A notícia da terra a um clique de você.
Campo Grande, Segunda-feira, 25 de Junho de 2018

09/03/2013 11:00

Mais dois mil anos

Leonardo Avelino Duarte (*)

Com acertos e erros, uma das instituições mais antigas do planeta é a Igreja Católica. Seus benefícios para a humanidade superam, de longe, seus alegados males. A eclesia romana e o Império Bizantino provavelmente salvaram para o mundo a herança clássica greco-romana, na Idade Média. Só isso justificaria sua existência. Mas, não foi só. As primeiras universidades foram fundadas pela igreja, que também pode se orgulhar por ter defendido o fim da escravidão e o combate às desigualdades sociais.

Ao lado de seus acertos, contabilizam-se, também, erros. A história da Igreja é marcada por fraudes (como a doação de Constantino), disputas pelo poder e perseguições. Atualmente, ela enfrenta muita dificuldade decorrente dos casos de pedofilia, que maculam a sua imagem. Mas ninguém nega que é uma instituição séria, e que seus dirigentes tentam fazer o bem, dentro de suas limitações humanas.

Na verdade, a Igreja é criticada por ser conservadora. Demasiadamente conservadora, segundo muitos. No fundo, queremos que a Igreja pense como nós, o que prova a sua importância. Só damos valor àquilo que faz parte de nossas vidas, para as coisas que nos movem. Criticamos a Igreja que perde fiéis ao condenar o uso da camisinha, que proíbe a ordenação de mulheres e que impõe o celibato aos padres, mas nada falamos da mesma Igreja que defende, de maneira intransigente, os direitos humanos e o amor ao próximo.

É claro que o catolicismo precisa mudar. É o próprio Bento XVI, agora papa emérito, quem o diz. Sua exortação para que o espírito do Concílio Vaticano II esteja presente na Cúria Romana não pode significar coisa diversa. A própria renúncia do papa, a primeira em 600 anos, já é um grande signo do profundo processo de modificação pelo qual vive a Igreja. Para o cardinalato, a renúncia era impensável, tanto que nem mesmo era prevista nos códigos canônicos. “Da Cruz não se desce”, sussurraram alguns. Mas os católicos, em geral, interpretaram a vacância da Santa Sé como um ato de nobreza e humildade do Sumo Pontífice, de alguém que admite não ser mais capaz de fazer o que considera certo e abre espaço para que outro o faça.

Porém, não se deve crer que a transformação pelo qual passa a Igreja deva simplesmente significar uma mudança dela segundo nossas convicções. Nos séculos VII e VIII, o Cristianismo enfrentou grande crise a respeito do uso de imagens, que foram inclusive banidas no mundo oriental. O ocidente queria manter a imagens. O oriente queria o seu fim. Nada obstante, a Igreja seguiu seu curso, e a discussão que se seguiu deu origem a uma profunda teologia sobre o uso de imagens (iconofilia).

As discussões pela qual atravessa a Igreja terão resultado. E nem é verdade que o Catolicismo não mude, ou mude muito pouco. Entre duas grandes transformações pelo qual a Igreja passou no século XX estão o fim das missas em latim e sua aproximação de outras religiões, em especial as Igrejas Ortodoxas Orientais, de quem o Catolicismo Romano se mantinha divorciado desde o séc. X.

A máquina católica, centralizada no Papa, tem 209 cardeais, 5.100 bispos e 412 mil padres, além de cerca de um bilhão de fiéis. É notável que uma instituição deste porte possua dois milênios de história. E se ela continuar mudando como vêm mudando, sem necessariamente agradar a todos, mas seguindo sua coerência filosófica e histórica, é bastante provável que tenhamos mais dois mil anos de história. A humanidade agradece.

(*) Leonardo Avelino Duarte é advogado, professor universitário, presidiu a seccional da Ordem dos Advogados do Brasil em Mato Grosso do Sul (2010 - 2012) e faz parte do Conselho Federal da OAB.

A corda arrebenta para todos
Ao pensar na África, geralmente formamos imagens com exuberância de recursos naturais. Falta de água nos remeteria aos desertos daquele continente, e...
Os três pilares do aprendizado
A educação brasileira passa por um profundo processo de transformação com a implantação da nova Base Nacional Comum Curricular. Precisamos estar pron...
O país onde tudo é obrigatório
Nos Estados Unidos, na França e na Inglaterra, as regras ou são obedecidas ou não existem, por que nessas sociedades a lei não é feita para explorar ...
Universidade pública e fundos de investimento
  A universidade pública não é gratuita, mas mantida pelos recursos dos cidadãos. E por que a Constituição brasileira escolheu determinar esse tipo d...


imagem transparente

Classificados


Desenvolvido por Idalus Internet Solutions