Reinaldo e a engenharia de um projeto para permanecer no poder
Reinaldo reúne nove partidos e mira hegemonia política de até 24 anos em MS

Reinaldo Azambuja já é o político que permaneceu por mais tempo no centro do poder em Mato Grosso do Sul desde a redemocratização. Em 2022, alcançou um feito inédito: elegeu o próprio sucessor e preservou a unidade do grupo político depois de deixar o comando do Estado. Aos 63 anos, porém, trata a eleição de 2026 como mais uma etapa de um projeto construído ao longo de três décadas, iniciado quando recebeu o batismo de fogo na política ao se eleger prefeito de Maracaju. Sua filiação ao PL, após o colapso nacional do PSDB, foi uma guinada para a direita, em um movimento articulado silenciosamente nos bastidores.
RESUMO
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Reinaldo Azambuja, aos 63 anos, é o político que mais tempo permaneceu no centro do poder em Mato Grosso do Sul desde a redemocratização. Com projeto de 24 anos no poder, ele articula a reeleição de Eduardo Riedel em 2026, duas vagas no Senado e ampliação de bancadas. Sua força está na confiança, no municipalismo e na capacidade de aglutinar desde o centro até a extrema direita sob um mesmo projeto político.
No último fim de semana, com cálculos lastreados em pesquisas e sob sua condução, todo o espectro que vai do centro à extrema direita no Estado passou a gravitar em torno de um mesmo objetivo: garantir a reeleição de Eduardo Riedel, conquistar as duas vagas do Senado e ampliar as bancadas, prolongando, com mais musculatura, a hegemonia política iniciada em 2014. O horizonte de Reinaldo Azambuja são mais 12 anos no poder, um desafio e tanto que já provoca urticária até dentro do próprio grupo que comanda.
Mas a prancheta do agropecuarista de Maracaju tem números fartos sobre futurologia: se o projeto for vitorioso, o grupo garantirá 16 anos no governo; seu líder, com mandato de oito anos, passará quatro no Senado e voltará à disputa em 2030, com chances de ampliar para 24 anos a permanência no poder. As portas para a alternância permaneceriam trancadas e o modelo único se estenderia por um período que hoje representa simplesmente a metade da história de Mato Grosso do Sul como ente federativo.
Seria um feito raro que, na visão da oposição, mesmo conquistado pelo voto e dentro das regras democráticas, dificilmente se consolidaria sem esbarrar no totalitarismo. Em entrevista ao Campo Grande News, Reinaldo Azambuja relativizou os riscos nocivos na hegemonia. "O que sustenta qualquer grupo político são os resultados. Nenhum projeto permanece por muito tempo sem entregar melhorias para a população."
Sem sucessor
Reinaldo deixou de ser apenas um ex-governador bem avaliado para se tornar o principal centro de gravidade da política sul-mato-grossense. Na engenharia desenhada para 2026, ele coordena a coalizão; Riedel administra o governo; a senadora Tereza Cristina amplia a articulação nacional junto ao agronegócio e ao Congresso; e o restante do bloco, com caciques do porte de André Puccinelli, orbita em torno desse núcleo. A estratégia procura impedir o surgimento de uma oposição competitiva fora e dentro do próprio campo conservador.
Para o cientista político Paulo Catanante Júnior, essa configuração ajuda a explicar um fenômeno pouco comum na política brasileira: Reinaldo conseguiu emplacar um sucessor sem perder o protagonismo do grupo. Na avaliação do pesquisador, o então governador percebeu que Eduardo Riedel reunia o perfil de gestor, e não de líder político tradicional. "Ele sabia que o Riedel era um cara em quem podia confiar", afirma. "Imagina se ele pega um político tradicional e coloca como sucessor. Esse cara criaria asas." A estratégia funcionou. Pelo menos até agora, não surgiu quem encare uma disputa no campo conservador.
Catanante lembra que, ao longo de pouco mais de uma década, Reinaldo construiu uma coalizão ampla o suficiente para vencer eleições e governar, mas sem estimular o surgimento de uma liderança estadual capaz de disputar seu protagonismo. Na leitura do pesquisador, Puccinelli pertence a outro ciclo político; a senadora Tereza Cristina (PP) atua como parceira estratégica, e não como adversária; enquanto Riedel governa o Estado sem exercer a liderança política da coalizão.
