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Capital

Com vídeos, família contesta acusação de estupro contra jovem baleado pela PM

Rapaz está internado desde domingo, teve a perna amputada e segue em estado grave na Santa Casa

Por Bruna Marques e Geniffer Valeriano | 15/07/2026 11:22

Familiares do rapaz de 24 anos, baleado por policiais militares durante abordagem em borracharia no Bairro Nova Campo Grande, no domingo (12), afirmam que ele foi tratado como autor de estupro antes mesmo de ser ouvido. Vídeos apresentados pela família mostram policial entrando no imóvel e dizendo: “Você que estuprou a menina, seu cuzão? Arregaçou a menina”, enquanto se aproxima do suspeito.

RESUMO

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Familiares de um jovem de 24 anos baleado por policiais militares durante abordagem em uma borracharia no Bairro Nova Campo Grande, em Campo Grande, contestam a versão policial do ocorrido. Vídeos mostram um PM chamando o suspeito de estuprador antes de ouvi-lo. O rapaz, investigado por estupro de uma adolescente de 17 anos, teve a perna amputada e corre risco de morte, segundo a família, que também acusa os policiais de não terem acionado socorro imediatamente.

A polícia investiga o homem por suspeita de estupro contra adolescente após baile funk na Capital. A família nega o crime e contesta a versão registrada no boletim de ocorrência, segundo a qual ele teria tentado fugir, entrado em luta corporal com policial e tentado tomar a arma do militar antes de ser baleado.

Comerciante de 38 anos, prima do rapaz, que pediu para não ter seu nome divulgado, afirmou que policiais chegaram inicialmente ao local em dois camburões, acompanhados pelo pai da adolescente, que teria se apresentado verbalmente como PRF (Polícia Rodoviária Federal).

Segundo ela, o grupo procurava pelo suspeito, mas não o encontrou e deixou o endereço. Depois, os policiais teriam retornado acompanhados de uma testemunha e passado a acusá-lo de estupro.

“Já chegaram falando que ele tinha estuprado a menina. Não perguntaram nada e não ouviram ele. Já chegaram afirmando que ele tinha estuprado e agredido ela”, declarou.

A comerciante também afirmou que familiares tentaram impedir a entrada dos policiais na residência do pai do investigado.

“Nós nos mobilizamos porque eles queriam entrar na casa do meu tio para pegar ele e não deixamos. Ficamos no portão. O pai da menina foi para cima da esposa do meu tio, fazendo menção de agredir ela, e tivemos que intervir para ela não apanhar. Depois eles entraram e escutamos os tiros”, relatou.

A familiar diz que o homem está internado em estado grave na Santa Casa, sob escolta policial, e que os parentes enfrentam dificuldades para obter informações médicas e visitá-lo.

“Queremos justiça. Ele está muito mal no hospital. Ele não é culpado do que estão falando. O que fizeram com ele foi uma covardia”, afirmou.

Eunice Aparecida dos Santos, de 40 anos, prima do homem baleado, afirmou que ele contou ter conhecido a adolescente naquela noite e que os dois estavam juntos voluntariamente.

Segundo Eunice, imagens de segurança apresentadas pela família mostram a jovem em uma lanchonete, após o rapaz já estar em casa, sem ferimentos aparentes e acompanhada por um amigo do suspeito.

“Temos a imagem que mostra que, depois que ele deixou a menina e o amigo, o menino ainda a levou na salgadaria. A menina estava bem, sem hematoma nenhum”, declarou.

Eunice também afirmou ter recebido informações de que outra pessoa poderia ter agredido a adolescente, mas reconheceu que não pode confirmar essa versão. “Segundo o que chegou para nós, e eu não posso afirmar, quem bateu nela foi o próprio pai”, disse.

A familiar também contestou a versão de que o homem simplesmente tentou fugir da polícia. Segundo ela, havia uma mulher cadeirante e crianças dentro da casa no momento em que os policiais entraram.

“Não é que ele fugiu. Quando eles entraram na casa, estava minha tia cadeirante e criança dentro de casa. Quando ele viu, o policial já sacou a arma. O tiro foi dentro da casa, com todo mundo ali dentro. O que você faz quando alguém te dá um tiro? Você corre, não vai querer morrer, ainda mais por uma coisa que não fez”, afirmou.

Vídeo de câmera de segurança entregue pela família ao Campo Grande News mostra, às 12h25, um policial militar entrando no quintal da casa e dizendo ao homem: “Você que estuprou a menina, seu cuzão? Arregaçou a menina”, enquanto caminha em direção a ele.

