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Comportamento

Digitando 'mãe que perdeu filho', mulher encontrou força em grupos na internet

Por Paula Maciulevicius | 21/11/2015 07:24
Ao digitar 'mãe que perdeu filho', Débora encontrou força em grupos pela internet e descobriu que não estava nessa dor sozinha. (Foto: Silas Souza)
Ao digitar 'mãe que perdeu filho', Débora encontrou força em grupos pela internet e descobriu que não estava nessa dor sozinha. (Foto: Silas Souza)

Yasmin viveu 3 dias. João Pedro, 7 horas. Os dois são anjos na vida de quem se tornou mãe, mas não chegou a ser chamada assim pelos filhos. Ao digitar 'mãe que perdeu filho', Débora encontrou força em grupos pela internet e descobriu que não estava nessa dor sozinha. Do outro lado, poucos meses antes, Erika tinha voltado à estaca zero, de quem se viu mãe, mas não por muito tempo.

As duas fazem parte de um grupo de mulheres que passaram pela pior do mundo: de perder um filho. No "De volta à estaca zero", são 12 mães que viram seus pequenos chegarem ao mundo sem vida, ou morrerem logo depois de nascidos. Fundado em Mato Grosso do Sul, por Erika, mãe de Aquidauana, ele tomou proporção e inclui depoimentos de mulheres de todo País.

"Foi muito difícil para mim. Ela era muito esperada. Estava tudo pronto para a chegada dela, móveis, enxoval, já tinha sido o chá de bebê..." A narrativa é de Débora Barbosa de Lima, de 21 anos. Ela foi para a maternidade, antes de completar 8 meses, passou pelos médicos e teve de fazer um cesariana por conta do descolamento da placenta. Yasmin nasceu chorando alto e necessitando de uma vaga na UTI neo-natal. Foram três dias aguardando. Quando surgiu, ela não resistiu. Morreu por falta de estrutura, mesmo diante de todo empenho dos médicos.

Grupo de WhatsApp "De volta à estaca zero" reúne 12 mães.
Grupo de WhatsApp "De volta à estaca zero" reúne 12 mães.

O episódio foi há quatro meses. Em casa, ela sentou em frente à tela do computador e digitou a angústia de perder um filho. Se deparou com uma série de páginas e grupos de mães que compartilhavam da mesma tristeza. "Apareceram vários casos e mensagens de consolo. De mães que escreviam pela primeira vez e eu me senti consolada, por saber que não era a única", diz.

Ela enviou mensagens e pediu para participar dos grupos "Unidas por anjos", "Amada Helena" e "Mães de anjos". "Você se sente querida, elas falam para você contar a sua história quando se sentir preparada. É um espaço onde cada uma sabe a dor da outra", explica Débora.

Das amizades à distância veio o contato com Erika, que criou o grupo no WhatsApp. "É um recomeço, todos os dias é voltar à estaca zero".

Dentro do grupo os assuntos são variados, desde coisas da rotina, até os relatos da perda. Tem dias que dali saem lágrimas, em outros risadas de quem tem esperança. E a cada dia, um novo membro ingressa. "Quando elas escrevem, as mamães novas, eu começo a sentir e viver tudo o que passei. Hoje ainda sofro muito, mas é amenizado", relata.

Ela diz que gosta de falar do que aconteceu, mesmo quando na maioria das vezes, os outros preferem não tocar no assunto. O grupo oferece isso também: a liberdade de falar sem ser julgada.

Erika na gravidez, esperava João Pedro, que morreu horas depois do parto.
Erika na gravidez, esperava João Pedro, que morreu horas depois do parto.

"Me levantou muito, porque nunca tive nenhuma pessoa próxima de mim que tivesse passado por isso. Eu vi a emoção de ver minha filha chorar, em vida. E O que ela me ensinou? O amor verdade. Se tornou, para mim, um anjo da guarda. Minha maior riqueza", descreve Débora.

Erika veio de uma situação bem parecida, mas com menos tempo de vida. João Pedro nasceu antes do previsto também pelo descolamento da placenta, em Aquidauana. Por falta de vaga em Campo Grande, foi encaminhado para a UTI de Dourados. Morreu no caminho, quando percorria na ambulância uma distância de 5h.

Como grávida, ela já participava de grupos de futuras mamães. E diante do novo e triste capítulo, digitou "perda por descolamento de placenta". Achou um tópico de fórum e resolveu criar outro. A primeira mulher com quem ela falou foi Renata, de Juiz de Fora, Minas Gerais.

"A gente começou a conversar bastante, mas só no particular. O tempo foi passando e a gente viu que existiam muitas perdas gestacionais, mas não tinha um grupo para a gente falar sobre essa perda", conta a estudante de Enfermagem, Erika Martins Leite, de 26 anos.
Sendo da área da saúde, ela entendia que por não haver problemas como pré-eclampsia ou trombofilia, a surpresa era ainda mais trágica. "Não que o sofrimento de outras mães sejam menores, mas é muito abrupto, uma coisa de uma hora para outra", argumenta.

Sem saber com quem conversar, ela foi se unido a outras mães que carregavam a mesma dor pelo caminho. "Nada melhor do que você falar com pessoas que tiveram o mesmo problema que o seu. Ninguém sabe o que você está passando, apenas quem já sentiu", explica.

"De volta à estaca zero" foi posto como nome por conta do filme lançado ano passado, de um casal que tem a felicidade interrompida quando descobre que o bebê tão esperado está morto no útero. "Você volta à estaca zero. É mãe de um filho que não está vivo. E todas nós estamos em busca desse sonho, de ser mãe de um filho vivo".

Para participar do grupo de WhatsApp, Erika disponibiliza o perfil dela no Facebook para contato.

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