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Saúde e Bem-Estar

Anvisa alerta para risco de pancreatite com uso indevido de caneta emagrecedora

Reação é prevista nas bulas dos medicamentos regulamentados, mas uso fora das indicações aumenta o risco

Por Jhefferson Gamarra | 09/02/2026 13:10
Anvisa alerta para risco de pancreatite com uso indevido de caneta emagrecedora
Pessoa segurando canetas emagrecedoras regulamentadas no Brasil (Foto: Reprodução)

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) emitiu um alerta de farmacovigilância sobre o uso de canetas injetáveis para tratamento de obesidade e diabetes sem acompanhamento médico e fora das indicações aprovadas em bula. O documento foi divulgado nesta segunda-feira (9) e aponta aumento no número de notificações de casos de pancreatite associados a medicamentos da classe dos agonistas do receptor GLP-1, como Ozempic, Saxenda e Mounjaro, popularmente conhecidos como “canetas emagrecedoras”.

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A Anvisa emitiu alerta sobre riscos de pancreatite associados ao uso indevido de canetas injetáveis para tratamento de obesidade e diabetes. Entre 2020 e dezembro de 2025, foram registradas 145 notificações de eventos adversos no Brasil, incluindo seis casos suspeitos de morte relacionados aos medicamentos Ozempic, Saxenda e Mounjaro. O órgão regulador ressalta que a pancreatite já consta como reação adversa nas bulas, mas o aumento das notificações motivou o reforço nas orientações de segurança. A agência determinou novas regras para venda, incluindo retenção de receita médica, e recomenda interrupção imediata do tratamento em caso de suspeita da doença.

O alerta ocorre em meio a um cenário de preocupação internacional. A Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos de Saúde do Reino Unido informou que, entre 2007 e outubro de 2025, foram registradas 1.296 notificações de pancreatite relacionadas ao uso desses medicamentos no país, incluindo 19 mortes. Embora os casos sejam considerados raros, alguns evoluíram para formas graves da doença, como pancreatite necrosante e fatal.

No Brasil, a Anvisa informou que, de 2020 até 7 de dezembro de 2025, foram registradas 145 notificações de suspeitas de eventos adversos relacionados a esses medicamentos, incluindo seis casos suspeitos de morte por pancreatite. De acordo com o painel VigiMed, que reúne as notificações enviadas ao órgão, são dois casos associados ao uso de Ozempic, três ao Saxenda e um ao Mounjaro. Todos ainda estão em investigação e são considerados suspeitos até a conclusão da análise, que pode levar meses ou até anos.

A agência ressalta que, mesmo quando a notificação cita o nome comercial do medicamento, não é possível afirmar, de forma imediata, que há relação direta de causa e efeito. Isso porque os pacientes que fazem uso dessas canetas, em geral pessoas com obesidade ou diabetes, já apresentam risco aumentado para pancreatite. Além disso, há a possibilidade de envolvimento de produtos falsificados.

Segundo a Anvisa, a pancreatite já consta como reação adversa prevista nas bulas desses medicamentos no Brasil. No entanto, o aumento recente das notificações levou o órgão a reforçar as orientações de segurança, especialmente diante do uso indiscriminado e fora das indicações autorizadas.

Atualmente, a maioria das canetas é aprovada apenas para o tratamento de obesidade e diabetes tipo 2. Existem exceções específicas: a semaglutida, princípio ativo de medicamentos como Wegovy e Ozempic, também tem indicação para redução do risco de eventos cardiovasculares; já o Mounjaro recebeu aprovação recente para o tratamento da apneia do sono moderada a grave em pessoas com obesidade. Qualquer uso fora dessas indicações é considerado contraindicado pela agência, por falta de evidências científicas que comprovem segurança e eficácia.

O alerta destaca que o risco ao paciente pode ser ainda maior quando esses medicamentos são utilizados para emagrecimento rápido ou fins estéticos, sem indicação clínica e sem acompanhamento médico adequado. Nesses casos, além de aumentar a probabilidade de eventos adversos graves, o uso inadequado pode dificultar o diagnóstico precoce de complicações.

A Anvisa orienta que o tratamento seja interrompido imediatamente diante da suspeita de pancreatite e não seja retomado caso o diagnóstico seja confirmado. Apesar do alerta, a agência esclarece que não houve mudança na relação risco-benefício desses medicamentos: quando utilizados conforme as indicações aprovadas e sob acompanhamento profissional, os benefícios terapêuticos continuam superando os riscos.

O que é a pancreatite - A pancreatite é uma inflamação do pâncreas, órgão localizado no abdômen e fundamental para a digestão dos alimentos e o controle da glicose no sangue. O pâncreas produz enzimas digestivas e hormônios, como a insulina. Quando ocorre a inflamação, essas enzimas podem passar a agredir o próprio órgão, causando dor abdominal intensa, náuseas e alterações importantes no funcionamento do organismo.

Em quadros mais graves, a inflamação pode se espalhar, provocar falência de órgãos e levar à morte se não houver tratamento rápido. Por isso, a Anvisa recomenda que usuários desses medicamentos procurem atendimento médico imediato ao apresentar dor abdominal intensa e persistente, especialmente se irradiar para as costas e vier acompanhada de náuseas e vômitos.

Regras para venda - A preocupação com o aumento de eventos adversos levou a Anvisa a adotar medidas regulatórias mais rígidas. Em junho de 2025, o órgão determinou que farmácias e drogarias passassem a reter a receita médica desses medicamentos, conforme a RDC nº 973/2025 e a Instrução Normativa nº 360/2025. Desde então, a prescrição deve ser feita em duas vias, e a venda só pode ocorrer com a retenção da receita, nos moldes do que já acontece com antibióticos. A validade da receita é de até 90 dias a partir da data de emissão.

Segundo a agência, a decisão teve como objetivo proteger a saúde da população diante do elevado número de eventos adversos relacionados ao uso fora das indicações aprovadas.

A Anvisa reforça a importância de que profissionais de saúde interrompam imediatamente o tratamento ao suspeitar de pancreatite e não retomem o uso se o diagnóstico for confirmado. A agência também destaca a necessidade de notificação de eventos adversos no sistema VigiMed, o que permite o monitoramento contínuo da segurança desses medicamentos, que estão no mercado brasileiro há pouco mais de cinco anos.

Nos últimos anos, outros alertas já haviam sido emitidos pela Anvisa sobre essa classe de medicamentos, incluindo riscos de aspiração durante procedimentos anestésicos, em 2024, e casos raros de perda de visão associados à semaglutida, em 2025. Segundo o órgão, esses alertas fazem parte do acompanhamento contínuo da segurança dos agonistas do receptor GLP-1 no país.

Canetas registradas na Anvisa - Atualmente, diversos medicamentos dessa classe possuem registro para comercialização no Brasil, com indicações específicas para diabetes tipo 2, obesidade e sobrepeso, conforme aprovado pela Anvisa. Entre eles estão Victoza, Trulicity, Saxenda, Ozempic, Wegovy, Mounjaro, além de outras apresentações e associações, todas com indicações e datas de registro definidas pela agência reguladora.