Não volto mais
Há lugares que não cabem mais no mapa, embora continuem existindo no mundo. Permanecem com suas ruas, suas portas, seus cheiros de sempre, mas algo dentro de nós fecha a cancela e diz, com uma calma definitiva: não volto mais.
Não é sobre distância. É sobre travessia.
Há casas que já foram abrigo e hoje seriam apenas paredes. Mesas onde rimos até faltar o ar e que agora só guardariam silêncios constrangedores. Bancos de praça onde promessas foram feitas com a convicção ingênua de quem ainda acreditava que querer bastava. Lugares onde fomos inteiros, mas de um inteiro que já não somos.
Voltar, às vezes, seria uma forma de nos trair.
Porque existem geografias emocionais que cumpriram sua função. Elas nos receberam quando éramos menos, nos ensinaram o que precisávamos aprender, nos despedaçaram o suficiente para que descobríssemos como nos remontar. E é justamente por gratidão a tudo isso que não voltamos. Alguns solos não foram feitos para replantio, apenas para a colheita do que nos tornamos depois.
Não voltar é um gesto de respeito com quem sobreviveu.
Há pessoas que foram morada. Seus braços eram endereço fixo, sua voz era caminho de volta, seu olhar era farol aceso em noites de tempestade. Mas o tempo, esse escultor impiedoso e necessário, mudou o contorno de tudo. O que antes era porto virou correnteza. O que antes era encontro virou desencontro crônico.
E então entendemos: amar também pode ser partir.
Não voltar não é negar o que houve. É honrar. É reconhecer que certas histórias são tão intensas que só permanecem belas se forem deixadas intactas na memória, como fotografias antigas que amarelam com dignidade. Há reencontros que estragam a poesia. Há portas que, uma vez reabertas, deixam entrar ventos que apagam as últimas velas acesas dentro de nós.
Existem emoções que foram verdadeiras, mas não são mais saudáveis. Raivas que nos moveram, mas hoje nos parariam. Paixões que incendiaram a pele, mas queimariam a alma se insistíssemos nelas. Voltar seria reabrir feridas que o tempo costurou com linha fina e paciente.
A vida não pede repetição; ela exige continuidade
Por isso, em algum momento, escolhemos a despedida definitiva. Não por falta de coragem, mas por excesso de lucidez. Não por dureza, mas por cuidado. Entendemos que maturidade é saber que nem todo caminho bonito merece ser percorrido duas vezes. Há bares onde deixamos versões nossas que bebiam para esquecer.
Há empregos onde deixamos pedaços da dignidade na mesa do chefe. Há relações onde aceitávamos migalhas com medo de passar fome de afeto. Há cidades que guardam o eco de um choro que ninguém ouviu.
Não voltar é, muitas vezes, o primeiro passo para finalmente chegar.
É um pacto silencioso com a própria paz. Um acordo íntimo de que a nostalgia não terá poder de voto nas decisões futuras. Porque a saudade mente bonito. Ela retoca as lembranças, suaviza os cortes, coloca trilha sonora onde havia apenas ruído.
Mas o corpo lembra. A pele lembra. O coração, quando cicatriza de verdade, aprende a reconhecer o que não pode mais tocar.
Há despedidas que não pedem anúncio. Elas simplesmente acontecem quando percebemos que atravessamos a ponte e, atrás de nós, não há mais estrada, só paisagem. O passado vira mirante, não moradia.
E isso não diminui o que foi. Pelo contrário. Dá às experiências a dignidade de terem sido suficientes.
Não voltar é aceitar que crescemos. Que certos diálogos ficaram pequenos para a largura atual da nossa voz. Que algumas portas já não nos cabem. Que determinados abraços não alcançam mais o tamanho da nossa necessidade de inteireza.
Há lugares, pessoas e emoções que nos deram tudo o que podiam dar. E nós demos tudo o que podíamos dar a eles. O ciclo cumpriu seu desenho completo. Insistir seria rabiscar por cima de uma obra pronta.
Então seguimos.
Com gratidão pelo que aqueceu, pelo que ensinou, pelo que doeu e nos fez mais fortes. Com ternura por quem fomos naqueles cenários, ao lado daquelas pessoas, sentindo aquelas tempestades e primaveras. Mas com a firmeza serena de quem entende que a vida não é um museu de retornos, é um rio de partidas.
Não volto mais.
E é justamente por isso que posso ir mais longe.
(*) Cristiane Lang, psicóloga clínica, especialista em Oncologia pelo Albert Eisntein.
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