A notícia da terra a um clique de você.
Campo Grande, Quarta-feira, 23 de Outubro de 2019

25/07/2011 06:02

No trânsito, o terror e a impotência

Por Edson Moraes (*)

Não há adjetivos capazes de definir a dimensão da perplexidade, do horror e da indignação diante da verdadeira matança que diariamente acontece nas ruas, avenidas e estradas do Brasil. Campo Grande está situada na escala crítica do ranking nacional de acidentes de trânsito. É uma das cidades que buscam, ainda sem achar, medidas eficientes para minimizar, ao menos, o índice crescente de tragédias urbanas provocadas pelo uso incorreto dos veículos.

Campo Grande registrou no primeiro semestre deste ano 35 mortes no trânsito, sendo a maioria protagonizada por motociclistas. Estes são números oficiais e remetem apenas aos registros de óbitos no local. Se for somada a quantidade de pessoas que morrem 30 dias ou mais após o acidente, o número aumenta, e muito. Em proporção ainda mais assustadora cresce a legião de vítimas com sequelas, muitas irreversíveis.

Não é caso de culpar somente a autoridade. É caso de por em cena, com o destaque merecido, dois fatores determinantes para este cenário apavorante: um, os valores e princípios deformados de seres humanos que se julgam acima do bem e do mal, desobrigado das responsabilidades éticas e de uma existência em sociedade; outro, a fragilidade e a transigência inexplicável de leis e códigos normativos que deixam brechas por onde transitam a impunidade e a reincidência dos infratores.

Num país onde mais de 50 mil pessoas morem por ano e, proporcionalmente à população, seu trânsito é 90% mais perigoso que nos Estados Unidos e cinco vezes mais ameaçador à vida que na Inglaterra e Japão, já era hora de entender que pagar fiança perde seu sentido como medida punitiva eficaz. E, da mesma forma, impõe-se a necessidade de rever alguns conceitos jurídicos. O da faculdade do condutor se recusar ao teste do bafômetro, por exemplo.

Nemo tenetur se detegere (não produzir prova contra si próprio) é princípio pétreo do Direito, está inscrito na Constituição Federal, é reconhecido pelos estatutos internacionais e incluído entre as garantias fundamentais da pessoa. Porém, numa análise desapaixonada e livre das incoerências da generalidade conceitual, tal princípio precisa ser mantido, mas aperfeiçoado, sem os vícios e as deformações que ajudam a manter em liberdade condutores sem qualquer compromisso com o respeito às vidas humanas e ao patrimônio.

Vivemos numa conjuntura de confronto entre a consciência saudável do bem viver e de valores superficializados pelos apelos consumistas que fabricam, na volúpia do "Ter", a negação do "Ser". E estes apelos parecem levar vantagem na questão dos acidentes de trânsito. Quantos irresponsáveis matam e ferem por dirigir alcoolizados e, ainda trôpegos, se recusam ao teste do bafômetro, cientes da garantia da lei e confiantes nos artifícios que terão a seu dispor para procrastinar o rito processual e, nesse retardo, continuar por aí, dirigindo bêbados, atropelando, ferindo, matando...

O teste do bafômetro precisa ser obrigatório, não somente nas barreiras rodoviárias ou nas blitzes urbanas. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), vista como baluarte de primeira hora na defesa das instituições democráticas e da liberdade, precisa buscar saídas contra esse círculo vicioso permitido pela desatualidade do acervo jurídico das leis brasileiras. No mesmo plano de responsabilidade estão os legisladores, desde a Câmara Municipal ao Congresso Nacional.

Afinal, é necessário o mutirão de esforços, imperativo e incisivo, para intimidar e inibir verdadeiramente os maus condutores. Só a fiança não basta. Quem tem dinheiro e um Porsche para trafegar bêbado a 160 km/hora por ruas da cidade tem como atropelar e matar uma pessoa, pagar a fiança e no dia seguinte comprar outro Porsche e continuar tomando uísque e testando a velocidade da sua máquina pelas ruas da impunidade. Para estes, a vida será sempre um sinal verde. Para a família dos que morrem ou se ferem, resta o choro impotente e indignado de quem vê seus direitos bloqueados pelo vermelho do poder econômico e da incapacidade coercitiva e punitiva da lei.

(*) Edson Moraes é jornalista e blogueiro (www.edsonmoraes.jor.br).

Compliance: benefícios práticos nas empresas
Um dos principais patrimônios de uma organização é, sem dúvidas, sua reputação, que pode ter impacto tanto positivo como negativo nos negócios. Indep...
Um olho no peixe, outro no gato
O agro brasileiro poderia ser bem mais assertivo em sua comunicação com os mercados, aqui e no exterior. Falar mais das coisas boas que faz, seguindo...
Como transformar a nossa relação com a natureza?
Falar em meio ambiente não é algo abstrato. Se traduz no ar puro que respiramos, na água que bebemos e na fauna e flora que nos cercam. Somos depende...
Sem comunicação não há evolução
Os líderes do agronegócio hoje concordam que precisamos dialogar muito mais com a sociedade urbana, pois sem isso não teremos aderência nas necessida...


Parabéns pelo artigo bem lembrado, o nosso trânsito, especificamente o de Campo Grande M.S. , é realmente um caos, horrível, pécimo, mal educado e sem nenhuma paciência. Talves mude com o aumento das multas, quem sabe se for pelo bolso, os motoristas levam a sério o que vem acontecendo. Mas tem que ser um aumento considerável mesmo.
 
roberto dos reis em 25/07/2011 11:41:46
imagem transparente

Classificados


Desenvolvido por Idalus Internet Solutions