Confiança como método
Quando Eduardo Riedel assumiu o governo, a divisão de tarefas foi deliberada, como afirma o próprio Reinaldo. "Combinamos que eu ficaria mais dedicado à articulação política. Foi exatamente isso que fizemos", disse Azambuja ao Campo Grande News. Enquanto o sucessor conduziria a administração estadual, ele se dedicaria à organização da coalizão, ao fortalecimento dos partidos e à construção da aliança para 2026, uma mega coligação com força para esmagar o que não sirva ao projeto.
Nos bastidores, aliados descrevem Reinaldo como um líder moderno dentro do perfil ruralista e conservador de Mato Grosso do Sul, que pesa a mão quando se trata de comandar, mas também atua como um organizador de consensos. Um interlocutor que acompanha sua trajetória há mais de duas décadas resume sua principal característica em uma frase: "Ele consegue aglutinar toda a classe política em volta dele". Outro sintetiza seu método: "Ele é do jeito, da conversa". O próprio Azambuja se define dessa forma. "Sempre fui uma pessoa do diálogo. Nunca fui adepto de radicalismos. A política precisa ser feita com inteligência, diálogo e construção de consensos", afirma.
Na avaliação de Catanante, essa habilidade explica por que Reinaldo consolidou uma reputação de articulador de bastidores. O cientista político o descreve como um líder pragmático, especializado na construção de alianças e na montagem de chapas eleitorais. "Ele nunca entra sem saber onde está pisando", resume.
Essa capacidade de agregação ajuda a explicar como conseguiu reunir, sob o mesmo guarda-chuva, interesses tão diversos quanto o agronegócio exportador, prefeitos do interior, lideranças evangélicas, setores empresariais, bancada federal e parte expressiva da Assembleia Legislativa.
Essa forma de construir poder está diretamente ligada ao estilo que moldou sua carreira. Ao contrário de lideranças marcadas pelo confronto permanente, Reinaldo cultivou a reputação de político acessível, moderado e cumpridor de acordos. "Cumpre a palavra" é uma definição recorrente entre pessoas próximas. Em um ambiente frequentemente marcado por rupturas e disputas personalistas, como se viu nas crises que abalaram a fundação do Estado, a confiança tornou-se um ativo político tão relevante quanto o controle de partidos ou de máquinas eleitorais.

O próprio Reinaldo atribui a construção da coalizão à confiança. Segundo ele, o processo ganhou força após as eleições de 2022, quando grupos políticos, inclusive da direita, estavam divididos. "O principal fator foi a confiança. Política se faz cumprindo acordos", afirma. Na avaliação do ex-governador, um governo bem avaliado acaba atraindo até antigos adversários para o mesmo projeto. Puccinelli é um deles. Zeca do PT, apesar do rompimento recente, também.
É da lavra de Reinaldo o engenho que triturou, com cargos gentilmente cedidos pelo parceiro Riedel, a resistência do PT e sacrificou um companheiro de grupo, o senador Nelsinho Trad (PSD), que desistiu de disputar a reeleição em pé de igualdade no primeiro pelotão, com o objetivo de garantir espaço no PL para o Capitão Contar, minando reações da extrema direita. Em troca, cedeu a primeira suplência, um cargo no Executivo estadual e, não menos importante, a possibilidade de Nelsinho, já resignado, ficar com metade do mandato a partir de 2030.
Do municipalismo à hegemonia
A comparação com André Puccinelli ajuda a dimensionar a diferença de estilos. Enquanto o ex-governador emedebista era visto por aliados como um "animal político", conhecido pela capacidade de impor sua vontade e controlar o jogo pelo enfrentamento, Reinaldo construiu influência pela acomodação. Se Puccinelli representava a política do fórceps, ele consolidou a política da incorporação.
Seu método consiste em atrair adversários para o projeto dominante, em vez de impor derrotas que deixem sequelas. Foi assim na expansão do PSDB estadual, na formação das bases legislativas de seus governos e, mais recentemente, na reorganização do PL. Um emedebista próximo aos dois avalia que um confronto entre eles, condicionado ao capital político com que Puccinelli sairá do pleito, é questão de tempo.
O principal ativo dessa construção foi o municipalismo. Desde os tempos de prefeito, Reinaldo investiu na formação de uma rede capilarizada de prefeitos, vereadores e lideranças locais que atravessou partidos e governos. O programa Governo Presente consolidou essa estratégia ao distribuir investimentos pelos 79 municípios. O resultado foi uma base territorial que sobreviveu à mudança de legenda, resistiu ao enfraquecimento do PSDB e continua funcionando como um dos pilares de sua influência.

