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Escute o que te irrita

Por Cristiane Lang (*) | 25/07/2026 07:06

Parece um conselho estranho. Afinal, passamos boa parte da vida tentando evitar aquilo que nos incomoda. Fugimos das pessoas que nos irritam, dos comportamentos que nos provocam e das situações que despertam em nós emoções desagradáveis. Queremos distância daquilo que nos tira a paz. No entanto, existe uma sabedoria silenciosa escondida na irritação. Muitas vezes, ela funciona como um espelho.

Nem tudo o que nos irrita está em nós, é verdade. Existem injustiças, desrespeitos e atitudes objetivamente condenáveis. Mas há inúmeras situações em que a intensidade da nossa irritação revela algo mais profundo. Revela um encontro inesperado com partes de nós mesmos que talvez ainda não conheçamos ou não aceitemos.

Quando alguém exibe uma característica que rejeitamos com veemência, vale a pena perguntar: por que isso me afeta tanto? Se aquilo realmente não tivesse nenhuma relação comigo, talvez passasse despercebido. Talvez fosse apenas mais um detalhe da paisagem humana. A indiferença costuma ser o destino das coisas que não encontram eco dentro de nós.

A pessoa arrogante nos irrita porque talvez reconheçamos nela uma arrogância que tentamos esconder. O indivíduo inseguro pode nos incomodar porque toca em inseguranças que passamos a vida inteira tentando disfarçar. O controlador desperta nossa raiva porque nos lembra do quanto também gostamos de controlar o que está ao nosso redor. Aquilo que condenamos no outro, muitas vezes, é uma sombra que já habitou ou ainda habita nossa própria casa interior.

O ser humano gosta de acreditar que conhece a si mesmo. Mas a verdade é que carregamos quartos trancados dentro da alma. Lugares onde guardamos características, desejos, medos e defeitos que não combinam com a imagem que construímos sobre quem somos. Então a vida, com sua estranha sabedoria, coloca essas partes diante de nós na forma de outras pessoas.

É por isso que certos encontros são tão desconfortáveis. Não estamos apenas olhando para alguém. Estamos olhando para um reflexo.

Carl Jung dizia que tudo aquilo que nos irrita nos outros pode nos levar a uma compreensão mais profunda de nós mesmos. E talvez essa seja uma das tarefas mais difíceis da existência: reconhecer que o inimigo que enxergamos do lado de fora, às vezes, mora também do lado de dentro.

Isso não significa aceitar tudo passivamente ou deixar de impor limites. Algumas pessoas realmente são tóxicas, abusivas ou prejudiciais. Mas antes de apontar o dedo, vale a pena observar a intensidade da nossa reação. Quanto maior a irritação, maior a possibilidade de existir uma mensagem escondida ali.

A irritação é uma professora severa. Ela não fala com delicadeza. Ela grita. Ela provoca. Ela incomoda. Mas, justamente por isso, consegue chamar nossa atenção para aquilo que ainda precisa ser visto.

Talvez a pessoa que mais o irrita esteja lhe mostrando uma ferida que ainda não cicatrizou. Talvez esteja revelando um medo que você não admitiu. Talvez esteja apontando para uma característica que você combate nos outros porque ainda não conseguiu reconciliar em si mesmo.

Escutar o que nos irrita é um exercício de coragem. É abandonar a confortável posição de juiz e assumir, por alguns instantes, o papel de aprendiz. É trocar a pergunta “o que há de errado com essa pessoa?” por uma pergunta muito mais difícil: “o que isso desperta em mim?”

A maturidade emocional não nasce quando deixamos de nos irritar. Ela nasce quando passamos a investigar nossas irritações. Quando entendemos que cada emoção intensa carrega uma mensagem. Quando percebemos que a vida não coloca espelhos apenas nas superfícies polidas, mas também nos encontros que nos desafiam.

No fim das contas, aquilo que nos é completamente estranho raramente desperta grandes emoções. O que nos atravessa, o que nos incomoda profundamente, o que insiste em chamar nossa atenção, geralmente encontrou algum ponto de contato dentro de nós.

Por isso, da próxima vez que algo ou alguém lhe causar uma irritação desproporcional, experimente ouvir antes de reagir. Talvez não seja apenas sobre o outro. Talvez seja sobre uma conversa que sua alma tenta ter com você há muito tempo.

E, às vezes, a maior transformação começa justamente quando paramos de fugir do espelho e decidimos olhar para ele.

(*) Cristiane Lang é psicóloga.

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.