Carnaval: o profano também é sagrado
Dizer que o profano também é sagrado pode soar como provocação em uma sociedade acostumada a separar o que é “elevado” do que é “mundano”. Mas poucas manifestações culturais brasileiras traduzem tão bem essa ideia quanto o carnaval. Muito além da festa, da música alta, do corpo exposto e do excesso aparente, o carnaval é um ritual coletivo profundamente simbólico, carregado de sentido histórico, social e espiritual.
O carnaval nasce, ironicamente, de um calendário religioso. Ele antecede a Quaresma cristã, período de recolhimento, silêncio e contenção. Antes da renúncia, vem a catarse. Antes do jejum, o banquete. O corpo que dança hoje é o mesmo que amanhã será convocado à disciplina. Nesse movimento pendular, o excesso não é negação do sagrado, mas parte dele. O profano, nesse contexto, não é o oposto do sagrado — é sua outra face.
No carnaval, o corpo ocupa o centro. Ele dança, sua, se exibe, se mistura. E isso incomoda. Incomoda porque o corpo, historicamente, foi tratado como algo a ser domado, contido, silenciado. Mas há algo de profundamente sagrado na celebração do corpo vivo, pulsante, presente. O corpo que dança no carnaval afirma existência, identidade e pertencimento. Para muitos, especialmente para aqueles que foram marginalizados ao longo da história — negros, pobres, periféricos, LGBTQIA+ — o carnaval é um dos poucos espaços de plena expressão. E o que é mais sagrado do que existir sem pedir licença?
As escolas de samba, muitas vezes vistas apenas como entretenimento, são verdadeiras liturgias populares. Há enredo, narrativa, canto coletivo, ritmo repetido como mantra, vestes simbólicas, cores que contam histórias. O desfile é um altar em movimento onde se homenageiam ancestrais, se denunciam injustiças, se reconta a história sob a ótica de quem quase nunca teve voz. Ali, o samba-enredo é oração cantada, é memória preservada, é resistência ritualizada.
O carnaval também subverte hierarquias. Durante alguns dias, o rei vira folião, o anônimo vira protagonista, o pobre ocupa a avenida, a rua vira palco. Essa inversão, tão temida por estruturas rígidas de poder, é um elemento clássico dos rituais sagrados antigos. A desordem temporária não destrói o mundo — ela o recalibra. Permite que tensões sejam liberadas, que frustrações encontrem vazão, que a vida siga adiante com menos peso. O riso, o deboche e a sátira também purificam.
Há quem veja no carnaval apenas descontrole, pecado, vulgaridade. Mas essa leitura diz mais sobre o medo do humano do que sobre a festa em si. O carnaval não é a celebração do vazio; é a celebração da vida como ela é: intensa, contraditória, imperfeita. É um lembrete coletivo de que não somos apenas razão, trabalho e obrigação. Somos também carne, emoção, desejo, música e encontro.
O profano também é sagrado porque o sagrado não mora apenas no silêncio dos templos, mas também no barulho das ruas. Ele está no tambor que bate, no coro que canta junto, no corpo que dança sem coreografia perfeita, mas com verdade. O carnaval brasileiro é sagrado porque conecta pessoas, resgata histórias, honra ancestrais e permite que, por alguns dias, o peso da existência seja substituído pela leveza do agora.
Quando o último bloco passa e o silêncio retorna, algo permanece. Uma memória, um alívio, uma sensação de pertencimento. Como todo ritual verdadeiro, o carnaval não termina quando acaba. Ele cumpre sua função invisível: lembrar que viver também é celebrar. E que, às vezes, é justamente no profano que o sagrado se revela.
(*) Cristiane Lang, psicóloga especialista em oncologia.
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