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Campo Grande, Sexta-feira, 22 de Junho de 2018

21/05/2018 15:27

Delinha: memória em formato de canção

Por Lucas Silva (*)

Três desencontros. O quarto receava o fim dos três primeiros. Só que dessa vez, o encontro tinha destino e local definido. Foi em Campo Grande, lá no bairro Amambaí, na casinha velha de tábua. Os passos eram incertos, a artista de maior história e discografia dessa Terra de Rondon não poderia viver naquela casa de esquina. Os rabiscos "Viva Delinha" pixados na parede do muro cor-de-rosa denunciavam o irreverente local que a artista Delanira Pereira Gonçalves residia.

Sentada em um banco de madeira que fazia jus ao material utilizado na construção de sua casa, ela aguardava as indagações da entrevista. Peço para que ela se sente na cadeira de fio, na intenção de ficar mais confortável, obtenho como resposta: "Não gosto de sentar aí, depois as pernas não ajudam a levantar". Ela tem 81 anos, a mente e o corpo já não têm mais a mesma sintonia de anos atrás, quando a dança do rasqueado sul-mato-grossense movimentavam e encantavam multidões.

Eram oito décadas de histórias a serem contadas. Os cabelos faziam questão de escondê-las, os fios tinham tons de vermelho vivo. Seu vestido era cheio de flores e rosas como um belo jardim visto de cima. A vista era alegre, assim como a cidade em que nascera em 1936 na cidade de Maracaju. A canção de sua autoria "Velha Casinha" em um de seus trechos dizia: "Casinha dos meus oito anos, lembrança dos meus pais que hoje não tenho mais". Com três toques na madeira da velha casa, ela expressa o orgulho de morar ali desde os 8 anos de idade, quando os pais mudaram para Campo Grande em 1944.

A primeira revelação choca e quebra expectativas, seu nome é Delanira. Só a partir dos 18 anos, que ela começou a ser chamada pelas amigas de Delinha. "Nunca gostei de apelidos, mas esse pegou, deu sorte e continua até hoje". Desde os 4 anos de idade, já cantava "A Jardineira", música de Orlando Silva. Sua mãe tinha muito apreço pela sua voz e rapidamente a colocou no coral da igreja Perpétuo Socorro, na qual ela cantou até depois de noiva.

As perdas tiveram significativo impacto na vida de Delinha, porém sem afetar o espírito de vida da artista. Em 1968, perdera o pai subitamente e dezoito anos depois ficara sem a mãe, vítima do câncer. "A gente até espera a morte, mas nunca queremos que ela chegue". A artista não estremece e nem demonstra emoção ao falar da perda dos pais, era tão forte como o trecho de sua música: "Eu tenho uma filosofia, que não me deixa desanimar".

Por causa da música, conheceu Délio, seu companheiro de estrada em mais de 50 anos de carreira. Por insistência da mãe e pela união causada pela música, os dois acabaram se casando em 1958. Délio era também primo de Delinha e 12 anos mais velho que ela. A dupla era conhecida como o casal de onças do Mato Grosso. Nessas quase seis décadas de carreira, a dupla gravou 19 LP's, 2 Compactos, 14 78 rotação, 4 CD's e 2 DVD's; são a dupla e os artistas sul-mato-grossenses com a maior discografia da história do estado com 32 títulos.

Assim que casaram, foram morar em São Paulo por 8 anos, na intenção de fazer sucesso nas rádios e nos programas de TV da época. Após a súbita fama conquistada, voltaram para Campo Grande e aqui se estabeleceram desde então. "Campo Grande pra mim é tudo, aqui nós temos uma cultura, um estilo, onde a gente vai é aquele povo tirando foto, brincando, cantando e bebendo; o estado da gente é outra coisa neh, só beleza".

