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Cidades

Proximidade com a vítima facilita ação do autor e complica investigação

Homicidas usaram a convivência para circular sem levantar suspeitas e acompanhar trabalho policial

Por Clara Farias e Geniffer Valeriano | 04/07/2026 08:15
Proximidade com a vítima facilita ação do autor e complica investigação
Ari Xavier, conhecido na região como "Veinho" fechando a porteira após a funerária passar (Foto: Osmar Veiga)

Enquanto familiares e vizinhos procuram respostas para um desaparecimento ou uma morte violenta, não é incomum que o responsável pelo crime acompanhe os desdobramentos de perto. Casos registrados em Mato Grosso do Sul chamaram a atenção por um detalhe em comum: o principal suspeito era alguém que convivia com a vítima.

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Casos recentes em Mato Grosso do Sul revelam um padrão investigativo preocupante: suspeitos de homicídio que permanecem próximos às investigações. Em dois episódios, no Assentamento Conquista e em Naviraí, os principais suspeitos acompanharam buscas policiais antes de serem identificados. O delegado Carlos Delano alerta que vínculos entre autor e vítima são comuns e que a participação nas buscas não define suspeição, mas evidências materiais e testemunhais guiam as apurações.

No Assentamento Conquista, entre Campo Grande e Rochedo, o desaparecimento do caseiro Antônio Ormondes Pereira mobilizou moradores da região. Durante as buscas, um dos vizinhos permaneceu ao lado das equipes policiais, conversou com investigadores, ajudou na movimentação da propriedade e aparentava tranquilidade. Horas depois, acabou preso ao confessar participação na ocultação do corpo.

Em Naviraí, outro caso seguiu roteiro semelhante. Após a morte de Maria do Carmo de Souza, de 66 anos, o vizinho, Pedro Lopes Menezes acionou familiares, afirmou ter encontrado a vítima e chegou a prestar depoimento como testemunha.

No entanto, imagens de câmeras de segurança mostraram que ele entrou na casa com um facão e saiu pouco depois com a arma coberta de sangue. A Polícia Civil confirmou que ambos mantiveram um relacionamento por cerca de dois meses antes do crime.

Proximidade com a vítima facilita ação do autor e complica investigação
Pedro Lopes Menezes foi preso em flagrante por matar a ex-companheira em Naviraí (Foto: Reprodução/Rede Social)

Embora tenham motivações diferentes, os dois episódios expõem um aspecto recorrente em investigações de homicídio: o autor nem sempre foge. Em muitos casos, permanece no local, acompanha as buscas e tenta construir uma narrativa para afastar suspeitas.

De acordo com o delegado da DHPP (Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes de Homicídios e de Proteção à Pessoa), Carlos Delano o trabalho policial parte do princípio de que todas as hipóteses devem ser consideradas até que as provas indiquem o caminho da investigação.

"Quando uma investigação de homicídio começa, o princípio aplicado é que todo ser humano é um homicida em potencial. As provas vão compondo um mosaico que leva a conclusões que não podem ser desconsideradas apenas porque o suspeito tem alguma proximidade com a vítima", disse.

Apesar disso, ele explica que, quando existe algum vínculo entre autor e vítima é comum que essa pessoa permaneça próxima da investigação. “Nos casos em que atuei, quase sempre os infratores mostraram-se dispostos a ajudar de alguma forma. Fazendo buscas, indo à delegacia registrar boletim de desaparecimento. Não raro também publicam conteúdos nos perfis das vítimas para criar a impressão de que elas ainda estão vivas", detalhou.

Proximidade com a vítima facilita ação do autor e complica investigação
Carla Santana Magalhães foi morta pelo vizinho que se ofereceu para ajudar nas buscas (Foto: Reprodução/Redes Sociais)
Proximidade com a vítima facilita ação do autor e complica investigação
Casa onde o corpo da vítima permaneceu até ser deixado em calçada de mercado (Foto: Arquivo/ Campo Grande News)

Segundo o delegado, essa proximidade também costuma facilitar a execução do crime, visto que na maior parte das vezes, a proximidade é fator determinante para a execução do crime. "Na apuração isso também interfere. Muitas vezes há familiares que resistem à ideia de ter alguém querido e próximo como autor", explicou o delegado.

A polícia alerta que o fato de alguém participar ativamente das buscas ou demonstrar interesse no caso não a transforma automaticamente em suspeita. A avaliação técnica é baseada em um conjunto de evidências materiais e testemunhais, e não em atitudes isoladas.

“Não são todos que insistem em participar que são tomados por suspeitos. A avaliação é feita a partir de um conjunto de evidências e não de um comportamento isolado", enfatizou Delano.

Este padrão de comportamento também foi registrado em 2020, no assassinato de Carla Santana Magalhães, de 25 anos, em Campo Grande. Na ocasião, a vítima não mantinha relacionamento afetivo com o autor; a única ligação entre eles era a proximidade física, pois eram vizinhos de muro.

O criminoso também demonstrou aparente solidariedade logo após o crime. O caso foi enquadrado como feminicídio por menosprezo à condição de mulher.

Para o delegado, esses tipos de casos reforçam a ideia de que qualquer pessoa é um homicida em potencial. "Devemos estar alertas e prontos para estabelecer limites para deixar a convivência quando deixar de ser saudável. Isso é uma ótima medida de segurança", finalizou.

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