Mestiço, moreno, “minha avó era negra”: quem ganha com o orgulho pardo?
Um casal retirante do Recife em São Paulo resumiria parcialmente meus avós. A aparência era a seguinte: um homem com traços árabes, pele clara, baixinho, e uma mulher negra, alta e austera. O que minha família tinha de especial? Nada. Poderia ser a descrição da sua família, poderia ser a descrição da família de Jorge Messias, o advogado-geral da União indicado por Lula ao STF, que se autoidentificou publicamente como um homem pardo. Mas esse texto não é sobre nossa família, é sobre nós.
Lendo e ouvindo as falas dos filósofos Lélia Gonzalez, Kabengele Munanga e Carla Akotirene – pois temos a sorte de serem pensadores negros contemporâneos –, eu buscava por um lugar no colo da negritude. Enquanto isso, “catava”, cabralinamente, os feijões da minha identidade, espalhados no tabuleiro da memória. Mas, o que eu encontrei foi uma compreensão profunda de que os processos do meu embranquecimento são de ordem íntima; já a minha apresentação social como uma mulher branca é o que importa na coletividade.
“Olha a foto, pessoal: os pretos de um lado, os brancos de outro!”, brincava o tio “Lia” – o mais escuro dos meus tios, que ficava praticamente sozinho ao lado da minha avó, enquanto os outros corriam para o outro lado. A verdade é que a maioria, naqueles natais de 1990, estavam no meio. Eu e um punhado de primos somos a primeira geração de brancos da família. Neste contexto familiar, a adoração pela nossa matriarca negra não nos deixava perceber o racismo à porta.
Saindo do lugar da foto, na esquina de casa, a Dona Maria Augustina ouvia do farmacêutico: “Como essa garota de olhos verdes pode ser sua neta? E preto tem neto bonito assim?”. E, ali, eu já havia entendido, sem saber que nome dar, como era a branquitude. Eu odiava o farmacêutico, porque queria estar com minha avó; queria ser como ela. Mas a questão era simples: o embranquecimento aconteceu, e da vó Maria, eu só tinha herdado o gênio.
Voltemos para a compreensão profunda, adquirida com os filósofos. Começa com uma atitude individual, em reconhecer o racismo estrutural, o racismo em mim e à minha volta. E depois, em colaborar para um contexto social que já foi estabelecido pelo Estatuto da Igualdade Racial do Brasil, em que pretos sejam identificados como pretos, pardos como pardos e brancos como brancos. A negritude tem um limite, e esse limite é o fenótipo – cor da pele, formato do nariz e dos lábios, cor e textura dos cabelos.
É preciso olhar com lupa as relações embutidas no quesito raça/cor do Brasil, que se diferem de outros países. Mas aqui e agora, a partir do momento em que eu, uma mulher de pele clara, me identifico como parda em virtude de minhas redes familiares e afetivas, outra mulher verdadeiramente parda vai se identificar como preta. E o que ocorre é que essas pessoas brancas e pardas aumentam o “score” dos indicadores sociais, que são essenciais para a formulação e avaliação de políticas públicas.
Quando uma mulher parda que se identifica como preta ascende socialmente, os órgãos de pesquisa e coleta de informações recebem um dado incorreto sobre a realidade social de pessoas pretas – escuras, retintas. Não só os órgãos que contabilizam dados de pesquisa social, mas a política de cotas e o próprio sistema de saúde vai trabalhar com um conjunto de indicadores equivocados para compreender questões como incidência de patologias, contextos de exclusão educacional e vulnerabilidade social. Além disso, traz a falsa impressão de que pessoas pretas estão em maior número em espaços de poder e de tomada de decisão, o que não é verdade. Estes são os “frutos” da nossa enraizada desigualdade racial que, se utilizando dessas artimanhas, segue operando diariamente.
Como bem lembrou a professora Bárbara Carine, atualizações cadastrais junto ao governo – que servirão de base para instituições como o IBGE – são importantes para coleta de dados do cotidiano e manutenção de políticas públicas que nunca se configuram conquistas estabelecidas, mas são alvos de disputa por sua continuidade ou erradicação, a depender de grupos e contextos políticos.