Em outra gravação, feita por um familiar, um policial tenta entrar na casa enquanto parentes protestam e dizem que ele não poderia entrar no imóvel daquela forma.

Ao fundo, um homem que no vídeo se identifica como tio da adolescente afirma: “Calma aí, senão vai sobrar para você. Estupraram minha sobrinha ontem, caralho. Cala a boca. Nós vamos tomar a providência que tiver que tomar. Foi você que foi estuprada, vagabunda? Não, né? A menina está lá no hospital e nós vamos apurar, caralho”.

Outra gravação mostra o pai da jovem afirmando: “Tem laudo médico. Minha filha era virgem. Foi estuprada por esse vagabundo, nesse carro”, enquanto aponta para o veículo do suspeito que estava estacionado em frente ao imóvel.

Um quarto vídeo mostra o homem baleado recebendo atendimento do Corpo de Bombeiros.

Marcelo Rodrigues, de 48 anos, pai do homem baleado, reconheceu que o filho possui antecedentes criminais e estava com mandado de prisão em aberto por ter rompido a tornozeleira eletrônica.

Mesmo assim, afirma que o histórico não pode ser usado como prova da acusação de estupro.

“Meu filho, eu não vou mentir, já teve problema com a Justiça. Falar que ele é santo é mentira. Inclusive estava com mandado de prisão porque violou a tornozeleira eletrônica. Mas isso não vem ao caso com o que aconteceu agora. Ele está sendo acusado de estupro, uma acusação muito séria”, declarou.

Segundo Marcelo, o filho precisou amputar uma das pernas após ser atingido pelo tiro e corre risco de morrer. “Ele está correndo risco de morrer. Precisou amputar a perna. O tiro detonou a perna dele”, afirmou.

O pai também acusa os policiais de não terem chamado imediatamente o socorro. Segundo ele, foram os próprios familiares que acionaram o Corpo de Bombeiros.

“Se não fosse minha esposa e a prima dele para socorrer, os policiais não chamaram socorro. Trouxeram uma camionete para jogar ele igual porco, mas não deixaram. Minha família chamou o socorro e o bombeiro veio”, disse.

Os familiares também alegam que policiais teriam falado em destruir as câmeras de segurança do imóvel.

Vários familiares se reuniram na manhã de quarta-feira na borracharia do pai do rapaz, local onde ocorreu a abordagem, para falar com a reportagem e contestar a acusação de estupro.

Segundo eles, o homem permanece internado sob escolta na Santa Casa e as visitas estão restritas. A família afirma ainda que só conseguiu acesso ao boletim médico dias depois da internação.

Eunice disse que recebeu a informação de que o estado de saúde é gravíssimo e que a chance de sobrevivência seria baixa.

“A gente não consegue ver ele. Está em estado gravíssimo. Conseguir informação é a coisa mais difícil que tem. Nunca sabe o que acontece”, declarou.

Com vídeos, família contesta acusação de estupro contra jovem baleado pela PM
Perícia levando as câmeras de segurança do local (Foto: Osmar Veiga)

Contestação - A versão registrada no boletim de ocorrência é diferente da apresentada pelos familiares. Segundo o documento, equipes da Força Tática foram até uma borracharia na Avenida Dois, no Bairro Nova Campo Grande, após receberem informações de que o investigado poderia estar no local.

Ele não teria sido encontrado inicialmente, mas acabou localizado escondido em uma construção nos fundos do terreno.

Ainda de acordo com o registro policial, ao perceber a aproximação da equipe, o homem tentou fugir, desobedeceu às ordens de parada e entrou em luta corporal com um dos militares, tentando tomar a arma do policial.

Durante a intervenção, foi atingido por um disparo na coxa.

Documentos anexados ao flagrante apontam antecedentes por roubo, receptação, furto, tráfico de drogas e adulteração de sinal identificador de veículo, além de um mandado de prisão pendente no momento da abordagem.

A família não nega o histórico criminal nem a existência do mandado, mas insiste que esses fatos não provam a acusação de estupro. “Ele pode ter vários problemas, mas ele não é estuprador. Queremos Justiça”, afirmou Eunice.

A reportagem solicitou posicionamento da Polícia Militar e da Polícia Rodoviária Federal sobre os fatos. Até a publicação desta matéria, os órgãos não haviam enviado resposta.

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