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As outras gêneses do bullying e que não gostamos de mencionar

Por Francisco José Rengifo-Herrera (*) | 08/04/2024 08:30

É comum pensarmos que o bullying é um fato encapsulado e presente, principalmente, na sala de aula. De fato é o local “natural” onde ele se manifesta e se representa (como uma peça de teatro). Porém, temos muitas ressalvas para pensar que, além do que ocorre na escola, o lar, a família e os modos como nos relacionamos com nossos filhos faz parte dessas origens.

Seja porque somos omissos, na busca de práticas e crenças de classe sobre a criação dos filhos, nos tornamos permissivos e não definimos limites para as crianças. Ora porque somos abusivos e entramos em espirais de agressão recorrente que infringem violência e maltrato.

Eu quis tratar esse assunto porque cada vez encontro mais situações onde as crianças agem sem limites, são abusivas e desrespeitam outros, e os pais/cuidadores simplesmente fingem que nada acontece ou olham de forma desafiadora para o adulto alvo da ação da criança. Por outra parte, vejo também como as ações de violência familiar derivam em casos de crianças que agridem colegas, como forma de tentar resolver o abuso que eles vivenciam por parte dos seus pais/cuidadores dentro do lar.

Para analisar o que estou a propor vou lembrar que existem três categorias que estão inseridas na origem do bullying: 1. Dano Intencional 2. Repetição ao longo do tempo e 3. Desequilíbrio de Poder (Mietto, Rengifo-Herrera, Zukowski e Ramos, 20221). Você pode pensar que isso coincide muito bem com o segundo tipo de situação que descrevi acima. No entanto, a primeira, a da omissão, incorpora uma série de práticas violentas que estão mascaradas por um alo de bondade e boas intenções. As crianças precisam de relacionamentos equilibrados, que exijam a renovação diária de vínculos simétricos e não de ausência omissa de limites ou excesso de violência física, verbal ou simbólica. Elas precisam construir relacionamentos democráticos, porém guiados e articulados com o fato de se tornarem cidadãos (o que exige ter uma noção do outro e dos meus limites para com ele).

Se nós, como cuidadores, somos permissivos ou agressivos, estamos fazendo parte da corrente que perpetua ações de violência no cotidiano da sala de aula. Nossas crianças não podem fazer tudo o que querem porque, com certeza, alguém (algum dia) colocará um limite para eles e não será feito da melhor forma. Mas, nossas crianças também não podem ser educadas em regimes de autoritarismo caseiro que despreza/esmaga sua individualidade.

É fácil responsabilizar os professores pelo que ocorre na sala de aula. O difícil é quando as evidências indicam que os principais responsáveis pelas ausências de limites ou pelos excessos de limites somos os pais/cuidadores. É fácil responsabilizar a escola por não criar manuais de convivência entre os alunos quando nós, em casa, deixamos fazer tudo sem limites ou proibimos de forma violenta que algo aconteça. É fácil responsabilizar a sociedade pelo caos ético que vivenciamos, mas dói quando sabemos que nós mesmos somos os primeiros a ignorar a ética no nosso dia a dia.

Com esse texto eu quis tirar o foco do bullying como um fato de origem apenas escolar. As nossas mazelas como sociedade não poderão ser tratadas e minimamente resolvidas se não decidimos nos olhar ao espelho e entender que somos nós com nossas cicatrizes e feridas os principais responsáveis para que boa parte da violência escolar não venha a se repetir no cotidiano da sala de aula. É importante entender que o bullying tem muitas gêneses e que precisamos enfrentar todas elas, especialmente as que têm a ver com as nossas histórias e as nossas dores. Fazer isso permitirá não perpetuar correntes de violência, abuso e maltrato nas próximas gerações. Nesses 4.000 caracteres só consegui abordar uma dessas origens. No entanto, acredito que seja uma das mais importantes para que ele continue presente na escola.

(*) Francisco José Rengifo-Herrera é psicólogo, professor do Departamento de Teoria e Fundamentos (TEF) e do PPGE-MP – Faculdade de Educação – UnB – Vice-líder do Grupo de Pesquisa Infantia (CNPq/UnB).

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.

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