Amizade entre irmãos e talento de avó fundaram papelaria há 29 anos
Família herdou habilidade no artesanato e dedicação ao outro de descendentes italianos

Viajando até as praias de Santa Catarina com os cinco filhos, Jonia Maria e José Aldo Colpani passaram em frente a uma loja que reacendeu a vontade que tinham de abrir uma papelaria.
RESUMO
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Jonia Maria e José Aldo Colpani, casal gaúcho, mudaram-se para Campo Grande em 1989 e fundaram a Gráfica Colpani. Inspirados por uma loja durante uma viagem ao litoral, abriram a papelaria Fradelli em 1997, nome que reflete a fraternidade entre seus cinco filhos. A loja cresceu com o tempo, diversificando-se em cursos de artesanato e produtos adaptados para diferentes necessidades. Hoje, as filhas administram o negócio, mantendo viva a tradição familiar e o compromisso com a comunidade.
Os dois são gaúchos e se casaram em Erechim (RS). Anos mais tarde, planejaram investir e trabalhar em terras de Rondonópolis (MT), mas Jonia se apaixonou pela jovem capital sul-mato-grossense no meio do caminho.
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“Se ouvia muita conversa que em Mato Grosso do Sul tinham oportunidades. Passando por Campo Grande, vi o Parque dos Poderes e gostei bastante. Decidimos ficar”, conta a gaúcha, que hoje tem 70 anos.
A mudança foi feita em 1983. O casal comprou um terreno na Avenida Mato Grosso, que não tinha asfalto e nem a metade da extensão atual. Era próximo ao lugar que conquistou Jonia e atendia a um conselho de seu pai: “naquela época, ele dizia que é sempre bom abrir empresa perto da cúpula do poder de uma cidade”, lembra.
Primeiro, ergueram ali a Gráfica Colpani. José conhecia do negócio porque trabalhou em uma com o pai e os irmãos quando ainda morava no Rio Grande do Sul.
Da fratelli italiana à Fradelli fraternal
O desejo de ter uma papelaria veio depois e surgiu da afinidade com atividades manuais que Jonia herdou da mãe, a também gaúcha e filha de italianos Rachelle Pauletti. A decisão de abri-la veio só naquela viagem ao litoral. Ter uma empresa onde todos os filhos pudessem aprender a trabalhar foi o que concretizou o sonho.
A loja que inspirou o casal tinha a palavra Fratelli na fachada. Traduzida do italiano, ela significa irmãos e tem a mesma raiz latina que fraterno. O nome encaixava na proposta de que seus filhos trabalhassem juntos de forma afetuosa e herdassem o negócio futuramente.
Jonia escolheu adaptar a inspiração para facilitar a pronúncia, trocando a letra t por d. Ficou Fradelli. Foi assim que batizou a papelaria.
A nova loja foi aberta ao lado da gráfica. Lá, os irmãos aprendiam a mexer com as mercadorias e atender clientes nos horários em que não estavam na escola.
Com exceção do caçula Thomaz, que ainda era bebê, todos se envolveram desde o primeiro dia da Fradelli. As irmãs Aline, Camile, Rúbia e Débora eram crianças e adolescentes quando as portas abriram, em fevereiro de 1997.
As meninas se atrapalharam no início. “Teve uma vez que vendi seis bobinas para fax pelo preço de uma”, se diverte contando Débora, hoje com 42 anos.
Trabalho com as mãos e pelo outro
Mãe de Jonia, Rachelle também chegou a trabalhar na Fradelli e viveu até os 79 anos. Sabia muito de artesanato, era habilidosa no crochê, no tricô e tinha compromisso com caridade e trabalho social. Tudo veio da influência da família da Itália.

