ACOMPANHE-NOS     Campo Grande News no Facebook Campo Grande News no X Campo Grande News no Instagram Campo Grande News no TikTok Campo Grande News no Youtube
JANEIRO, QUINTA  15    CAMPO GRANDE 30º

Política

Fronteira de MS sem Sisfron expõe vazio federal no combate ao crime

Crise na segurança torna país corredor da cocaína que abastece Europa e Estados Unidos

Por Vasconcelo Quadros, de Brasília | 15/01/2026 10:50
Fronteira de MS sem Sisfron expõe vazio federal no combate ao crime
Equipe do Exército em manobra na fronteira (Foto: Divulgação)

“Na prática, ninguém sabe o que é o Sisfron. Só o Exército sabe.” A crítica vem de quem está há anos na linha de frente do combate ao crime na fronteira mais sensível do país. Para o tenente-coronel Wilmar Fernandes, diretor do DOF (Departamento de Operações de Fronteira), o problema não é a falta de discurso, mas a distância entre os grandes programas federais e a realidade da ponta. “Nunca recebemos imagem, mapa ou apoio operacional”, afirma, ao resumir a percepção de que a vigilância tecnológica anunciada em Brasília raramente se traduz em ferramenta concreta para quem atua no terreno.

RESUMO

Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!

O Brasil enfrenta desafios significativos no controle de suas fronteiras, especialmente em Mato Grosso do Sul, que se tornou um importante corredor do narcotráfico internacional. A situação é agravada pela falta de integração entre as forças de segurança e pela ineficácia do Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (Sisfron). O Departamento de Operações de Fronteira (DOF) opera com apenas 120 policiais para cobrir 1.600 quilômetros de fronteira com Paraguai e Bolívia. A recente apreensão de 10 toneladas de cocaína na Espanha, avaliada em R$ 900 milhões, evidencia que o Brasil se consolidou como hub logístico global do narcotráfico, expondo a fragilidade do controle fronteiriço nacional.

A maior apreensão de cocaína da história da Espanha em alto mar ajuda a dimensionar essa contradição. A operação, que interceptou no Atlântico um navio com quase 10 toneladas de droga escondidas em uma carga de sal, avaliada no atacado em cerca de R$ 900 milhões, montante equivalente ao orçamento anual de mais de 90% dos 5.571 municípios brasileiros, revelou que a cocaína havia entrado no Brasil e foi daqui embarcada para a Europa.

No fim de dezembro, a embarcação foi localizada no Ceará. O episódio expõe mais do que a sofisticação logística do tráfico internacional: evidencia que o Brasil deixou de ser apenas rota secundária e consolidou-se como hub logístico global do narcotráfico.

Mesmo quando o destino é europeu, repete-se o padrão: cocaína produzida na Bolívia, no Peru e na Colômbia cruza fronteiras frágeis, é “nacionalizada” por facções brasileiras em parceria com cartéis andinos e segue para o exterior por portos e rotas marítimas.

Corredor global

Para Wilmar Fernandes, o caso espanhol apenas confirma o que a rotina da fronteira já mostra. “O crime organizado se estabelece entre dois países (Paraguai e Bolívia) e usa o Mato Grosso do Sul como corredor para Europa e EUA.” A declaração explicita a versatilidade das facções e cartéis, capazes de operar simultaneamente em rotas que abastecem dois continentes pelo Atlântico.

A participação da Polícia Federal na cooperação internacional reacendeu o debate sobre a assimetria da política de segurança: o Brasil é forte na articulação externa, mas frágil no controle interno, sobretudo em fronteiras terrestres, áreas portuárias e corredores logísticos.

Muitas vezes, a estratégia internacional privilegia o flagrante no destino para desarticular redes maiores. O problema é quando isso deixa de ser exceção e vira regra, revelando a desigualdade estrutural entre inteligência e presença: coopera-se bem fora, mas não se consegue segurar dentro.

Fronteira de MS sem Sisfron expõe vazio federal no combate ao crime
Tenente-coronel Wilmar Fernandes, diretor do DOF (Departamento de Operações de Fronteira) (Foto: Divulgação)

Crime em trânsito

À frente do DOF, unidade criada em 1987 e especializada em operações na faixa de fronteira, Fernandes descreve um cenário de pressão permanente. O crime é dinâmico: alterna ciclos de contrabando de agrotóxicos, migra para o cigarro, depois para a colheita da maconha — hoje cada vez mais sofisticada, com produtos de maior valor agregado — e avança no uso de aeronaves e pistas clandestinas para transportar cocaína rumo a portos como Santos e Paranaguá. “É uma caça de gato e rato permanente”, resume.

O comandante confirma que PCC, Comando Vermelho e facções da Bahia, Santa Catarina e Rio de Janeiro atuam na faixa de fronteira, ao lado de clãs paraguaios e bolivianos que controlam parte da produção e da logística inicial da droga. Mas rejeita a ideia de “domínio territorial” no molde do que ocorre em comunidades do Rio de Janeiro. “Aqui não existe domínio de território como no Rio. Existe circulação, trânsito criminoso.”

