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Saúde e Bem-Estar

Com polilaminina em estudo, médicos falam da evolução em tratamento de lesões

Técnicas incluem materiais como a "banda de jazz" e outro comparado a um macaco hidráulico

Por Cassia Modena | 16/01/2026 08:15
Com polilaminina em estudo, médicos falam da evolução em tratamento de lesões
Médico neurocirurgião Diego Ramos aponta o dedo para o ponto vermelho representa a medula, estrutura protegida pela coluna (Foto: Marcos Maluf)

A medula espinhal é como se fosse um cabo principal que liga o cérebro ao restante do corpo, permitindo que eles se comuniquem. Se alguma parte dessa estrutura central for machucada ou rompida, circuitos podem ser desligados, causando perda total de movimentos nos casos mais sérios.

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A Anvisa liberou estudos de um medicamento pioneiro desenvolvido no Brasil, a polilaminina, que pode se tornar o único tratamento no mundo capaz de regenerar diretamente a medula espinhal após lesões traumáticas. O medicamento poderá ser utilizado em pacientes que sofreram lesão em até 72 horas, com possível aprovação para comercialização em dois a três anos. Atualmente, os tratamentos disponíveis limitam-se a cirurgias de estabilização e descompressão da coluna vertebral. Recentes avanços incluem próteses expansíveis e bandas de tensão com fibras naturais e titânio, tecnologias ainda não disponíveis no Sistema Único de Saúde. Em Campo Grande, um militar de 19 anos, tetraplégico após um tiro, aguarda autorização judicial para receber o novo medicamento.

Neste mês, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) liberou o início de estudos de um medicamento desenvolvido no Brasil que pode se tornar o único tratamento existente no mundo para regenerar diretamente a medula após lesões provocadas por acidentes, violências e outros impactos que atuam de fora para dentro. O nome é polilaminina, que vem da junção de poli (muitos, no idioma grego) + laminina, uma proteína encontrada nas células-tronco e em todo o corpo humano.

A possibilidade de aprovação para venda no prazo de dois a três anos dá esperança para médicos evitarem sequelas em pacientes que sofreram lesão em até 72 horas antes do uso ou até há mais tempo, dependendo do que os estudos mostrarem. Enquanto isso, eles absorvem outras tecnologias que já chegaram ao mercado.

“Macaco de carro” e “banda de jazz” - Neurocirurgião que é professor de residência médica e coordenador das cirurgias neurológicas de rotina na Santa Casa de Campo Grande, Diego Ramos explica que o que se pode fazer atualmente são cirurgias que estabilizam e descomprimem a coluna, estrutura que protege a medula, para impedir que a lesão piore e dar condições para que a parte ferida se recupere quando isso é possível.

Ele já tratou vários dos quadros mais comuns, que são os provocados por acidentes de trânsito, durante a prática de esportes e por arma de fogo, por exemplo.

Com polilaminina em estudo, médicos falam da evolução em tratamento de lesões
Diego Ramos faz cirurgias em pacientes que se encaixam no grupo que a polilaminina poderá ajudar, se aprovada (Foto: Marcos Maluf)

De acordo com o médico, as atualizações mais recentes no tratamento de lesão na coluna são novos materiais para operações que vão muito além dos clássicos parafusos. Ele destaca dois que começaram a ser vendidos na Capital há pouco tempo, inclusive, e não precisam mais ser encomendados em outros estados.

O primeiro é a prótese substituta de corpo vertebral expansível, que ele compara a um bob de cabelo no formato e a um macaco hidráulico de carros na função. “Entra pequenininho na coluna vertebral, aí você tem um mecanismo que o faz aumentar de tamanho lá dentro. Isso muda o jogo numa cirurgia cervical. É uma alta tecnologia”, fala.

