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A covid-19 e o queijo suíço

Por Bruno Caramelli (*) | 04/07/2020 13:16

Nesta fase da pandemia da covid-19, sujeito não está aguentando o isolamento, a pressão para trazer dinheiro para casa, a insistência da empresa e dos patrões para que volte a trabalhar. Ele então decide que tem de dar um jeito para voltar a trabalhar. Resolve, para se sentir seguro, ir à farmácia fazer um teste e saber se está com o “corona”. Pode ser que a empresa o obrigue a fazê-lo. Ele vai e faz o tal teste. O resultado é autointerpretativo: como se pode ver na figura, há três letras, C, G e M e uma linha vermelha no C, que é o controle, a referência. Uma pequena gota de sangue, fruto de uma picada no dedo, feita com uma agulha fina, é inserida no local da letra S, de sample (amostra).

G significa IgG, a imunoglobulina relacionada à defesa imune. Para quem teve a doença, é neste local que aparece uma segunda linha vermelha. Finalmente, M é a IgM, outra imunoglobulina que costuma ser detectada ainda na fase ativa da infecção e é neste local que pode aparecer outra linha vermelha. O sujeito precisa ver se aparece uma linha vermelha ao lado do G, do M ou de ambos. Parece aquele teste de gravidez, também à venda nas farmácias.

A análise do teste de gravidez tem somente duas respostas: sim ou não e é feito por alguém que suspeita de gravidez, geralmente por causa de um atraso menstrual. Em outras palavras, o teste é feito em pessoas com maior chance de ter o resultado positivo. Alia-se a este fato, estudos e experiências que demonstram a quantidade pequena de erros deste teste, ou seja, baixa ocorrência de falsos-positivos e de falsos- negativos.

O problema, no caso do teste da covid-19, é que ainda não há estudos e experiências com maior número de indivíduos, além do fato do teste oferecer número maior de possibilidades de resultados: IgG e IgM negativos, os dois positivos, um negativo e o outro positivo. Como interpretar e agir frente a tantas opções?

Voltando à nossa história, o sujeito fez o teste e tanto ele como o funcionário da farmácia acharam que havia uma linha, muito tênue, na altura do G de IgG. Enxergar linhas tênues certamente podem ser sentidas ou imaginadas, na medida que sofrem a influência de preocupações pré-teste e não de probabilidades pré-teste. Preocupações por uma doença que pode me impedir de retornar ao trabalho e que pode até matar. Para tentar facilitar, o teste traz uma bula que contém informações sobre como entender o resultado.
Com relação à linha vermelha em IgG estava escrito:

– IgG positivo significa infecção recente pelo coronavírus ou memória imunológica. A conduta deve ser conforme seu quadro clínico atual. É preciso entender o que há nas entrelinhas desta informação. E o que é recente? Ontem? Uma semana? Um mês?

O funcionário da farmácia sugere:

– Você tem de ir para o pronto-socorro, mesmo se não estiver sentindo nada. Aqui na bula diz que pode ser infecção recente.

O sujeito decide não dar ouvidos ao funcionário da farmácia e resolve ligar para um conhecido de um conhecido, de um outro conhecido, que é médico. Pelo telefone, o médico, sem examinar, sem conversar, fala:

– Não vá ao hospital! Você tem risco de pegar infecção. Como o teste é positivo, aproveite que está na farmácia, compre e tome o seguinte: um vermífugo, um remédio para malária, um anti-inflamatório e um antibiótico. E fique em casa.

Frente a esta recomendação, feita pelo médico, ele acha que é o mais sensato e obedece.

Aí eu me lembrei de uma outra história, segundo a qual, os aviadores explicam os desastres aéreos. É a teoria do queijo suíço, aquele cheio de buracos. Para os pilotos, o avião é muito seguro, mas a probabilidade de ocorrerem erros não é igual a zero. A tecnologia desenvolveu recursos para minimizar as consequências de cada erro. Assim, se o avião entrar num buraco do queijo, o avião não cai, pois o sistema avisa e corrige. O problema grave é quando acontece o alinhamento dos buracos do queijo. Nesta pequena, mas real probabilidade, os erros se sucedem, forma-se um grande buraco que atravessa o queijo e o avião cai.

A analogia com nossa história, baseada em fatos reais, como num bom filme visto durante a pandemia, é que os buracos representam os acontecimentos, os erros vinculados à realização do teste pelo sujeito e que estão descritos abaixo:

  • Fazer o teste com o propósito de voltar a trabalhar ou para dar segurança à empresa onde trabalha;
  • Fazer o teste sem orientação médica sobre como e onde executá-lo;
  • Interpretar o teste sem orientação médica;
  • Fazer uma orientação incorreta de ir ao pronto-socorro (na situação de uma epidemia com serviços sobrecarregados) quando não era o caso;
  • Receber orientação de médico que não ouviu a história, não viu o sujeito e não foi treinado para interpretação correta;
  • Fazer uso de medicações sem comprovação científica e que podem gerar efeitos adversos graves.

Voltando à nossa história, o que aconteceu? O sujeito pode ter tomado esses remédios e, passados alguns, dias, ter melhorado e finalmente curado. Sinceramente, não me importo muito com o fato do sujeito atribuir o mérito da cura aos remédios, apesar da ausência de comprovação científica. O que os estudos demonstram é que a cura acontece espontaneamente, na grande maioria das vezes, mas, afinal, o que interessa é o final feliz, ficar bem, não é mesmo? Sabemos que muitos desses remédios são usados há muito tempo, para outros problemas de saúde.

Em medicina, entretanto, existe, como no caso dos aviões, um momento no qual os buracos do queijo se alinham. O uso indevido de medicações sem comprovação científica para esta condição específica e com efeitos adversos conhecidos, na vigência de uma doença infecciosa grave como a covid-19, em pessoas mais velhas, muitas delas com problemas cardíacos, pode ser um destes momentos.

Não vale a pena arriscar, e é melhor seguir o conselho dos aviadores e evitar toda e qualquer situação em que possa ocorrer o alinhamento dos buracos do queijo suíço, mesmo que seja tão raro. Afinal, apesar de muito seguros, aviões podem cair.

(*)  Bruno Caramelli é professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e diretor da Unidade de Medicina Interdisciplinar em Cardiologia do Instituto do Coração.