A distinção ajuda a explicar o paradoxo de Mato Grosso do Sul: apesar de ser rota pesada do tráfico internacional, o Estado registra menos violência ostensiva que outras regiões. O crime que busca os lucros da cocaína evita confronto direto e aposta na invisibilidade.

Não por acaso, diferentemente de outros pontos do país, não há ataques a bancos, episódios de “novo cangaço” ou domínio armado de cidades na fronteira sul-mato-grossense. O cálculo das organizações é claro: manter o perfil baixo reduz o risco de chamar a atenção das forças de segurança e preserva a fluidez das rotas.

Integração na raça

A efetividade do combate esbarra em limitações objetivas. O DOF opera com 120 policiais para cobrir 1.600 quilômetros de fronteira com Paraguai e Bolívia. Para Fernandes, trata-se de um efetivo reduzido diante da dimensão do desafio — ainda assim, a unidade se tornou referência nacional em integração operacional.

Um caso recente ilustra: informações levantadas pelo DOF sobre uma grande carga de cocaína que sairia da Bolívia foram repassadas a forças de outros estados; a apreensão ocorreu em São Paulo, em meados do ano passado, com três toneladas de droga interceptadas em uma carreta.

Para o comandante, o episódio mostra como a cooperação flui quando não é travada por disputas institucionais. “A integração funciona quando não há vaidade.” E completa: “O DOF conversa com todo mundo — Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Exército, polícias de outros estados.”

É também por isso que a crítica ao Sisfron (Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras) ganha peso. Vendido como espinha dorsal tecnológica da vigilância, o programa permanece opaco para quem atua na ponta. “Se produz alguma coisa de interesse operacional para as polícias, nós não sabemos”, afirma Fernandes.

A avaliação coincide com queixas feitas pela Polícia Federal em audiências da CPI do Crime Organizado: investimento elevado, retorno prático incerto. Na fronteira real, a vigilância continua sendo feita com patrulhas, inteligência compartilhada e, cada vez mais, com tecnologia embarcada nas próprias viaturas estaduais.

O governo federal e seu “intocável” Ministério da Defesa fazem cara de paisagem para o desperdício de recursos públicos, caracterizado por investimentos em equipamentos que, segundo a CPI, estão se tornando obsoletos.

Fronteira de MS sem Sisfron expõe vazio federal no combate ao crime
Coronel da reserva Alírio Villasanti, ex-comandante da PM em Corumbá (Foto: Arquivo)

Estrutura frágil

A percepção de fragilidade estrutural é reforçada por quem já comandou a segurança pública em cidades estratégicas da faixa de fronteira. Para o coronel da reserva Alírio Villasanti, ex-comandante da PM em Corumbá e ex-integrante do DOF, a apreensão recorde na Espanha apenas confirma uma realidade conhecida em Mato Grosso do Sul.

Embora a PF não tenha divulgado detalhes, ele avalia que a probabilidade de a droga ter entrado pelo Estado é real. “É pela Bolívia. Não é só via terrestre: há aviões voando baixo, fora do radar”, afirma o especialista. Segundo ele, o entrave central não é a falta de diagnóstico, mas de condições de combate. “Não existe uma estrutura de enfrentamento. O que funciona, a gente não sabe, porque um não fala para o outro. Falta integração.”

Villasanti é direto ao apontar a insuficiência da presença federal. “A Polícia Federal tem gente valorosa, mas está desestruturada para dar conta dessa imensidão. Quem faz alguma coisa ali, de forma corajosa, é o DOF — mas ele é pequeno para a enormidade do problema.” Na avaliação do coronel, a lógica institucional empurra a PF para operações de maior visibilidade, como os crimes de colarinho branco, enquanto a fronteira segue dependendo de unidades estaduais com poucos recursos.

A crítica avança para o plano institucional. Para Villasanti, o Brasil permanece preso a um modelo atrasado de investigação criminal. “Quando você conversa com policial europeu, eles dizem: vocês são polícia pela metade. Aqui se separa quem previne de quem investiga".

Ele defende a adoção do ciclo completo de polícia e é especialmente duro com o modelo cartorial. “Não se pode deixar um policial militar seis ou sete horas numa delegacia para registrar ocorrência de menor potencial ofensivo. É desumano e antieconômico. Enquanto ele está lá, muita coisa acontece fora.” Para o coronel, essa engrenagem ajuda a explicar por que o país ficou para trás em investigação criminal justamente quando o crime organizado se sofisticou.

