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A falta que faz a gentileza

Por Cristiane Lang (*) | 19/05/2026 09:09


A gentileza tem se tornado uma espécie rara neste mundo que corre, que exige, que consome. Vivemos na era do imediato, do agora, do “pra ontem”, onde o tempo parece sempre escasso demais para caber o cuidado, a escuta, o olhar atento. As pessoas passam umas pelas outras como quem atravessa um corredor estreito, desviando, evitando contato, protegidas por telas, pressa e uma certa indiferença aprendida.

Ser gentil, hoje, quase soa como um atraso — como se fosse perda de tempo segurar uma porta, esperar alguém terminar de falar, responder com paciência uma pergunta simples. Como se a delicadeza fosse um luxo que não cabe na rotina acelerada. E, no entanto, é justamente o contrário: nunca foi tão necessária.

Porque é na ausência da gentileza que o mundo se torna áspero.

É no silêncio de um “bom dia” não dito que começa o distanciamento. É na resposta ríspida, no olhar que não se levanta, no julgamento rápido, que as relações vão se esvaziando de humanidade. A falta de gentileza não chega fazendo barulho — ela se instala devagar, nos pequenos gestos que deixamos de fazer.

Gentileza é coisa simples, quase invisível — mas profundamente transformadora.

É agradecer ao motorista do ônibus.

É olhar nos olhos de quem te atende.

É dizer “com licença” mesmo quando você está com pressa.

É responder uma mensagem com cuidado, mesmo que breve.

É não interromper alguém que precisa falar.

É oferecer ajuda sem que seja pedido.

É elogiar sem segundas intenções.

É ser paciente com quem não tem o mesmo ritmo que você.

É também saber silenciar quando a palavra pode ferir.

É escolher não devolver na mesma moeda.

É compreender que todo mundo carrega batalhas que não estão visíveis.

A gentileza não exige esforço grandioso — ela exige presença. E talvez seja isso que esteja faltando: presença real, atenção verdadeira, interesse pelo outro que não seja superficial ou utilitário.

Num mundo onde tudo é rápido, ser gentil é quase um ato de resistência.

É dizer, com atitudes, que ainda vale a pena cuidar do espaço que existe entre as pessoas. Que ainda acreditamos que o convívio pode ser leve, respeitoso, humano. Que não precisamos endurecer para sobreviver.

Porque, no fim, a gentileza não transforma apenas o outro — ela também transforma quem a pratica. Há algo de profundamente restaurador em agir com delicadeza num ambiente duro. É como acender uma pequena luz em meio à pressa: pode não iluminar tudo, mas muda completamente a forma como enxergamos o caminho.

E talvez a grande verdade seja essa:

o mundo não precisa de grandes gestos heroicos todos os dias — precisa de pequenas gentilezas constantes.

Um pouco mais de calma.

Um pouco mais de escuta.

Um pouco mais de cuidado.

Porque é nisso, justamente nisso, que a humanidade se sustenta.



 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.