrilheiros e revolucionários de esquerda na América Latina, com a presença, inclusive, de personagens que viriam a comandar a luta armada no Brasil.

O mais conhecido deles é Carlos Marighella, assassinado em São Paulo, em 1969, que foi expulso do PCB, criando, em seguida, a ALN (Ação Libertadora Nacional), justamente por ter participado da OLAS sem autorização do partido.

A interpretação de Palermo junta fios da história, dando sentido à hipótese da presença ou influência de Guevara no movimento em Mato Grosso do Sul. Ele estabelece uma ponte entre os paraguaios treinando na região da Ponte do Grego, em Bonito, os contatos em Cuba e o projeto revolucionário que Che pretendia levar ao Cone Sul.

A memória que o MPF tenta recuperar

A professora Carla Centeno, da UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul), conhece Samudio desde que era adolescente, mas se surpreendeu com as revelações sobre seu passado depois que leu o livro de Laura. Ela acredita, como outros pesquisadores, que o relato tem credibilidade e que a passagem de Guevara estaria também relacionada à ideia de expansão da revolução cubana.

“Alguns pesquisadores chegaram à conclusão de que, se não há provas sobre a hospedagem no Hotel Gaspar, tem de botar um ponto final nessa história. Mas isso não existe em história!”, disse Centeno. Ela afirma que o relato tem “muita credibilidade” em função do perfil de Samudio, do contexto da época e de muitas outras informações que vão se juntando pelas pesquisas de outros colegas.

O professor de história e educação Paulo Edyr, também da UEMS, diz que o ex-presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes), o campo-grandense Altino Dantas (falecido), que entrou para a luta armada pela ALN, contou num encontro com estudantes por ele intermediado que, quando seguia para a Bolívia, saindo de São Paulo, Che Guevara permaneceu dois dias em Campo Grande, um deles hospedado no Hotel Gaspar e outro na casa de um militante de esquerda cujo nome nunca foi revelado.

“Altino era uma pessoa séria e bem-humorada. Ele descreveu dois grupos, um andando na frente e outro na retaguarda, fazendo a escolta até Campo Grande. Disse que Che, já com fisionomia mudada e documentos falsos, fez o trajeto sozinho. Em Campo Grande pegou o trem para Corumbá e depois seguiu para Santa Cruz de La Sierra.”

Segundo lembrou Edyr, Altino foi um dos militantes que esteve em Cuba treinando guerrilha, onde conviveu com Che, e no trajeto até Campo Grande fez parte da escolta que garantiu a segurança do revolucionário argentino.

Samudio foi preso em 1965, no contexto da descoberta da estrutura guerrilheira. Segundo sua memória, um guerrilheiro treinado pela organização voltou ao Paraguai, se entregou e forneceu informações sobre oposicionistas instalados em Mato Grosso. Ele afirma ter sido condenado a três anos e permanecido 21 meses preso, seis deles em Cuiabá.

O inquérito do MPF reúne ainda Granda e Justo Alcides Cuellar, refugiado paraguaio interrogado pelas forças de segurança e pelo DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) e condenado pela Justiça Militar. O próprio MPF registra Samudio como vítima das perseguições políticas no Brasil, ao lado de suas filhas Maria de Lourdes e Yolanda.

A noite em que Che Guevara teria batido à porta de um salão em Campo Grande
Funcionários do Salão Joia, na Galeria São José, localizado na Rua 14 de Julho. Imagem está no livro livro Mandu’a Peteî Tekove Rehegua — “Memória de uma vida”. (Foto: Reprodução)

O alerta de Arrua e o Salão Joia

O despacho da procuradora Samara Dalloul determina que seja detalhada a relação de vítimas e familiares com o “Caso dos Paraguaios (Operação Condor)”. O documento também registra que o levantamento vem sendo feito com a ajuda do Comitê Memória, Verdade e Justiça, coordenado por Palermo.

Para Palermo, o direito à memória ultrapassa fronteiras. É nesse sentido que ele vê a possibilidade de o atual trabalho do MPF recuperar não apenas casos individuais, mas um conjunto mais amplo de histórias sobre paraguaios perseguidos, exilados e organizados politicamente no território que hoje corresponde a Mato Grosso do Sul. É uma história que também interessa à reparação da memória paraguaia, onde arquivos ainda inéditos, mas ainda em sigilo, podem esclarecer episódios que unem as ditaduras na Operação Condor.

Depois da prisão, Samudio voltou a Campo Grande. Conta que Lourenço Abel Arrua o aconselhou a permanecer na cidade, considerada estratégica, mas advertiu que continuaria sob vigilância.

Seu primeiro trabalho após a prisão foi no Salão Joia, na Galeria São José, na Rua 14 de Julho, do qual se tornaria dono. O livro relata que dois profissionais chegaram ao estabelecimento recomendados pelo mesmo oficial da Aeronáutica que era seu cliente. Samudio diz que posteriormente descobriu que eram espiões do Exército.

Ponto de partida

Há fatos que estão bem documentados nos arquivos militares e policiais do Brasil: a presença de paraguaios perseguidos, a estrutura guerrilheira localizada em Bonito, o processo da Justiça Militar, as acusações de contatos com Cuba e Moscou e a existência de lideranças paraguaias relacionadas à organização da resistência.

Palermo resume a mudança de perspectiva dizendo estar convencido, pelas evidências reunidas, de que o grupo paraguaio baseado em Mato Grosso do Sul fazia parte de um processo revolucionário relacionado a Che. Para ele, a memória de Samudio ganha uma dimensão diferente quando colocada nesse contexto.

O despacho da procuradora Samara Dalloul abre justamente a possibilidade de recuperar um conjunto de memórias sobre os paraguaios no que foi o Sul do Mato Grosso uno e confrontá-las com documentos, testemunhos e arquivos. O MPF já incluiu Samudio entre as vítimas e estabeleceu o “Caso dos Paraguaios (Operação Condor)” como um dos eixos de reconstrução histórica.

Nesse conjunto, o relato de Samudio registrado por Laura dá à história um ponto de partida com nome, lugar, circunstância e um testemunho na primeira pessoa. E coloca o território do que é hoje Mato Grosso do Sul num provável plano de expansão da revolução cubana.