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Guia para o bom e para o mau governo

Por Janice Theodoro da Silva (*) | 29/05/2026 08:09

Para Fortunato Pastore

“Há sabedoria na negação de que política e guerra pertençam ao mesmo continuum. A menos que insistamos em negar isso, nosso futuro, tal como o dos últimos habitantes da Ilha de Páscoa, poderá pertencer aos homens com mãos sangrentas.”
John Keegan

Abomba atômica virou objeto de desejo para o exercício da política?

Antigamente, os sábios escreviam cartilhas sugerindo maneiras para o soberano realizar o Bom Governo. Vinculavam a ética à política.

Hoje, os governantes não escutam os filósofos, desprezam os cientistas e ignoram a ética. A discussão sobre a melhor forma de governo deixou o campo da política para se transformar em impacto visual e comunicacional. A bomba atômica, os mísseis e mesmo os “pequenos” erros de cálculo, resultando no extermínio de crianças em um dia de aula, fazem parte da política como arte do impacto visual ou verbal. Uma foto tirada a distância, um cogumelo atômico ou a trajetória de um míssil podem fazer sucesso pelo impacto destruidor visualizado nas redes.

* * *

Diante do desejo de extermínio expresso na vontade de alguns governantes, e sem ver alternativas diante do desafio, caminhei até a estante. Quem sabe um livro guardasse explicações para a loucura humana. Passei os olhos na minha prateleira preferida. O olhar, por vício, percorreu o caminho de sempre. Buscou um remédio potente para o mal-estar contemporâneo. Contemplei as brochuras: a Ética a Nicômacos, de Aristóteles; a República, de Platão; até chegar no último livro da prateleira, Averróis: a arte de governar (uma leitura aristotelizante da República), de Rosalie Helena de Souza Pereira.

É este.

Peguei o livro.

Esperança?

Em um nome, Averróis, a sugestão da cura do mal-estar na cultura da guerra. Um filósofo, intérprete do Corão, defensor do aristotelismo. Um jurista envolvido com o campo do possível, do diálogo, da política entendida como “a arte do Bom Governo”. Um médico apegado à demonstração.

A reflexão dos textos de Averróis e as reflexões de Rosalie Helena, em seu livro Averróis: a arte de governar, abrem portas para um retorno às antiguidades. Reflexões, traduções, conversas de filósofos, em busca de compreensão, conciliação de ideias, discussões sugestivas entre cristãos e mulçumanos.

É grande a proeza dos filósofos, ao longo da história, ao pensar a política e a arte do Bom Governo. Reflexão potente sugestiva ainda hoje, um caminho de interlocução entre partes conflitantes.

Os filósofos deixaram terra fértil para plantar.

* * *

Participou da mágica, da aproximação entre culturas, Averróis.

O personagem nasceu em Córdoba, Espanha, 1126; morreu em Marrakech, Marrocos, 1198. Foi comentador de Aristóteles e herdeiro das ideias de Avicena (980-1037), este último, filosofo persa, cuja civilização, hoje, um vaidoso governante pretende exterminar com bombas e mísseis.

Averróis, teólogo, jurista, médico e linguista, fez parte de uma família de juízes. Seus comentários sobre os textos de Aristóteles serviram como ponte de discussão entre os estudiosos do mundo islâmico, do Corão e, posteriormente, outros pensadores cristãos como São Tomás de Aquino (1225-1274).

Encontrei no livro de Rosalie Helena de Souza Pereira e nos textos de Averróis, traduzidos do latim pela autora, o que procurava. Reflexões sobre a “arte de governar”, sobre a busca de um soberano pelo Bom Governo.

* * *

A filosofia de Averróis, com raiz em fontes persas, nos conduz para um gênero literário conhecido como “Espelhos de Príncipes”. Trata-se de guias práticos com conselhos aos governantes. No Ocidente essa tradição ficou conhecida por meio da obra O Príncipe, de Maquiavel.

O gênero, frequente tanto na Idade Média como no Renascimento, proliferou no século 21 transformado. Uma nova espécie de Espelho de Príncipe ao inverso surgiu nas redes sociais de forma inesperada. Governantes e autocratas organizados internacionalmente produziram e divulgaram um verdadeiro manual voltado para pôr fim às democracias. Para aqueles que as defendem, o fim do Bom Governo.

Mas afinal, como saber o que é bom ou mau governo, o que difere o bom do mau imperador ou presidente? De acordo com o olhar de quem, o bom é bom e o mau é mau? Com base em que premissa?