Na mesma linha, sustenta que nenhuma política séria de segurança pública funciona sem controle efetivo das fronteiras., que é por onde entra a droga e armas que geram a violência nas metrópoles. “Qualquer plano passa necessariamente por aquilo que entra no país.” Ele defende batalhões específicos de fronteira, maior participação permanente das Forças Armadas em apoio às polícias e o reconhecimento da faixa de fronteira como área estratégica de soberania.

O alerta se estende ao futuro: com a consolidação da Rota Bioceânica, que deve ampliar o fluxo logístico por Mato Grosso do Sul, Villasanti vê risco de expansão do narcotráfico se não houver planejamento. “Toda grande obra traz desenvolvimento, mas traz problema junto se o Estado não se antecipa.”

Vácuo de poder

As estatísticas ajudam a dimensionar o desafio. Boa parte da cocaína que circula no país entra pelas fronteiras com Paraguai e Bolívia, em áreas de grande produção agropecuária e baixa densidade populacional, o que facilita a logística criminosa. No último ano, a Polícia Federal apreendeu cerca de 70 toneladas de cocaína, e a Polícia Rodoviária Federal confiscou 42 toneladas — estimativas indicam que até 80% desse volume entrou pela fronteira de Mato Grosso do Sul.

Esse quadro ajuda a entender por que a fragilidade das fronteiras se combina hoje à ausência de uma política nacional consistente. O Estado responde com operações episódicas, sem doutrina permanente, sem orçamento estável e sem coordenação duradoura entre Polícia Federal, Forças Armadas e polícias estaduais.

Em Mato Grosso do Sul, isso aparece de forma quase didática: rotas conhecidas, pistas clandestinas recorrentes, tráfico aéreo e fluvial contínuo e presença estatal intermitente. O resultado é um vácuo de poder que favorece a expansão do crime organizado — e alimenta, no Congresso, uma agenda punitivista que cresce à sombra da ausência de estratégia do Executivo.

Esse vazio institucional se aprofundou com a instabilidade no comando político da área. A saída de Ricardo Lewandowski do Ministério da Justiça e Segurança Pública, após alegar falta de recursos e de condições para tocar a agenda, deixou em suspenso iniciativas centrais.

Na carta de demissão, o ministro citou “limitações políticas, conjunturais e orçamentárias”, revelando que o governo Lula 3 não conseguiu construir uma política nacional minimamente consistente para enfrentar os desafios da segurança. Pressionado por governadores da direita e pela bancada da bala no Congresso, o Planalto hesita em coordenar ou definir metas claras, abdicando da liderança federativa.

A escolha do promotor Wellington César Lima e Silva para substituir Lewandowski reforçou a percepção de transição defensiva. Advogado de confiança do presidente e com trajetória no Ministério Público, mas sem histórico na área de segurança pública, Lima e Silva assume uma pasta sob forte pressão, em um momento em que a criminalidade e o empoderamento das facções colocaram o tema no topo das preocupações da população e no centro da disputa eleitoral.

Segundo pesquisa recente da Ipsos, 45% dos brasileiros apontam crime e violência como o principal problema do país, à frente de corrupção e saúde — dado que traduz um mal-estar alimentado pela percepção de que o Estado perdeu capacidade de enfrentar tanto a criminalidade cotidiana quanto o crime organizado.

O novo ministro herda desafios imediatos: destravar na Câmara a PEC da Segurança e o PL Antifacção, projetos que ficaram pelo caminho com a saída de Lewandowski, e tentar dar coesão a uma política que hoje inexiste como estratégia de Estado.

Até aqui, o governo e os partidos de esquerda subestimaram o peso da violência na agenda pública, enquanto a direita capitalizou o medo legítimo da população com respostas baseadas quase exclusivamente no uso da força cuja base é confronto pelo confronto, que são fragmentados e simbólicos. Facções e cartéis, por sua vez, não aguardam PEC nem comissão especial: operam no vácuo e em ritmo próprio, muito mais rápido que o do Estado.

Nesse contexto, a apreensão recorde na Espanha não deve ser lida como um episódio isolado de sucesso policial internacional. Ela se insere em um padrão sistêmico: fronteiras frágeis, crime transnacional articulado, ausência de política nacional contínua e crise de liderança política na área de segurança. Mais do que expor a sofisticação do tráfico, o caso revela a dificuldade do Brasil em liderar uma estratégia consistente de enfrentamento ao crime organizado.

No meio desse cenário, a experiência concreta da fronteira desmonta discursos fáceis. Para Wilmar Fernandes, o problema não se resolve com slogans nem com sistemas opacos. Ele acha que dá, sim, para fazer um serviço melhor — com mais integração real, menos vaidade institucional e mais presença efetiva.

Não se trata de prometer o fim do crime, mas de elevar o custo de operar no Brasil, dificultar rotas, impor prejuízos e recuperar, pouco a pouco, a capacidade do Estado de exercer controle sobre seu território. A fronteira não é apenas um limite geográfico: tornou-se o espelho mais nítido das escolhas — e das omissões — da política de segurança no país.