O instrumento de estimação, o violão que sempre a acompanhava nos shows, já não cabe mais em seus braços e mãos já gastos pelas cicatrizes do tempo. "O braço agora não vai mais, é muito triste isso, mas fazer o quê? Você tem que esperar tudo da vida, até mesmo a velhice". Delinha também relembra a dificuldade encarada na época. "Era muito difícil naquela época, só gravava disco quem realmente tinha talento, hoje é só você ter dinheiro". Ainda resgatando de seu vasto armazém de memórias, ela sorri ao lembrar que as outras duplas de sucesso da época ficaram ricos e eles não tiveram o mesmo êxito. "Todo mundo gravava um disco e ficava rico, nós ficamos do mesmo jeito".

Após 25 anos de casados, Délio e Delinha se divorciaram. "Não combinávamos mais, não tinha mais jeito". E depois da separação, ambos ficaram um tempo sem gravar e produzir música. A dupla só voltou a se reunir em 1978 quando foram convidados pelo Canto da Terra a cantarem em um show no círculo militar de Campo Grande. Delinha já estava casada com Jairo Barbosa, com quem viveu junto por 32 anos. Novamente os planos da dupla mudaram e cada um seguiu carreira solo. Somente em 1993, estimulados pela nova geração de admiradores e pelo fiel e antigo público sul-mato-grossense eles retornaram e cantaram juntos até 2010, ano da morte de Délio.

Em dois anos, Delinha perdeu os dois companheiros de sua longa estrada da vida. Délio morreu em 2010 vítima de um câncer de pulmão e Jairo em 2012 acometido por complicações da hipertensão. Assim como no momento dito sobre a perda dos pais, Delinha não exprime qualquer sensação de emoção, choro ou angústia pelas mortes de Délio e Jairo. Intrigado pela postura firme e inabalável, questiono como ela consegue forças para seguir em frente depois de ter perdido pessoas tão importantes. "Tem que acostumar, você tem que levar a vida, você não pode se deixar levar, por nada, quando a tristeza chega, eu converso comigo mesma".

Diante dessa maneira de enxergar as adversidades e as intempéries da vida, fico interessado em descobrir quais sonhos já foram realizados pela artista e quais ela ainda pretende realizar. E mais uma vez minhas expectativas são frustradas. "Eu sou muito pé no chão, eu nunca quis coisa que eu não pudesse, eu nunca fui deslumbrada, eu sou o que eu sou". Também questiono a perspectiva para o futuro da artista, como ela imagina estar daqui dois ou três anos. "Será que dá tempo Lucas? É continuar cantando até quando puder, não tenho mais perspectiva de nada".

Após a excêntrica resposta dada e em uma breve pesquisa pelas letras de suas canções, notei esse sentimento próprio dela em sua música. O primeiro trecho é da música "Malvado satélite", e diz: "Pois vejam só, este mundo de maldade, que sem dó sem piedade, derrotaram os sonhos meus". O segundo é da canção "É sempre assim" e afirma: "Dizem que o sonho é a alma que vagueia, a gente dorme, ela passeia até do sono despertar". Depreende-se dos trechos, que no primeiro, a artista encontra-se sem esperança e perspectiva em continuar sonhando diante do injusto mundo; já no segundo, ela encontra-se conformada que o sonho se limita ao imaginário e que esse passeio acaba ao acordar. Delinha definiu-se brilhantemente: "Sou o que sou", foi precisa e coerente em seus pensamentos e conseguiu transplantar parte de si as suas melodias.

Antes de encerrar, pergunto se ela já pensou em seguir carreira longe da música. A resposta desaponta, porém não surpreende. "Mas Lucas, eu nunca fiz outra coisa na minha vida". Delinha demonstra amor e extremo carinho por todos os anos em que se dedicou à música, ela quebra o estereótipo do artista sonhador e repleto de planos para o futuro, seus pés estão fincados no chão de Mato Grosso do Sul, terra essa que ela não abandona, gente que ela não abre mão, cultura que ela não esquece. E o Estado e o povo sul-mato-grossense têm imenso prazer em retribuir a reciprocidade e peço licença poética para reiterar a última estrofe de sua canção "Velha Casinha" para enaltecer a artista de maior prestígio do MS: "Também não serás esquecida, ficará por toda vida sua imagem em formato de canção".

(*) Lucas Silva é acadêmico de jornalismo.

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