Apesar de pardos e pretos configurarem categorias que denotam cor de pele e, histórica e politicamente, ambos formarem a categoria social “negro” – como estabelece o Estatuto da Igualdade Racial –, é importante resgatar o pensamento do sociólogo Vinícius Rodrigues, quando diz: “Me parece que lutar pela valorização dessas categorias de cor de pele em separado é puro fetiche de identidade”. Mesmo sabendo que a ideia de raça é uma construção social derivada de um fenótipo, Rodrigues lembra que também o é a identidade. E, nesse caldo, a identidade se trata ainda de um importante regulador individual, além de uma ferramenta de luta coletiva.
Não estaríamos nós, pessoas claras (brancas, admita), utilizando a velha e boa “carteirada” do “não sou tão branco assim” e sendo cooptados pela própria branquitude para parecermos inclusivos? Para experimentarmos um pertencimento sem relação orgânica com o passado – como disse Hobsbawm – ou com uma ancestralidade fantasiosa, envolta em uma perigosa aura de purismo racial? É uma pergunta difícil, mas que precisa ser feita. É preciso reconhecer que, embora não sejamos “brancos tradicionais”, europeus com “pedigree”, somos resultado – visto e constatável – do embranquecimento populacional, política eugenista e institucional do pós-abolição.
Temos a oportunidade de tomar as rédeas do nosso letramento racial a partir do enorme volume e qualidade da produção intelectual negra a que, cada vez mais, ainda bem, vamos tendo acesso. Com isso, precisamos ter “consciência de raça”, saindo deste confortável lugar-imaginário de que o Brasil é o paraíso da miscigenação.
Carla Akotirene vai dizer que o colorismo é um desserviço, mas reconhece que a sociedade é colorista – um estereótipo que foi introjetado entre brasileiros em cima da ideia de “cor da pele”. Vale lembrar que as pessoas pretas no Brasil correspondem a cerca de 10% da população, resultado do projeto eugenista de Estado, da falta de assistência social gerando mortes precoces e dinâmicas familiares inter-raciais estruturadas na escravização de pessoas pretas trazidas à força para fora de seus países, atravessando o Atlântico em situação degradante de sua humanidade.
Essas pessoas escuras, como também lembrou Akotirene, eram homens e mulheres que viviam servindo às casas-grandes internamente, sem qualquer reconhecimento social e considerados indignos de qualquer afeto ou admiração – mesmo sendo seus trabalhos estruturais para o funcionamento daquela sociedade. Lembremos da figura da “mãe preta”, mulher gorda, cozinheira, que vivia trancada em casa servindo, enquanto a “mucama”, de pele mais clara – em geral mulheres mais jovens e magras – era escolhida para passear com as senhoras e servir como ama de leite a seus filhos.
Tanto mãe preta quanto mucama eram vítimas do racismo, da escravidão e da anulação de suas identidades. Mas as pessoas pretas foram e ainda são aquelas que sofrem com maior discriminação, bullyings sociais e falta de oportunidades por não se encaixarem no mapa cognitivo, moral ou estético de sociedades contraditoriamente globalizadas e padronizadas.
No filme O griô antirracista, o cientista social e professor da USP Kabengele Munanga ressalta que “a identidade de qualquer pessoa, antes de chegar na mente, passa pelo corpo. A nossa identidade passa pela cor da pele, o resto é visto depois”.
Sejamos, pois, tomadores do nosso devido trago de “semancol”. E quem sabe poderemos fazer uma onda de solidariedade e respeito pelas diferenças, que Lélia Gonzalez reconheceu nas “companheiras brancas efetivamente comprometidas com a causa”, em seu ensaio Por um Feminismo Afro-latino-americano. “A essas mulheres-exceção, eu as chamo de irmãs”.
Sejamos exceção.
(*) Tabita Brito é jornalista, produtora, escritora, editora e poeta.
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