Averróis, ao analisar a “arte do Bom Governo”, explica as virtudes necessárias para administrar os bens e evitar o abuso de poder do governante. Ele sugere como régua de medida utilizar virtudes como a temperança, a justiça, a coragem e a generosidade. Virtudes tendentes a gerar mais consonâncias que dissonâncias entre os interlocutores com pretensões de encontrar soluções para os problemas da política. Seus comentários demonstram afinidades com as proposições de Aristóteles e com as premissas dos humanistas.

A brecha para o entendimento entre as partes, segundo Averróis, tem origem na razão em conjunto com a ética. Para o sábio-filósofo, a magnanimidade necessária ao governante exige grandeza de espírito para afirmar o que a ciência prova ser verdadeiro, impedindo que o pensamento permaneça “confinado às opiniões que não resistam ao escrutínio científico”. Para ele, cabe ao jurista ir além do estritamente descritivo e vincular o raciocínio demonstrativo às virtudes éticas, com destaque para a justiça.

Dizia, “O amor à verdade está a par com o amor à justiça, pois não há verdade sem justiça”.

A razão é intransigente, não admite nem mentira, nem injustiça.

Para uma pessoa compreender outra pessoa, os interlocutores devem ser verdadeiros. Para Averróis, “a verdade não contradiz a verdade”.

* * *

Para tornar as ideias claras sobre o que é o Bom Governo, nada melhor do que as sugestões de Averróis, sintetizadas por Rosalie Helena.

Elas são as seguintes:


“Disposição natural para o aprendizado das ciências teorética (conhecimento contemplativo física, matemática, teologia);
Ter boa memória;
Amar o conhecimento;
Amar a verdade e a justiça e odiar a falsidade;
Ser temperante (moderado);
Desprezar o dinheiro (bens materiais);
Ser magnânimo, ou melhor, ser aberto para receber o conhecimento de tudo;
Ser corajoso para enfrentar opiniões consolidadas, mas não fundamentadas na ciência;
Ser justo e virtuoso com base na razão;
Ter boa retórica para expor os argumentos fundados na ciência e ter habilidade para encontrar rapidamente o termo médio”.


Ao tratar da metodologia jurídica Averróis defende um “raciocínio hermenêutico para fins legais que permite ao jurista elaborar a lei com base no Corão”, fornecendo ao estudante instrumentos para discutir os métodos de interpretação dos juristas para, com conhecimento, expressar suas opiniões.

* * *

Diferente do passado, alguns governantes atuais, estimulados pelo sucesso nas redes de comunicação, desenvolveram um guia prático para ganhar dinheiro e fazer politica com base em novas premissas. Irritados com o hábito lento, prudente, de refletir sobre todas as coisas, produziram um manual de digestão rápida, invertendo os sinais defendidos por Aristóteles e Averróis.

Um guia do mau governo, mais marcado pela prática instantânea do que pela reflexão, foi produzido por um certo conjunto de governantes do século 21. Embora não tenha sido escrito, funciona como exemplo, estímulo à guerra, ao conflito, ao uso intensivo de bombas e da inteligência artificial em campos de batalha. O modelo demonstra aversão pela ciência e pela verdade e estimula o ódio, o desejo de destruir civilizações, diminuir a população mundial.

O guia, se fosse escrito, traria as seguintes sugestões para o soberano:

• Disposição interessada para o aprendizado de práticas voltadas para a obtenção do sucesso a qualquer preço;
• Dispensa da memória natural e valorização do celular como repositório de memória;
• Aversão ao conhecimento;
• Ódio à verdade e à justiça e amor à falsidade;
• Valorização do excesso;
• Dignificação do dinheiro (bens materiais);
• Valorização da crueldade e indiferença às gentes, culturas e civilizações;
• Menosprezo diante de posições consolidadas e fundamentadas na ciência;
• Indiferença diante da injustiça e perversidade com base na desrazão;
• Uso de vocabulário pequeno e simples para favorecer a cristalização de inverdades com estímulo para comportamentos impulsivos e voltados para o excesso.

Este é o guia praticado no século 21 por alguns governantes para o exercício do seu governo. O roteiro sugere morte ao humanismo.

Extravagante século 21.

Sobreviverá alguém para contar a história da bomba, do ódio e da mentira?

A primeira frase do livro de John Keegan, Uma história da guerra, é desafiadora: “A guerra não é a continuação da política por outros meios”.

Ao refutar a tese de Clausewitz (1780-1831), Keegan analisa outros estudiosos do tema, como Russell Weigley, para quem a guerra pode indicar a falência da política.
Nos dias atuais estas reflexões, de Averróis a Clausewitz, servem de estímulo à reflexão.

Prezado leitor, o tédio chegará a tempo no coração dos guerreiros?

(*) Janice Theodoro da Silva, professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.