“Era uma senhora com sotaque italiano, muito bonita, que se virava para andar em Campo Grande, não dependia de ninguém. Pegava ônibus para dar aula gratuita de artesanato em escolas de bairros afastados e de crochê para gerar renda nas comunidades”, lembra a filha.
Após a partida de Rachelle, Julei Maria Pauletti manteve na família a essência da dedicação ao outro que a irmã também tinha.
“Ela é uma pessoa bem importante para nós. Está com 77 anos, é muito ativa, abre e fecha a papelaria. Deixa de viajar, de fazer as coisas dela para ficar aqui. Não consegue se ausentar, ela é assim. É uma forma de cuidar da loja, como se cuidasse da gente”, diz Débora.
“Das irmãs” e “das gatinhas”
Nos anos 1990, escolas, uma universidade e um shopping foram surgindo próximos à papelaria. O movimento começava a crescer, enquanto a papelaria era ampliada.
Como estavam em maior número na família, as quatro irmãs inspiraram nomes alternativos que a clientela dava ao comércio. “Papelaria das irmãs” e “papelaria das gatinhas”, pela beleza das quatro meninas.
Débora conta outra história daquela época. Ela chamou atenção de um rapaz chamado Sérgio que estudava Medicina Veterinária, era cliente da gráfica e também começou a comprar canetas na papelaria como desculpa para vê-la. “Ele passava na Avenida Mato Grosso e gritava o nome dela”, conta a irmã Aline. Os dois namoraram, casaram e tiveram filhos. Seguem juntos desde então.

Ser bastante conhecida na região era bom, mas gerou alguns incômodos. A família toda morava no andar de cima e frequentemente tinha o sossego interrompido por algum cliente fora de hora. Num domingo à noite, enquanto o gaúcho José fazia um churrasco, um político bateu na porta pedindo que lhe vendesse um livro de ata. Era comum. “De noite, de madrugada, final de semana. Só resolveu quando nos mudamos”, fala também Débora.
Pouco depois, Thomaz deixou Campo Grande para trabalhar e viver em São Paulo. As irmãs, mãe e pai continuaram se revezando para cuidar da papelaria.
Comportamento e oportunidades
A gráfica foi fechada e a papelaria deu mais certo. Não houve dificuldades para mantê-la aberta, exceto pela adaptação às mudanças tributárias que ocorreram nos 29 anos de empresa, afirma a fundadora.
Oportunidades ligadas a mudanças de comportamento, além de questões biológicas como alergias e deficiências como o autismo, têm ajudado o negócio a se diversificar e crescer. Hoje, são mais duas unidades fora a tradicional loja da Avenida Mato Grosso.
Rúbia percebe que anda forte entre os adultos a busca por desligamento do trabalho e o encontro com o artesanato como atividade terapêutica. Por isso, os cursos de artesanato e cerâmica que a Fradelli oferece recebem cada vez mais procura.
Camile dá aula em alguns desses cursos. Ela é pós-graduada em Artes Visuais e tem um talento para o trabalho com as mãos admirado pelas três irmãs. "Puxou a mãe e a vó", elas dizem.
Fora o público que busca relaxamento e desconexão, há crianças e adolescentes aproveitando o tempo longe das telas. “Eles saem daqui felizes com nossas oficinas, desenvolvem a coordenação motora, a criatividade. É um momento em que se esquece de tudo”, afirma.
A mercadoria continua recebendo atenção e investimento para atualização. Exemplos são os produtos da papelaria “fofa”, da moda, que atraem o público de todas as idades e os artigos adaptados aos estudantes canhotos, aos alérgicos e atípicos. “Este ano, teve uma mãe que veio com a lista escolar do filho autista e encontrou todo o material adaptado para ele. Ficou muito feliz, falou com a gente e agradeceu", relata Débora.
Enquanto isso, as ações sociais continuam com a doação de materiais de papelaria e artesanato para escolas públicas.
Futuro
José deixou a papelaria para descansar e curtir a aposentadoria. Jonia diz que está perto de fazer o mesmo e deixar o comando com as quatro filhas.
As sócias planejam continuar investindo na loja, especialmente nos cursos. Recentemente, decidiram abrir uma cafeteria na matriz para os participantes aproveitarem mais o tempo por lá.
Alguns dos netos de Jonia e José demonstram interesse em assumir a papelaria quando forem adultos. Aquele talento para artesanato e artes que vem da dona Rachelle parece ter escolhido uma neta. “Ela tem um super dom artístico. Faz artesanato muito bem, é bem parecida com a minha irmã Camile, que é madrinha dela. Gosta de lettering, faz cartão de scrapbook, amostras”, conta Débora, a mãe da menina.
O que as quatro irmãs desejam é que a loja continue sendo um espaço de segurança e fraternidade em família. “E que sejam apaixonados por papelaria como todas nós”, completam.
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