O rock também tem história
O 13 de julho costuma aparecer no calendário brasileiro como Dia Mundial do Rock. O nome engana um pouco: não se trata de uma data universalmente celebrada, nem de um aniversário oficial do gênero musical. A referência é o Live Aid, megaevento organizado por Bob Geldof e Midge Ure em 13 de julho de 1985, com shows em Londres e Filadélfia, para arrecadar fundos contra a fome na Etiópia.
RESUMO
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A cena era típica dos anos 1980: astros globais, transmissão televisiva em escala planetária, filantropia midiática e a promessa de que a música poderia reunir o mundo em torno de uma causa. Phil Collins, único artista a tocar nos dois palcos, propôs celebrar a data como o Dia Mundial do Rock, mas só o mercado radiofônico paulista de rock levou a sério.
Duas rádios, a 89 FM e a 97 FM, ambas de São Paulo, resolveram lembrar a data a seus ouvintes anualmente – vale lembrar que a segunda metade da década de 1980 foi a "época de ouro" do rock nacional. O resultado tem um quê de ironia: o "Dia Mundial" se tornou uma efeméride nacional.
A data, porém, pode servir para algo melhor do que a nostalgia. Ela permite perguntar que história contamos quando celebramos o rock. Durante muito tempo, essa história foi narrada como uma epopeia de guitarras brancas: Elvis Presley, Beatles, Rolling Stones, Eric Clapton, Led Zeppelin, Pink Floyd, heavy metal, punk, grunge, indie rock…
Todos são importantes, mas essa sequência frequentemente encobre uma questão decisiva: o rock nasceu de matrizes negras — blues, gospel, rhythm and blues, boogie, soul — e de artistas como Sister Rosetta Tharpe, Chuck Berry, Little Richard, Fats Domino, Bo Diddley e tantos outros. O escândalo inicial do rock não era apenas sonoro. Era também racial, corporal e sexual. Sua energia vinha de um mundo que a sociedade conservadora do pós-guerra tentava manter à margem, mas que o mercado logo aprendeu a vender a adolescentes brancos.
Aí se encontra uma contradição que acompanha o gênero desde o início. O rock é vendido como linguagem de desobediência, mas surgiu como (e ainda é) mercadoria. Pode desafiar padrões de raça, classe, gênero e comportamento, mas também pode apagar seus próprios criadores; pode reunir jovens contra guerras, ditaduras e racismo, mas pode, igualmente, ser apropriado por nacionalismos, campanhas eleitorais, empresas e movimentos autoritários. Não há essência libertária automática numa guitarra distorcida.
O punk torna essa ambiguidade mais visível. Na Inglaterra dos anos 1970, o encontro entre punk e reggae alimentou campanhas como Rock Against Racism, que responderam ao avanço da extrema direita com shows, fanzines, carnavais de rua e uma política cultural antirracista. Ao mesmo tempo, setores da cena punk e skinhead foram disputados por grupos xenófobos e neonazistas. A mesma agressividade estética podia significar solidariedade ou supremacismo; resistência ou ódio organizado.
Algo semelhante ocorreu em contextos autoritários. Na Hungria, entre os anos 1980 e 1990, uma cena skinhead nacionalista emergiu emulando o perfil da subcultura inglesa, coexistindo com um circuito punk e hardcore mais à esquerda — o mesmo tipo de disputa simbólica que se via na Inglaterra.
Na Tchecoslováquia, a perseguição aos dissidentes culturais foi transformada por Vaclav Havel no "julgamento do Plastic People of the Universe" (uma das bandas de rock mais originais que existiu sob o comunismo), o que aproximou o underground cultural e a dissidência política, desembocando na Carta 77, o documento mais importante da dissidência anticomunista na Europa Central.
Na URSS, clubes de rock criaram espaços de circulação de linguagens, amizades e críticas cifradas, mas também de controle estatal. A KGB vigiava de perto as atividades dos clubes de rock, que eram oficiais e legalizados. O rock, certamente, produziu zonas de sociabilidade nas quais outras formas de vida podiam ser imaginadas, mas de maneira nenhuma o gênero musical "derrubou o comunismo", como às vezes se diz em frases fáceis.
Também é preciso ouvir quem ficou fora da fotografia clássica do rock. Mulheres, pessoas negras e dissidências sexuais não foram apenas "participações especiais". Elas ajudaram a inventar o gênero, reinventá-lo e denunciar seus limites. De Sister Rosetta Tharpe às Runaways e às riot grrrls, das origens negras do rock ao Death e às Nova Twins, a história muda quando deixamos de tratar o roqueiro branco como personagem universal.
Celebrar o Dia Mundial do Rock, portanto, não precisa ser um exercício de saudade. Pode ser um convite à escuta histórica. O rock é festa, ruído, corpo, mercado, rebeldia e poder. Sua grandeza não está em ter sido sempre resistência, mas em revelar como a cultura popular é um terreno de disputa. Em 13 de julho, talvez a melhor homenagem seja essa: aumentar o volume, sim, mas sem diminuir as contradições.
(*) André Pereira Leme Lopes é professor do Departamento de História na UnB. Atualmente pesquisa a historiografia nos videogames e jogos de tabuleiro e o rock.
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