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Cidades

A partir de maio, polícia terá de chamar MP sempre que abordagem acabar em morte

MS é o 14º estado brasileiro com o maior número de óbitos quando polícia entre em ação

Por Anahi Zurutuza | 09/02/2026 08:07
A partir de maio, polícia terá de chamar MP sempre que abordagem acabar em morte
Policiais militares no local onde homem acabou morto durante abordagem no Coronel Antonino, no dia 30 de janeiro, 6º morte naquela semana em MS (Foto: Paulo Francis/Arquivo)

Pronto para agir, o Gacep (Grupo de Atuação Especial e Controle da Atividade Policial) do MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) terá de ser comunicado sempre que abordagem policial terminar em morte. A partir do dia 7 de maio, investigações sobre morte em “confronto” ou em decorrência da atividade ficarão oficialmente a cargo dos promotores e agentes de segurança que fazem parte da equipe.

RESUMO

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A partir de 7 de maio, o Ministério Público de Mato Grosso do Sul deverá ser comunicado imediatamente em casos de mortes durante abordagens policiais. A medida atende determinações do Supremo Tribunal Federal e do Conselho Nacional do Ministério Público, encerrando o modelo em que as próprias forças de segurança investigavam seus agentes. O Grupo de Atuação Especial e Controle da Atividade Policial (Gacep) será responsável pelas investigações. Mato Grosso do Sul é o 14º estado com mais mortes em intervenções policiais, registrando 10 óbitos nos primeiros 37 dias de 2026. Em 2025, o Gacep abriu 947 investigações relacionadas a abusos ou violência policial.

Mato Grosso do Sul é o 14º estado brasileiro com o maior número de mortes durante intervenções policiais. Nestes primeiros 37 dias de 2026, foram 10 óbitos registrados, seis deles numa mesma semana, em um intervalo de três dias.

Nesta semana, o chefe do Gacep, promotor Douglas Oldegardo Cavalheiro dos Santos, e o procurador-geral de Justiça, Romão Ávila Milhan Junior, reuniram-se com representantes das polícias Civil, Militar, perícia e Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública) para definir na prática como será feito o trabalho de apuração. “Precisamos alinhar esses fluxos para que, a partir de 7 de maio, tudo funcione de forma integrada, sem conflito de atribuições e com agilidade”, explicou Douglas.

A partir de maio, polícia terá de chamar MP sempre que abordagem acabar em morte
Reunião de representantes da segurança pública em MS com o Ministério Público nesta semana (Foto: MPMS/Divulgação)

Novo modelo – A partir da nova sistemática, o Ministério Público passa a atuar desde os primeiros minutos da ocorrência. O Copom (Centro de Operações da Polícia Militar), por exemplo, terá de comunicar imediatamente o plantão do MP sempre que houver uma morte decorrente de intervenção da PM, permitindo a atuação direta do promotor na cena da ocorrência, exigindo a presença da perícia, imagens de câmeras, o recolhimento de armas, dentre outras providências necessárias para preservação de provas.

A mudança encerra o modelo em que as próprias forças de segurança apuravam ocorrências envolvendo seus agentes e atende a determinações do STF (Supremo Tribunal Federal) e do CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público). “O Supremo Tribunal Federal determinou, na ADPF 635, que as mortes decorrentes de intervenção policial devem ser investigadas pelo Ministério Público. Isso não é uma opção do MP, é uma obrigação”, afirma o chefe do Gacep.

A decisão do STF é de abril de 2025 e, em maio do ano passado, o CNMP publicou a resolução que detalha como essas investigações devem ocorrer. Apesar de a norma ter entrado em vigor na data da publicação, houve prazo de um ano para adequações.

A partir de maio, polícia terá de chamar MP sempre que abordagem acabar em morte
Ação da PM que matou homem em "surto", em novembro do ano passado (Foto: Reprodução)

De prontidão – O Gacep do MPMS, segundo Douglas, vem se preparando há um ano para cumprir com o que determina a regulamentação nacional. “Nós temos estruturado o Gacep fazendo incremento de pessoal, inclusive com policiais para fazer as atividades investigativas, mudando os fluxos de trabalho e iniciando algumas apurações de mortes decorrentes de intervenção policial por conta própria”.

Em 2025, o Gacep abriu 947 investigações relacionadas a abusos ou violência policial. A média é de quase 3 inquéritos ao dia.

Um dos episódios de violência policial que mais repercutiram no ano passado envolve o policial militar José Laurentino dos Santos Neto, de 44 anos. Ele é investigado pela morte de Rafael da Silva Costa, de 35 anos, ocorrida durante abordagem durante abordagem no Bairro Tarsila do Amaral, em Campo Grande, no dia 21 de novembro. O homem estava em “surto” quando a PM foi acionada.

Imagens de câmeras de segurança e depoimentos colhidos durante a apuração apontam para o uso excessivo da força. Rafael foi agredido, submetido a choques e atingido por spray de pimenta antes de ser colocado inconsciente na viatura policial.

O caso não é isolado. Em fevereiro de 2024, o mesmo policial já havia sido alvo de investigação pela morte de Antônio Boneti do Nascimento, que teria descumprido uma medida protetiva.

O Gacep investigou o caso, pediu à Justiça que José Laurentino e o parceiro dele, soldado Vinícius Araújo Soares, fossem presos, e os denunciou por homicídio.

Hoje, há cerca de 10 investigações em andamento, afirma o promotor. “O Gacep está absolutamente pronto para, a partir de 7 de maio, fazer frente a essas investigações, de forma justa, apurando com clareza e seriedade tudo aquilo que lhe chegar às mãos. Nosso trabalho é identificar ilegalidades, se processando quando ocorrerem, ou fatos justificáveis e os reconhecendo também quando porventura eles chegarem às nossas mesas”.

Quando informadas pelas forças de segurança, comumente, o termo confronto é utilizado. Douglas Oldegardo explica que, contudo, a palavra não descreve exatamente as ocorrências do gênero. “A expressão correta é morte decorrente de intervenção policial, porque confronto pressupõe uma ação recíproca, e isso nunca pode ser presumido de antemão”.

De acordo com Douglas, cabe justamente à investigação apurar se a ação policial foi justificada — em situações de risco real à vida do agente — ou se houve excesso.

Para Douglas, o MPMS está preparado para a nova fase. “Estamos absolutamente prontos para cumprir essa obrigação, investigar com seriedade, responsabilizar quando houver ilegalidade e reconhecer as ações justificadas quando for o caso”, concluiu.

A partir de maio, polícia terá de chamar MP sempre que abordagem acabar em morte

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