O segundo é uma banda de tensão, a “jazz band”, que tem fibras naturais e um metal em sua composição, formando estruturas que parecem linhas de tear. “É tecido com titânio. A gente usa para reconstruir, para fazer ligações na coluna após uma lesão. Serve para estabilizar porque, se isso não for feito, pode haver lesões secundárias que vão agravar a situação”, continua.

Com polilaminina em estudo, médicos falam da evolução em tratamento de lesões
Pontos metálicos são jazz bands implantados na coluna (Imagem: Reprodução/Evolution Surgical)

As tecnologias que ele cita ainda não estão disponíveis no SUS (Sistema Único de Saúde).

Dos anos 90 para cá - Neurocirurgião que atua na rede privada e é especialista nos problemas na coluna causados por doenças degenerativas e tumores, Cláudio Sorrilha afirma que os maiores avanços na área ocorreram após a década de 1990.

Para ele, o maior salto foi a Medicina entender melhor como reconstruir a coluna. “Depois que compreendemos a biomecânica da coluna, veio a evolução dos insumos. No começo, a gente não tinha material capaz de deixá-la numa forma anatômica mais parecida com o natural. Agora, a gente consegue desde substituir um corpo vertebral com uma prótese específica, até fazer a reconstrução só com parafusos em partes da coluna que ainda estão íntegras”, descreve.

Com polilaminina em estudo, médicos falam da evolução em tratamento de lesões
Cláudio Sorrilha mostra no computador implantes feitos em adolescente de 17 anos (Foto: Henrique Kawaminami)

A evolução nos materiais também permitiu uma recuperação mais rápida. Se antes os pacientes ficavam meses acamados, correndo riscos como a infecção hospitalar, hoje eles podem ser liberados para começar a reabilitação no dia seguinte à cirurgia.

"A gente amarrava retângulos de aço com fios de aço na região da fratura e isso obrigava o paciente a ficar em repouso para o osso cicatrizar por dois a três meses. O grande diferencial com os novos materiais é que a gente opera o paciente hoje e amanhã ele já pode começar as sessões de fisioterapia e terapia ocupacional”, compara.

Diego Ramos acrescenta que outra prática abandonada está relacionada ao corticoide e à morte dos pacientes por causas não relacionadas ao problema em si. “No passado, se dava altíssimas doses para reduzir a inflamação na medula do paciente, só que esse medicamento ‘diminui’ o sistema imunológico, então se morria muito de pneumonia, por exemplo”, diz.

Com polilaminina em estudo, médicos falam da evolução em tratamento de lesões
Médico avalia que neurocirurgia passou por salto após a década de 90, mas nada comparado ao que promete o medicamento em estudo (Foto: Henrique Kawaminami)

Quanto à reabilitação, Cláudio Sorrilha afirma que os tratamentos mais adiantados no Brasil podem ser encontrados nos hospitais da Rede SARAH, em capitais como Brasília (DF) e Belo Horizonte (MG), mas ainda não incluem tecnologias como o exoesqueleto criado pelo neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, por exemplo.

Polilaminina - Os médicos são unânimes em afirmar que o medicamento em estudo, se realmente for eficaz, será um divisor de águas na neurocirurgia.

Cláudio destaca a expectativa na área em que ele mais atua, embora não seja o foco dos estudos. “Ainda não se sabe com certeza, mas pode ser que possamos usar a polilaminina no caso de lesões secundárias associadas à remoção de um tumor na região. Vamos descobrir se será possível ou não”, finaliza.

Com polilaminina em estudo, médicos falam da evolução em tratamento de lesões
Arte: Lennon Almeida

Paciente em Campo Grande - Ainda esta semana, um militar de 19 anos poderá receber uma dose do medicamento na Capital por ordem judicial. Ele ficou tetraplégico após ser atingido por um tiro há cerca de dois meses.

O agendamento da cirurgia depende do fim do prazo dado para a Anvisa se manifestar no processo. Caso isso não ocorra, o próprio juiz pode autorizar a operação. O procedimento será realizado no Hospital Militar de Campo Grande.

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