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Escrevivências da Educação Física cultural

Por Marcos Garcia Neira (*) | 19/10/2021 08:30

Escrevivência é uma criação de Conceição Evaristo, escritora, professora e participante ativa dos movimentos feminista e de valorização da cultura negra, cuja obra mergulha no universo marginal que a sociedade finge não ver. Sua produção não cai na armadilha do realismo brutal que transforma em fetiche favelas, vielas e becos, muito menos, converte a violência em objeto de consumo. Em vez disso, promove a denúncia social ao reconstruir a intimidade de humilhados e ofendidos, tratando-os como pessoas que sonham e desejam apesar do sofrimento da exclusão. Conceição Evaristo se identifica com a intelectualidade afrodescendente em profunda interação com quem é colocado e colocada à margem do regramento neoliberal.

A escrevivência funde os gêneros do romance e da escrita de si, espalhando fragmentos biográficos que salpicam os personagens. Nesse emaranhado é possível ver o mundo pela ótica dos sujeitos anônimos. A escrevivência é um modo de falar, ser ouvido, redigir outra história, outra versão, outra epistemologia, que valoriza a pessoa comum sobre a qual não se fala porque a ninguém interessa. Por meio da escrevivência, Conceição Evaristo partilha a missão política de inventar outro futuro para si e para o seu coletivo. A escrevivência é uma bricolagem de memória, história e poética. É a expressão do direito de narrar a si e a suas próprias experiências. Parte do princípio que negar a alguém o direito de narrar-se é o mesmo que censurar seus conhecimentos. É cometer um assassinato epistêmico.

O livro Escrevivências da Educação Física cultural é o inverso disso. Subsidiado pela Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da Universidade de São Paulo, traz a público relatos de experiências realizadas por professoras e professores que afirmam colocar em ação a perspectiva cultural da Educação Física, também chamada currículo cultural, Educação Física culturalmente orientada ou, simplesmente, Educação Física cultural. Vertente investigada e experimentada pelas professoras e professores da Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio que participaram das reuniões formativas organizadas pelo Grupo de Pesquisas em Educação Física escolar da Faculdade de Educação (GPEF). A Educação Física cultural se compromete com a formação de sujeitos que afirmam as diferenças por meio do estudo das brincadeiras, danças, lutas, ginásticas ou esportes, concebidos como traços das identidades culturais dos vários grupos que coabitam a sociedade. Registrar e divulgar as experiências com a proposta é uma prática cultivada e incentivada pelo GPEF, antes de tudo, é uma ação política.

Relatos de experiência podem ser tomados como escrevivências, uma vez que manifestam impressões do fazer pedagógico vivido pelas próprias autoras e autores. São histórias de quem trabalha junto com as/os estudantes, reorganiza suas ações e aprende cotidianamente. Histórias de quem enfrenta dificuldades; de quem inventa pedagogias em tempos de pandemia; de quem ouve o barulho da quadra, pátio ou sala de aula; de quem respeita o isolamento e frequenta espaços virtuais; de quem, ao desafiar a lógica conteudista, reprodutivista e transmissora das pedagogias modernas, se depara com discordâncias e desentendimentos, mas também recebe apoio e carinho, principalmente dos estudantes.

As professoras e professores que ousam relatar e dar publicidade às suas experiências estilhaçam o paradigma dominante que insiste em silenciar. O jogo de forças que no passado favorecia os pesquisadores, agora autoriza representantes do terceiro setor a falar sobre a prática educativa. Os primeiros vão à escola, observam, anotam, filmam, fotografam, dialogam e entrevistam para, em seguida, descrever e analisar o que viram e ouviram com base nas ciências da educação. Os segundos sequer vão às escolas. Tampouco reconhecem as pesquisas sobre a docência. Defensores contumazes da privatização, olham para a escola pública e seus profissionais com desdém e algum preconceito. Agem como se as unidades de ensino fossem territórios a colonizar. Desejosos pela gestão dos recursos destinados à educação, arvoram-se a prerrogativa de dizer às/aos docentes da Educação Básica o que e como ensinar. Cheios de soluções mirabolantes, romantizam, folclorizam e celebram o que chamam de boas práticas ou inovações pedagógicas.

Os relatos de experiência da Educação Física cultural contra-atacam. As professoras e professores exigem que suas vozes sejam escutadas. Entraram definitivamente na luta pelos significados atribuídos à docência. Não precisam que ninguém fale por elas e eles, pois nunca foram incapazes de dizer quem são e o que pensam. Suas escrevivências se mostram potentes ao revelar práticas e saberes antes desconsiderados, negligenciados. Trata-se de uma virada epistêmica em que a narrativa docente encurrala a arrogância colonialista. As educadoras e educadores que se inscrevem nos textos, emaranham-se na constituição de outros sentidos, possibilitam olhares distintos aos acontecimentos e trazem à tona outras formas de existir. Nos entremeios das suas narrativas, explicitam os conhecimentos que produzem, rejeitando a posição em que foram propositalmente alocados. Uma posição subserviente, tutelada, que precisa que alguém lhes diga como devem exercer o seu ofício.

Nas escrevivências da Educação Física cultural, intensidade e realidade se confundem com a existência das autoras e autores, enriquecendo a tessitura de acontecimentos, experiências e significados. Cada docente se inscreve e escreve no texto, reivindicando, a todo tempo, seu direito de dizer e dizer-se, refutando quem menospreza os saberes anunciados, pois neles deseja ver o maniqueísmo que distancia a prática da teoria. É preciso reconhecer que por muito tempo as vozes das professoras e professores estiveram ausentes no discurso pedagógico. A ausência é maior quando se refere a quem atua no ensino de Educação Física. Elas e eles são ainda mais interditados, desvalorizados. Seu silenciamento não se deve a qualquer aspecto formal, mas à subalternidade para a qual foram historicamente empurrados. Afinal, diante do monopólio intelectualista que hegemoniza a cena educacional, quem se interessa por quem são, o que pensam, o que sabem e, sobretudo, o que fazem os profissionais que tematizam as práticas corporais?

As professoras e professores que colocam em ação a pedagogia culturalmente orientada transgridem esse pensamento abissal, explicitando em suas escrevivências inúmeros transbordamentos. Seus relatos de experiência evidenciam algo impossível de capturar, classificar ou sistematizar. Desdobram modos singulares não só de enunciar, mas também efetivar a escrita-currículo. Impossível, portanto, descrevê-la passo a passo. Sendo múltipla, variada, metamórfica e artistada, cada autor ou autora deixa transparecer pela escrevivência toda a força da Educação Física cultural, cujos contornos a modificam no mesmo instante em que é produzida. Produção que nunca cessa, pois é criada e recriada a cada leitura.

(*)  Marcos Garcia Neira é professor da Faculdade de Educação da USP.

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