Que tipo de derrota assombrou os torcedores brasileiros?
É horrível perder. Ninguém quer perder. Mas alguém precisa perder depois da fase de grupos, pensando numa copa de futebol. Quem dera houvesse uma fase de grupos na vida, em que pudéssemos empatar aqui e ali, e mesmo perder, e não ficar tão triste com as decepções normais da vida cotidiana. A competição exacerbada patrocinada pela cultura neoliberal, onde somente os vencedores são valorizados, se afasta de culturas inteiras movidas por outros princípios. Lembro de um caso citado por Michel Serres em alguma ilha isolada no pacífico sul sobre um jogo de futebol, ou próximo ao futebol, que só terminava quando se alcançava um empate, e um jogo aí podia demorar dias nesses grandes festivais.
Outro caso bastante conhecido é documentado por Florestan Fernandes sobre a função social da guerra nos Tupinambás e como os derrotados eram valorizados pelos vencedores. Especulações à parte sobre o sentido profundo do empate e da derrota na formação de culturas inteiras, perder numa competição esportiva pode ser apenas uma derrota como outra qualquer, normal, com na vida cotidiana. Aprendemos com nossos erros e seguimos adiante, pronto.
Nessa ressaca moral depois da última derrota da seleção, não fiquei satisfeito com essa relativização, não deu para superar a última derrota como uma derrota normal. Tentei digerir na boa, mas não deu! E acho que o assombro que senti não foi individual. Perdemos muitas chances de gol durante a partida, e sabemos que os ditados guardam uma sabedoria profunda. Não fizemos o gol na hora certa, e levamos dois. Jogamos até bem durante a maior parte do jogo, mas de uma maneira irreconhecível. Não lembro da última vez que vi a seleção jogar recuada, defendendo, mas saindo para o contra-ataque de vez em quando. E isso como método, não em um momento ou outro da partida. Pasmem!
E não esqueçam disso jamais: no último domingo, jogamos na retranca. Pode parecer trivial para quem acredita que esquema tático no futebol se assemelha a esquema tático de guerra, quando o conhecimento que se tem do inimigo determina como lutar, porque o objetivo é vencer a todo custo, é vencer ou morrer.
O Japão jogou assim contra nós, tinha um time que podia jogar no ataque, mas recuou para ganhar o jogo, não deu certo, perderam, mas foram coerentes com a analogia militar. No caso da seleção brasileira, o assombro, a surpresa, foi ver um time começando com quatro atacantes, Rayan, Vini, Martinelli e Matheus Cunha jogando atrás.
Odeio estatísticas para jogos de futebol, não acrescentam nada, nadinha, para orientar decisões ou análises. Por exemplo, a comissão técnica da seleção brasileira escolheu Bruno Guimarães para bater o pênalti decisivo para o Brasil porque ele tinha errado menos pênaltis na sua carreira. O Ancelotti em entrevista disse isso. Tudo bem, ele estava fazendo uma ótima copa, estava confiante, mas essa responsabilidade era de atacante, e tínhamos quatro em campo. Pronto, não precisa pedir ajuda para IA nem para banco de dados. Mas a estatista mostra o óbvio de forma transparente: tivemos 30% de posse de bola. Jogo de retranca.
Outro assombro foi insistir no Neymar. Não encontrei ninguém, nem os adolescentes que o idolatraram um dia, dizer que acharam bom ele entrar sem conseguir correr em campo. Todos viram, era preciso que todos em campo se reajustassem para cobrir os buracos da marcação deixados por ele, como se jogássemos com 8 ou 9 no time sem ninguém ter sido expulso. Tudo bem, mas somente se ele fosse com isso decidir a partida sozinho. Infelizmente, ele não tinha saúde para um jogo profissional.
Tomamos dois gols da valente Noruega que jogou sem medo, correu riscos quando tivemos nossos contra-ataques, mas quando puderam, converteram. Aí vai o Neymar finalizar sua carreira com um gol de pênalti, o único tipo de gol que ele poderia fazer em campo. Fez e ficou perturbando o goleiro como um menino mimado. Deplorável despedida, mas coerente com sua carreira: grande artilheiro, péssimo líder em campo, porque jogou para si quase sempre e outros muitas vezes jogaram para ele.
Mas o assombro ainda maior veio do próprio Ancelotti. Por que ele decidiu pela entrada do Neymar, que visivelmente desequilibrou a marcação do meio de campo. O que ele pretendia ao fazer isso? Ele não sabia que esse desequilíbrio iria acontecer? Sabia sim, mas não sei se fez de propósito, talvez o tenha feito inconscientemente, para ceder a todas as pressões, as que conhecemos e as que talvez nunca saibamos.
A ideia era a de que o Neymar salvasse o Brasil. E se não o fizesse, ficaria claro para todos que a marcação é mesmo tudo no futebol atual, que a correria acelerada de todos contra todos é a base de equipes vencedoras, como ele mesmo acha, porque quer que todos sem exceção marquem, quando sabemos que uma equipe que precisa e quer fazer gols, tem de ter alguém descansado e pronto para uma arrancada fulminante.
O assombro maior, portanto, foi ver a seleção jogando como todos que jogaram contra a seleção brasileira um dia. É vê-la como refém de si. É como se finalmente a instrumentalização da seleção brasileira, antes apenas no campo comercial e econômico, tenha chegado no seu nível mais elevado, que é instrumentalizar o tipo de jogo que construiu uma cultura futebolística que quebrou todo tipo de instrumentalização.
É o assombro de um paradoxo, de uma derrota estrutural, que anuncia para os próximos quatro anos uma crescente instrumentalização dos jogadores, que precisarão obedecer ao esquema acima de tudo para garantir vitórias e títulos. Espero que essas vitórias futuras se confirmem e que não gerem uma ressaca moral como aquelas de derrotas, porque agora o que importa é somente a esperança da sua libertação, mesmo que seja para empatar ou perder.
(*) Miguel Gally de Andrade é professor de Estética & Filosofia da Arte e da Arquitetura no Departamento de Teoria e História em Arquitetura e Urbanismo da UnB.
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