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Exemplo a ser seguido

Por Charles Mady (*) | 02/03/2021 07:44

Estamos atravessando um período que poderíamos definir como sendo uma tempestade perfeita. A associação da pandemia, que por si só já é gravíssima, com a decadência de valores republicanos nos poderes pretensamente responsáveis, e a ausência de espírito público em vários segmentos de nossa sociedade, explicam essa complexa catástrofe de agora. Por mais que estudemos, querendo compreender a consciência humana, torna-se cada vez mais difícil entender as reações das variadas pessoas que participam de nosso dia a dia.

O ser humano é bom ou mau? Desde antes dos pré-socráticos, mesmo nas épocas do paganismo, e do período chamado erroneamente de bárbaro, as sociedades se orientavam para o bem comum, seguindo determinadas regras. Conseguiam conter o lado “mau” do ser humano para que a maioria se beneficiasse.

Havia, como muitos filósofos e teólogos chamam, uma consciência universal que, de alguma forma, era despertada, como, por exemplo, a necessidade de sobrevivência. As sociedades se organizavam visando a um bom resultado para todos. Caso isso não ocorresse, o grupo se desintegraria. Uma das raras boas criações da Revolução Francesa (o Bill of Rights da Revolução Americana é anterior, 1791, e influenciou a Revolução Francesa) foi a formalização dos Direitos Humanos. Hoje, mais do que nunca, necessitamos também dos Deveres Humanos, para podermos ser chamados de civilizados.

Essa tragédia atual demonstra que as lições da vida não foram bem aprendidas. O sofrimento de hoje não poderia nos trazer aprendizado e evolução, com o aumento de nosso poder de observação sobre a estrutura humana e social que nos rodeia? Sabemos, pela história, e por experiência, que nos momentos difíceis a consciência tende a despertar.

Mas como explicar que, neste momento trágico, ideologias negacionistas, com tendências totalitárias e messiânicas, maniqueístas, não tenham sido influenciadas pelas atuais necessidades? Como explicar que o lado “mau” consiga levar parte da população a se afastar da obrigação (benéfica) de receber vacinas, independentemente de sua origem? Como explicar que, perante a atual calamidade, nosso sistema de poder, que todos sabemos por qual cartilha reza, não se sensibilize com o atacado, que é o sofrimento do povo? Como explicar que nossos “líderes” fiquem discutindo o varejo da vida, suas moedas e armas, e se mantenham em uma redoma de vidro, contando seus metais? Será que, dos altos das vaidades e egocentrismos, não há uma gota de sensibilidade e compaixão? Será que, dentro de suas redomas, nunca ouviram a frase de alguém à beira da morte, crucificado, “eles não sabem o que fazem”?

Será que a deseducação, a corrupção da consciência, pode chegar a esse ponto? Os bons e maus exemplos são grandes professores, incentivando-nos a buscar soluções.

Somos testemunhas de como as academias reagiram à situação, procurando resultados através da ciência, que atingiu níveis muito elevados de qualidade, dando exemplo de como somos capazes de enfrentar adversidades, apesar dos maus exemplos e da falta de reconhecimento e espírito público que atavicamente nossas autoridades demonstram, colocando-se acima “do bem e do mal”. Os segmentos que se colocam nesse patamar são moralmente decadentes, mas nosso sistema político os mantêm, e permitem que apenas seus semelhantes sejam entronados, envergonhando-nos profundamente.

Não podemos desanimar ou perder a esperança, pois temos recursos humanos de alto nível em nossa sociedade, exemplos que deveriam ser seguidos. Para ilustrar, recebi a primeira dose da vacina para a covid-19 num ambiente com uma estrutura de primeiro mundo, montada por um grupo altamente consciente de suas responsabilidades, com elevado grau de profissionalismo e paixão. Isto em um serviço público, portanto, do SUS. Estava eu, às seis e trinta horas de um domingo, na fila de vacinação no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, para receber a segunda dose, quando me deparei com os responsáveis pela nossa administração, dirigindo o processo e rodeados por profissionais altamente motivados. Chamou minha atenção nossa diretora clínica, juntamente com o superintendente e todas suas equipes, dando um norte presencial em todo o processo, chegando até a disciplinar as filas de espera.

Admirável. Não é frequente encontrarmos chefias liderando processos presencialmente, em busca de resultados para todos. Poderíamos ter estruturas semelhantes em todo o País, se nosso SUS e as áreas políticas da saúde pública fossem entregues a pessoas educadas e responsáveis, que existem em profusão, para essas tarefas. O Hospital das Clínicas deu exemplo para todo o País, com lições de competência e espírito público. O Brasil tem, em todos os setores, pessoas com essas qualidades. É só permitir que atuem, abrindo as portas desse sistema fechado, que necessita urgentemente ser reformado. Gostaria que este texto servisse de estímulo para todos se vacinarem.


(*) Charles Mady é professor associado da Faculdade de Medicina da USP

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