A preguiça de viver e as estações da alma
Existe uma preguiça que não se mede em horas de sono, mas em suspiros demorados. Uma fadiga que não está nos músculos, mas no coração. Chamamos, por falta de nome mais exato, de preguiça de viver. Ela não é desistência — é apenas o desejo de que, por um instante, a vida cuidasse de si mesma, que as contas se pagassem sozinhas, que as dores se curassem no silêncio da noite, que os problemas se dissolvessem como neve ao sol.
Essa preguiça chega em fases, como as estações da alma.
No inverno, ela pesa mais. É quando tudo parece árido, frio, estagnado. As forças minguam e o corpo pede recolhimento. Queremos dormir dias inteiros e acordar só quando o calendário já tiver virado, como se os meses mais duros pudessem ser saltados. Nesse tempo, não há ânimo para construir castelos, apenas a vontade de se esconder em cavernas.
Na primavera, a preguiça é diferente. É como quem olha para um jardim florescendo, mas não sente forças para plantar a própria semente. Os sonhos estão ali, coloridos, possíveis, mas parece exigir esforço demais regá-los. Desejamos que brotem sozinhos, que floresçam sem nossas mãos. A primavera cobra ação, e é justamente nessa cobrança que nasce a sensação de cansaço.
No verão, a vida pulsa com intensidade. Mas a preguiça de viver pode se vestir de excesso. Tudo é barulho, pressa, luz demais. Há um esgotamento que não vem da falta, mas da abundância. É quando, no meio da festa, alguém sente vontade de se retirar em silêncio, de ficar apenas consigo.
No outono, a preguiça se confunde com melancolia. É o tempo das folhas caindo, dos ciclos se fechando. O coração se ressente das perdas, e o desejo é de deixar que a vida simplesmente despenque sozinha, como as folhas que o vento leva. É o momento em que a alma pede descanso, um intervalo entre o fim e o recomeço.
Assim, vamos atravessando as estações internas: ora cheios de energia, ora mergulhados no peso da inércia. O que chamamos de preguiça de viver é, muitas vezes, apenas o corpo nos lembrando de que não somos máquinas, mas criaturas cíclicas. Precisamos de pausas, recolhimentos, silêncios.
Mas é preciso cuidado para não transformar essa preguiça em morada permanente. Porque, ainda que desejemos a mágica, nada se resolve sozinho. A vida pede o toque das nossas mãos, o risco das nossas escolhas, a coragem do nosso caminhar.
E talvez a mágica que tanto esperamos não esteja fora, mas dentro: no pequeno gesto que rompe a inércia, na decisão mínima que reacende o movimento. Abrir uma janela, escrever uma linha, regar uma planta, sorrir para alguém. São fagulhas que, somadas, despertam a chama.
A preguiça de viver, afinal, é apenas o inverno da alma pedindo passagem. Depois dela, sempre vem a primavera — e com ela, a possibilidade de florescer outra vez.
(*) Cristiane Lang, psicóloga clínica, especialista em Oncologia pelo Albert Eisntein, em São Paulo.
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