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Saúde e Bem-Estar

Culpa pelo descanso é sintoma de quem não consegue mais desligar

Pressão por produtividade, excesso de telas e comparação ajudam a explicar o avanço do adoecimento emocional

Por Clayton Neves | 25/01/2026 07:37
Culpa pelo descanso é sintoma de quem não consegue mais desligar
Isolamento e demora em buscar ajuda impactam na saúde. (Foto: Luciana Nassar/ALMS)

Dormir até mais tarde, desacelerar ou simplesmente não produzir pode parecer um erro  para muita gente. O sentimento de culpa pelo descanso tem se tornado cada vez mais comum e revela um cenário de exaustão emocional que atravessa diferentes gerações.

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O sentimento de culpa ao descansar tem se tornado cada vez mais comum, revelando um cenário de exaustão emocional que afeta diferentes gerações. Segundo especialistas, a busca pela produtividade constante, aliada ao excesso de cobranças profissionais e ao uso intensivo de redes sociais, tem contribuído para o aumento de casos de ansiedade, depressão e burnout. A situação se agravou após a pandemia da Covid-19, que trouxe impactos significativos para a saúde mental da população. No entanto, o período também contribuiu para quebrar tabus sobre o tema, tornando mais natural a busca por ajuda profissional e evidenciando a importância do autocuidado emocional.

Para a psicóloga e professora Avany Cardoso Leal, coordenadora do curso de Psicologia da Faculdade Insted, esse é um dos sinais mais claros de uma sociedade adoecida pelas cobranças constantes.

“As pessoas ficam sempre sobressaltadas, achando que toda mensagem que chega no celular, por exemplo, pode ser algo ruim. Sentem culpa quando dorme até mais tarde, como se estivesse fazendo algo errado, como se tivesse que estar sempre produtiva”, detalha.

Segundo a psicóloga, essa lógica da produtividade permanente tem contribuído para o aumento de quadros de ansiedade, depressão, estresse e esgotamento profissional. “Hoje, muita gente sai do ambiente profissional, mas o trabalho não sai dela. As cobranças continuam fora do horário de expediente, por mensagens, e-mails e notificações, o que dificulta o descanso mental verdadeiro”, explica.

Esse cansaço acumulado não fica restrito ao ambiente de trabalho. Se reflete também no aumento da intolerância e em reações extremas no cotidiano. Avany cita episódios recentes de violência como reflexo direto desse adoecimento emocional.

Culpa pelo descanso é sintoma de quem não consegue mais desligar
Agitação diária tem aumentado casos de depressão e ansiedade. (Foto: Henrique Kawaminami)

“Nós estamos cada vez mais intolerantes. A instabilidade financeira, a insegurança no trabalho e a necessidade de apresentar altas performances deixam as pessoas mais irritadas, cansadas e emocionalmente fragilizadas”, avalia.

Além das cobranças profissionais, o excesso de telas e a cultura da comparação constante  tem pesado diretamente na saúde mental, impulsionada pelas redes sociais. Para Avany, esse cenário mina a autoestima e aprofunda sentimentos de inadequação.

“Vivemos um contexto marcado pelas redes sociais, onde o outro parece sempre melhor por viajar, comprar e conquistar coisas. Essa comparação constante vai diminuindo a autoestima e aumentando a autocobrança”, afirma.

Esse processo, segundo a psicóloga, compromete a confiança em si mesmo e pode gerar insegurança, ansiedade e sintomas depressivos. “Quando a pessoa vai ficando descrente de si, começa a não acreditar mais no próprio potencial. Isso gera medo, sensação de instabilidade, cansaço emocional e estresse”, explica.

O impacto vai além do emocional e atinge diretamente o comportamento. O excesso de estímulos, a dificuldade de desconectar e a comparação contínua impedem o descanso mental e dificultam a construção de uma relação mais saudável consigo mesmo.

Culpa pelo descanso é sintoma de quem não consegue mais desligar
Avany Cardoso Leal é psicóloga especialista e professora de psicologia. (Foto: Arquivo Pessoal)

O que antes era associado à vida adulta tem surgido de forma precoce. Avany observa que quadros de ansiedade, estresse e burnout aparecem cada vez mais cedo, inclusive entre jovens. “Percebo esses transtornos em pessoas cada vez mais jovens e também noto que as últimas gerações têm mais dificuldade de lidar com pressão e cobrança”, relata.

Segundo ela, a combinação entre exigência por desempenho, medo do fracasso, instabilidade econômica e comparação constante cria um ambiente emocionalmente hostil. “Isso vai levando a um cansaço maior, que pode evoluir para quadros de ansiedade, depressão e burnout,” explica.

Para a psicóloga, a pandemia da Covid-19 foi um divisor de águas na forma como a sociedade passou a enxergar a saúde mental. “O adoecimento mental tomou outra proporção. Houve lutos que não foram elaborados e que ainda atravessam a saúde emocional de muitas pessoas”, afirma.

Culpa pelo descanso é sintoma de quem não consegue mais desligar
Centro de Atenção Psicossocial oferece ajuda na rede pública. (Foto: Arquivo)

Apesar das marcas deixadas pelo período, Avany destaca que houve avanços importantes. “Após a pandemia, falar sobre saúde mental se tornou mais comum. Muitas pessoas passaram a compreender que buscar psicoterapia não é sinal de fraqueza, mas de autocuidado”, observa.

A psicóloga reforça que atividades físicas, espiritualidade, meditação e terapias integrativas podem contribuir para o bem-estar, mas não substituem o acompanhamento especializado. “Identificou traços de ansiedade, depressão ou outro transtorno, o caminho é buscar ajuda profissional, e não se diagnosticar sozinho”, orienta.

Janeiro Branco: saúde mental como projeto de vida - Inserida nesse contexto, a campanha Janeiro Branco surge como um convite à reflexão e ao autocuidado. Criada em 2014, a iniciativa propõe que o início do ano seja encarado como uma “folha em branco”, onde cada pessoa pode redesenhar sua rotina e sua relação com a própria saúde mental.

Para Avany, a campanha reforça que cuidar da mente não é luxo nem modismo, mas uma necessidade permanente. “Buscar ajuda profissional, quando necessário, é um ato de responsabilidade consigo mesmo”, conclui.

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