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O grande umbral

Por Heitor Freire | 02/08/2020 14:37

O maior acontecimento de nossas vidas e que nos provoca forte inquietação é a morte. É um mistério insondável ao qual só vamos ter acesso e entendimento quando ocorrer a nossa transposição ao Grande Umbral, que na acepção do espiritismo é o nome que se dá a um lugar de passagem entre a dimensão física e a dimensão espiritual, ou uma porta de entrada para o plano espiritual. A minha especulação a respeito desse tema é constante.

E para uma avaliação verdadeira, o caminho interior é o meio mais apropriado. Nesse terreno, estou confortável, pois é o mesmo entendimento de Santo Agostinho. Não conheço toda a obra de Agostinho, mas do pouco que conheço me identifico muito com seu pensamento.

Uma das grandes revelações dele foi o reconhecimento do verdadeiro sentido da intimidade. Ele diz: “Deum et animam scire cupio – quero conhecer a Deus e à alma. Nihil aliud, nada mais, absolutamente nada mais”.

A alma é entendida como a profunda intimidade do ser, porque nos remete ao nosso mundo interior. E fala justamente da natureza do espírito. “Espiritual não quer dizer não-material; há uma tendência muito frequente de entender o espiritual como aquilo que não é material; e não é disso que se trata, mas de algo muito importante: espiritual é aquela realidade que é capaz de entrar em si mesma, o poder de entrar em si mesmo é o que dá a condição de espiritual, não a não-materialidade. A insistência no imaterial ocultou o que é essencial, que é precisamente a capacidade de entrar em si mesmo.”

Por isso, Santo Agostinho diz: “Não vá fora, entra em ti mesmo: no homem interior habita a verdade: Noli foras ire in te ipsum redi: in interiore homine habitat veritas”. Essas palavras são, a meu ver, de uma enorme relevância para todos.

É disso que trata essa busca: do homem interior. A derradeira descoberta é a interioridade, a intimidade do homem. Santo Agostinho percebeu que quando o homem se concentra apenas nas coisas exteriores, esvazia-se de si mesmo. Quando se vira para dentro de si, quando se recolhe em sua intimidade, quando penetra precisamente naquilo que é o verdadeiro homem interior, o mundo interior, é justamente aí que Deus se encontra. É aí que se pode encontrá-Lo, e não nas coisas, não imediatamente nas coisas. Primariamente, por experiência, em algo que é justamente sua imagem.

Para Santo Agostinho, é preciso levar a sério que o homem é imago Dei, a imagem de Deus. É evidente que para encontrar Deus, o primeiro passo, e o mais adequado, será buscar sua imagem, que é o homem interior.

E nesse processo de busca interior, vamos entendendo o que realmente representa estar encarnado, tendo a oportunidade do conhecimento interior por meio do autoconhecimento, que desperta em nós o que realmente somos e nos liberta do medo da morte, preparando-nos para transpor o Grande Umbral.

Chico Xavier, no livro Cartas e Crônicas, ditado pelo Espírito Irmão X (Humberto de Campos), nos dá algumas dicas valiosas:

“Se você possui o tesouro de uma fé religiosa, viva de acordo com os preceitos que abraça. É horrível a responsabilidade moral de quem já conhece o caminho, sem equilibrar-se dentro dele.

Faça o bem que puder, sem a preocupação de satisfazer a todos. Convença-se de que se você não experimenta simpatia por determinadas criaturas, há muita gente que suporta você com muito esforço.

Por essa razão, em qualquer circunstância, conserve o seu nobre sorriso.

Trabalhe sempre, trabalhe sem cessar.

O serviço é o melhor dissolvente de nossas mágoas.

Ajude-se, através do leal cumprimento de seus deveres.

Quanto ao mais, não se canse nem se indague em excesso porque com mais tempo ou menos tempo, a morte lhe oferecerá o seu cartão de visita, impondo-lhe ao conhecimento tudo aquilo que, por agora, não posso lhe dizer.”

Tudo assim concorre para a nossa preparação interior para o grande e sublime momento.

(*) Heitor Rodrigues Freire  é corretor de imóveis e advogado.