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Política

“Não adianta mudar a sociedade sem mudar em casa”, diz Gerson Claro

Deputado fala sobre participação feminina, defende transformação cultural e reconhece avanços ainda lentos

Por José Cândido | 23/03/2026 06:05
“Não adianta mudar a sociedade sem mudar em casa”, diz Gerson Claro
Presidente da ALEMS, Gerson Claro fala sobre cenário político, eleições e desafios dos municípios em entrevista ao Campo Grande News.

Da sala de aula à presidência da Assembleia Legislativa, o caminho do deputado Gerson Claro foi construído mais com escuta do que com holofotes — e, segundo ele, com uma convicção que atravessa toda a trajetória: a educação como ponto de partida para transformar a política.

RESUMO

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O presidente da Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul, Gerson Claro, destaca a educação como pilar fundamental para transformações políticas. Com origem no interior do estado e background em docência, ele construiu sua carreira política gradualmente, enfrentando derrotas antes de alcançar o atual posto. Em sua gestão, Claro aponta desafios cruciais dos municípios, que recebem menos de 15% dos recursos públicos enquanto acumulam responsabilidades crescentes. Defensor de uma política construída com preparo e experiência, ele considera uma possível candidatura ao Senado, mas mantém como prioridade atual a reeleição para deputado estadual.

“Ela não muda o mundo sozinha, mas muda as pessoas que vão fazer as transformações”, resume.

A frase não vem como discurso pronto. Vem da própria história. Filho de uma família de professores, nascido em Itaporã, no interior de Mato Grosso do Sul, Gerson começou a vida pública muito antes de disputar eleição. Foi professor, militou em igreja, atuou em sindicato e construiu carreira no Direito — base que, segundo ele, abriu portas para entender o funcionamento do Estado.

Do interior ao centro do poder

A política entrou aos poucos. Primeiro, com debates locais em Sidrolândia — cidade que ele define como “escola política”. Ali, circulava entre diferentes grupos: produtores rurais, professores, assentamentos e comunidades indígenas.

A primeira eleição veio cedo — e com derrota. Mas, para ele, perder nunca foi o fim do caminho. “Na política, você não pode sair menor do que entrou”, diz.  A frase virou método. Depois de tentativas frustradas, suplência e articulações, veio a eleição em 2018 e, posteriormente, o comando da Assembleia.

Prefeituras pressionadas e pouco dinheiro na base

Hoje no centro do poder estadual, Gerson faz uma leitura direta sobre uma das principais tensões da política brasileira: o dinheiro não acompanha as responsabilidades.

Segundo ele, os municípios ficam com menos de 15% dos recursos, enquanto acumulam atribuições em áreas como saúde e educação.

O resultado é um movimento previsível: prefeitos cada vez mais dependentes de deputados, emendas e articulações políticas.

“A responsabilidade foi municipalizada, mas o dinheiro não”, resume, ao lembrar que, no passado, cidades chegaram a bancar estruturas que deveriam ser estaduais ou federais.

Ele aponta ainda que reformas recentes, como a tributária, podem aprofundar essa concentração — tirando autonomia local e fortalecendo decisões centralizadas.

Senado no radar, mas com cautela

Apesar de já ter sinalizado interesse pelo Senado, Gerson adota tom mais pragmático neste momento.

Diz que vê a Casa como espaço essencial para equilibrar os poderes e qualificar debates — especialmente em temas como atuação do STF e regras institucionais.

Mas, na prática, reconhece que o cenário político está praticamente fechado e que o caminho mais provável é a reeleição para deputado estadual.

“Há um tempo para cada etapa. Agora é momento de organização”, afirma.

Assembleia em ano eleitoral: menos ruído, mais entrega

À frente da ALEMS em um ano eleitoral, ele tenta equilibrar dois mundos: o embate político e a necessidade de manter projetos andando.

Defende que a crítica é legítima — desde que tenha conteúdo — e que a presidência da Casa não pode agir de forma partidária.

“É preciso garantir o direito de manifestação, inclusive das minorias, sem travar o que impacta a vida da população”, pontua.

Mudança começa dentro de casa

Ao falar sobre a participação das mulheres na política, Gerson adota um tom menos institucional e mais pessoal. Para ele, o avanço é real — ainda que lento — e não depende apenas de legislação.

“Não vai se mudar só na força da lei. Vai se mudar com participação e com o interesse da sociedade”, afirma.

Ele cita a própria família como exemplo de transformação cultural. Pai de dois filhos homens, diz que a mudança começa dentro de casa, na forma como se constrói o respeito e a consciência sobre igualdade.

“Se eu não colocar isso na cabeça deles, não vou mudar a sociedade antes de mudar em casa”, resume.

Para o deputado, esse movimento é gradual — “vai se espalhando” — e depende tanto de educação quanto de convivência.

Política como construção — não como espetáculo

Ao longo da conversa, Gerson evita frases de efeito e aposta em uma linha mais técnica e reflexiva. Critica debates superficiais e defende mais preparo no Congresso.

No fundo, a ideia que permeia toda a entrevista é a mesma do início: política não se improvisa. "Ela se constrói — com tempo, experiência e, principalmente, entendimento da realidade", diz.