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Campo Grande, Domingo, 26 de Fevereiro de 2017

15/08/2011 09:25

Algemas, paranóia ou boi prá piranha?

Por Valfrido M. Chaves (*)

Sabe-se que nascemos “puro instinto” e necessidades, porém carentes quanto ao conhecimento e meios para satisfazermos nossas demandas vitais, inatas ou as adquiridas. Recebendo amor e cuidados, desenvolvemos amorosidade e capacidade de preservar ou modificar o ambiente que ora nos satisfaz, ora nos frustra.

Nessa realidade em que todos somos criaturas e “co-criadores”, muitas são as culturas e sub-culturas que dão significados absolutamente diversos a uma mesma ação humana. Assim, capturar um vizinho que teima em caçar nas vizinhanças de minha tribo e, depois, numa elevada cerimônia mágico-religiosa, matá-lo e comê-lo, seria um momento glorioso da cultura Tupinambá, o “paraíso terreal brasileiro”.

Hoje, entre nós, matar e comer seu semelhante revelaria o mais elevado estágio de psicose ou deterioração mental de um indivíduo. Ou seja, dissolução do que quer que possa ter existido de cultura humana naquela alma. Exemplos dessa dinâmica estão na mortandade na escola do Realengo e no massacre de adolescentes na Dinamarca. Em ambos os casos, a psicose de cunho paranóide veio a fulcro, com fantasias mágico-ideológicas próprias do momento e contexto onde cada loucura explodiu.

Fato é que, num dado momento, indivíduos fragilizados de alma travestem-se de vingadores da raça, da crença ou de si mesmos e buscam a superação de sua profunda inferioridade, guinando-se à posição de um suposto Deus, dono do destino e vida de suas vítimas. A motivação aparente, a fantasia, varia conforme o tempo e culturas. A essência do fenômeno é, delirantemente, sair da miserabilidade humana para a condição divino-delirante.

Vejamos então Gilles de Rais, braço direito de Joana D’Árc, Marechal de França com 23 anos. Não lhe bastando as glórias militares, foi flagrado em seu castelo com um mausoléu de 400 esqueletos de crianças, cortados e guardados carinhosamente; Hitler... Dono absoluto de uma Nação, contemplando, em êxtase, a eficiência do holocausto; Stalin... Em que estado de alma ordenou o fuzilamento de 6.000 oficiais poloneses, no Bosque de Katyn? Sabe-se que o momento de gozo triunfal dessas almas perversas é aquele do desespero da vítima, quando vê seu destino selado.

Creio, entretanto, que quando o “momento histórico” não permite, quando as estruturas psico-sociais não estão falidas e a sociedade como um todo não se coloca à mercê de almas ou doutrinas mágico-onipotentes, ou totalitárias, algumas realizações e satisfações menores são encontradas pelos pretendentes a deuses.

Afinal, quem não tem cão, caça com gato... Faço esta afirmação última, leitor, instigando-o a imaginar o gozo de quem repartiu o Brasil em capitanias hereditárias da corrupção e do fisiologismo, bem como o prazer de quem se locupleta do suor da Nação. Aliás, até já vimos aqueles pilantras, em Brasília, dançando e agradecendo a seu deus pela grana fácil com que se empanturravam.

Mas, se o gozo perverso particular e pessoal existe, impõe-se uma curiosidade quanto a este momento histórico em que o tecido do aparelho estatal brasileiro parece esgarçar-se em puro fisiologismo, ante a eficiência da Polícia Federal, justamente ao aproximar-se o julgamento, pelo STF, de golpistas envolvidos na compra de siglas partidárias e congressistas mensaleiros, com dinheiro público.

Estaríamos navegando na paranóia se imaginarmos que, enquanto a Nação trabalha para sustentar um virus perverso, esse lado doentio diligencia para que se creia, pela generalização, que todos são, que assim é, sempre foi e será?

Que nada resta-nos a não ser conformarmos com os quarenta ladrões dali, ou quantas mais forem as gavetas, armários e esqueletos encontrados acolá, nessa imensa e perversa castelania hereditária, capitaneada por quem já se sabe e cujos nomes nem vale a pena repetir?

No Pantanal isso se chama “dar boi prá piranha”, enquanto a boiada passa. Neste caso, para glorioso, divertido e impune destino. Onde nossa impotência dolorosa seria a azeitona dessa empada perversa e debochada.

(*) Valfrido M. Chaves é psicanalista.

vmcpantaneiro@terra.com.br

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