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Como lidar com nossos medos?

Por Cristiane Lang (*) | 10/06/2026 08:00

Há fantasmas que não fazem barulho. Não arrastam correntes pelos corredores da casa, não apagam luzes, não aparecem em fotografias antigas. Eles vivem dentro de nós. Habitam as memórias que evitamos revisitar, os arrependimentos que apertam o peito durante a madrugada, as inseguranças que cochicham baixinho enquanto tentamos sorrir para o mundo.

Cada ser humano carrega seus próprios monstros invisíveis. Alguns convivem com o medo do abandono. Outros, com a culpa por palavras ditas em momentos errados. Há quem carregue a dor de não ter sido amado como precisava, e quem jamais tenha conseguido se perdoar por escolhas feitas quando ainda não sabia quase nada sobre a vida.

Muita gente passa a existência inteira tentando fugir desses fantasmas. E talvez este seja o grande engano humano: acreditar que sobreviver significa não sentir. Vivemos numa época que vende anestesia emocional como solução. Quando a alma dói, tenta-se silenciar a dor rapidamente.

Uns procuram o álcool para tornar as noites menos pesadas. Outros se afogam em remédios tomados sem critério, em distrações infinitas, em relações vazias, em compras impulsivas, em excessos. Há também aqueles que transformam a comida em abrigo emocional, como se cada mordida pudesse preencher buracos que pertencem ao coração e não ao estômago.

Mas a verdade cruel e silenciosa é que tudo aquilo que é empurrado para baixo continua existindo. O medo ignorado não desaparece. O trauma escondido não evapora. A tristeza abafada apenas muda de forma. Às vezes ela vira ansiedade. Outras vezes, irritação constante. Em muitos casos, transforma-se em um cansaço sem nome, uma fadiga emocional que faz a vida perder cor.

Os monstros internos se alimentam justamente daquilo que evitamos olhar.

Encarar os próprios fantasmas exige uma coragem rara. Porque é mais fácil fugir do que permanecer diante da própria dor sem distrações. É mais fácil ocupar cada minuto do dia do que sentar em silêncio e admitir: “eu estou ferido”. O ser humano foi ensinado a esconder fragilidades, a parecer forte o tempo inteiro, como se sentir tristeza fosse fracasso moral. Então muita gente sorri enquanto desmorona por dentro.

Mas existe uma diferença imensa entre suportar a dor e compreendê-la.

Compreender a própria dor é perguntar de onde ela veio. É perceber que certos medos nasceram de abandonos antigos. Que algumas inseguranças surgiram depois de críticas repetidas. Que determinados comportamentos são tentativas desesperadas de proteção. Muitas vezes, aquilo que chamamos de fraqueza foi apenas uma estratégia de sobrevivência construída por alguém que sofreu demais.

Lidar com os monstros internos não significa vencê-los definitivamente. Talvez maturidade emocional não seja eliminar sombras, mas aprender a conviver com elas sem permitir que conduzam nossa vida. Há cicatrizes que nunca desaparecem completamente. A diferença está em elas deixarem de comandar nossas escolhas.

E como fazer isso?

Primeiro, aceitando que sentir é inevitável. Nenhum ser humano emocionalmente saudável vive anestesiado. A tristeza faz parte da experiência humana. O medo também. O problema não é sentir dor. O problema é transformar a fuga da dor em um modo de vida.

Depois, é necessário criar espaços internos de escuta. Há pessoas que passam anos ouvindo o mundo inteiro, mas nunca ouviram a si mesmas. Às vezes, escrever ajuda. Colocar em palavras aquilo que sufoca por dentro pode ser uma forma de organizar o caos.

Outras vezes, conversar honestamente com alguém de confiança abre janelas em ambientes internos que estavam fechados há décadas. E em muitos casos, buscar ajuda psicológica não é sinal de fraqueza, mas de lucidez. Há dores profundas demais para serem carregadas sozinho.

Também é importante entender que autocuidado não é apenas banho quente, perfume caro ou frases bonitas de internet. Autocuidado, muitas vezes, é dizer “não”. É dormir melhor. É parar de frequentar lugares que machucam. É reconhecer limites emocionais. É diminuir o contato com aquilo que alimenta sofrimento. É aprender que nem toda ausência precisa ser preenchida imediatamente.

Existe ainda um aspecto silencioso no enfrentamento dos fantasmas: a paciência consigo mesmo.

Vivemos querendo curas rápidas para dores antigas. Queremos melhorar em uma semana aquilo que foi construído durante anos. Mas a alma humana possui ritmos próprios. Há feridas emocionais que cicatrizam devagar, quase imperceptivelmente. E tudo bem. Nem toda reconstrução acontece de forma grandiosa.

Às vezes, ela acontece em pequenos gestos cotidianos: levantar da cama num dia difícil, conseguir respirar fundo durante uma crise, perceber um pensamento destrutivo antes de acreditar nele.

Os monstros que habitam em nós geralmente nascem daquilo que não foi acolhido. Da criança que teve medo e precisou fingir coragem. Do adulto que se sentiu rejeitado. Da dor que foi ridicularizada. Por isso, combater a si mesmo violentamente raramente funciona. Talvez o caminho seja menos uma guerra e mais um encontro.

Olhar para si com menos crueldade.

Entender que somos feitos de luz e sombra ao mesmo tempo. Que ninguém atravessa a vida intacto. Que todo ser humano, por trás das aparências, trava batalhas silenciosas. Algumas pessoas apenas aprenderam a escondê-las melhor.

E talvez a verdadeira força esteja justamente nisso: continuar vivendo sem endurecer completamente. Continuar acreditando na vida mesmo depois das decepções. Continuar tentando apesar das cicatrizes. Porque os fantasmas internos podem até caminhar ao nosso lado, mas não precisam dirigir nossos passos.

No fim, lidar com os monstros que habitam em nós não é destruí-los. É aprender a não entregar a eles o controle da nossa existência. É reconhecer suas vozes sem obedecê-las cegamente. É transformar dor em consciência, medo em maturidade, e sofrimento em compreensão profunda de si mesmo.

E talvez seja essa a parte mais bonita e mais difícil de ser humano: descobrir que coragem não é ausência de escuridão. Coragem é acender uma pequena luz mesmo tremendo por dentro.

(*) Cristiane Lang é psicológa especialista em oncologia.

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.